terça-feira, 16 de novembro de 2010

"Sem Luthier" Parte 2: braços envernizados "grudentos"

Outra manobra simples, rápida e eficiente. Se tu és como eu, que por alguma razão orgânica ou química, tens as mãos que cismam em grudar nos braços envernizados, precisas de apenas 5 minutos para resolver esse problema.
Antes, uma foto dos tipos mais comuns de acabamento de braço:
1): Sem acabamento, observado principalmente em braços de maple. O maple fica extremamente liso após ser lixado com lixa de grão (aspereza da lixa: quanto maior o valor, mais fina/menos áspera) 400 ou 600 e é uma madeira de poros fechados, portanto bem resistente à umidade.
2): Envernizado, nota-se pelo brilho característico do verniz. Em teoria, é liso, mas basta uma leve umidade nas mãos para o verniz travar a pele. Incoveniente para guitarristas de pele fina ou com pregas mais frouxas na palma da mão.
3) Acetinado: imagino que venha do termo "cetim"... :) O acabamento sintético recebe menos polimento. "Gruda" bem menos.


Pois bem, a idéia é tirar o excesso de polimento do verniz, deixando-o com um aspecto mais fosco/acetinado e bem mais escorregadio. Em termos práticos, o braço fica mais "rápido".
Material: Bom-Bril (o mini é ideal - 1001 utilidades :) ) ou lixa de grão maior que 600 (1.200 seria ideal).
PS: o Ógner postou aqui que teve o mesmo efeito usando uma esponja Scotch Bright no lado áspero - mais uma possibilidade, então... :)

Procedimento: na internet existem vários vídeos mostrando - alguns usam uma fita adesiva para estabelecer os limites, mas eu faço no "olho" mesmo. Seguir os contornos do braço deixa-o com aspecto mais natural, sem a diferença abrupta entre o brilhante e o fosco:
Observe a diferença do brilho entre a base do braço e sua região posterior, já lixada com Bom-Bril. Para mim, esse procedimento deixa o braço 100% mais escorregadio.
Não use muita pressão (importante) e faça movimentos uniformes e linares. Atenção para não lixar a lateral da escala (normalmente ela não sofre muito com uma lixa fina/Bom-Bril, mas sempre é bom ter cuidado). A medida que vai lixando, forma-se um pó fino branco do verniz. Use um pano levemente umedecido para limpar, seque bem e teste seguidamente, até achar o seu ponto ideal.

Na foto, 3 braços lixados. O do meio (Cort KX Custom) foi o primeiro: ainda não tinha a manha dos limites e a separação brilho/fosco é mais abrupta.

Na dúvida, inicie esfregando bem levemente o Bom-Bril/Lixa e vá aumentando a pressão se achar necessário.
O legal é que é um processo reversível. Basta polir novamente o braço - nesse caso, eu uso cera automotiva "Grand Prix" e uma flanela macia. Moleza. :)

PS: Eu sabia que havia vídeos sobre isso mas nunca os tinha visto. Como o pessoal do fórum GP perguntou sobre eles, fui procurar e aqui estão 2 links:
Galeazzo Frudua - luthier italiano
How to Fix a Sticky Guitar Neck

sábado, 13 de novembro de 2010

Para os "Sem Luthier"...P1: Como alargar furos de tarraxas.

            Atualmente a luthieria é bem conhecida e já existem até cursos especializados (como a B&H em São Paulo), mas há 20, 30 anos, luthier era coisa rara. Somente nos grandes centros e olhe lá...
Porém, mesmo com a realidade atual, muitas cidades do Brasil ainda não têm luthier e os guitarristas têm que apelar para a internet e o sistema do "faça você mesmo", na marra.
Esse grande contingente de orfãos bem que poderia ser chamado de "MSL", ou "Movimento Dos Sem Luthier", parafraseando o MST (Movimento dos Sem Terra)... :)
Como tenho muitas guitarras, aprendi a fazer algumas coisas básicas de luthieria: troca de captadores e peças, regulagens e ajustes gerais. De vez em quando me deparo com alguma coisa mais complicada e ligo para o meu luthier (cuja oficina está a 30 km de distância) para saber se arrisco-me ao trabalho ou não. 
Vou destacar aqui um desses casos:


"Sem Luthier" Parte 1:  Como alargar furos de tarraxas.

