quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Telecaster Thinline - Origens

         Durante os anos