      Durante a troca de tarraxas daquela Aria com P-90 postada anteriormente, percebi que a furação era do tipo "vintage/antiga" onde o diâmetro da parte posterior é menor do que o padrão usado atualmente. Tenho uma furadeira, mas fui informado a tempo pelo meu luthier que se tentasse simplesmente ampliar o furo com uma broca comum, iria "espanar" a madeira em volta podendo até arrancar lascas. Era tarde da noite e a minha ansiedade para resolver esse dilema levou-me a uma solução bem prática, usando - imagine - uma tesoura!!
(Antes de começar, quero lembrar que é um método rudimentar e não deve ser empregado em guitarras caras. O acabamento não é perfeito e mesmo com a tesoura e tomando cuidado, podemos arrancar lascas de madeira e/ou verniz, comprometendo completamente o visual da guitarra.)

Veja as medidas de uma tarraxa vintage/antiga (modelo Kluson) com uma moderna (Grover Mini Rotomatic):

A Kluson tem haste de 6.35mm e porca de fixação (bushing) de 8.79mm. Portanto a cavidade feita na madeira geralmente tem pouco mais 8.79mm na parte de cima/frente e pouco mais de 6.35mm na parte de baixo/trás (guitarras mais baratas têm toda a extensão da cavidade na medida da porca).
Já as modernas têm 11.2mm para a porca e 9.91mm para a base da haste.
A Aria tinha tarraxas antigas e era uma guitarra bastante judiada... Achei que ela não se importaria com o risco... :) Como já havia tentado o procedimento antes com sucesso numa SX, dessa vez fotografei:

Tente deixar a tesoura o mais reta possível (num ângulo de 90 graus em relação ao headstock) e faça movimentos de rotação bem lineares, com pressão para baixo. A questão aí é saber até que profundidade vamos, e isso dependerá da tarraxa e de suas respectivas larguras (porca e base da haste). Tenha sempre a tarraxa na mão e vá testando de vez em quando, principalmente no primeiro furo. Assim que a tarraxa encaixar perfeitamente, recoloque a tesoura e use uma caneta (de transparência) ou faça uma marca qualquer no nível:

Observe que os dois primeiros furos de cima e o primeiro de baixo já estão prontos (sim, iniciei pelo segundo de cima e fiz a marca logo que a tarraxa encaixou).
Com a marca, podemos trabalhar mais rápido nos outros furos, sem a preocupação de passar do ponto. Todo esse trabalho levou uns 45 minutos na SX e apenas 25 na Aria. As pequenas irregularidades nas bordas ficam escondidas pela nova tarraxa,  mas eu uso uma lima redonda para deixar a cavidade mais bonita e bem justa:


Claro que não é igual à da StewMac:
Mas dá para o gasto... :)

Aqui uma foto com mais zoom. Apenas os dois primeiros de baixo foram alargados. Comparando o acabamento, até que não fica ruim, não? :)


PS: Esse post foi inspirado pelo meu amigo Ruy, guitarrista que mora em Palmas, no estado do Tocantins. O luthier mais próximo está longe demais! :)

PS2: Outro grande amigo e guitarrista (e em breve, luthier... :) ) o  Tanaka, postou no seu blog o procedimento técnico correto, usando uma furadeira de bancada e a broca adequada (da StewMac, é claro), com limitador/guia para manter o escalonamento da cavidade. A rotação é baixa e a broca tem mais função de "lixa" do que propriamente furadora. Repito: não use uma furadeira de mão e broca comuns, por mais simples que possa parecer... Não é.
Clique na foto para seguir o link: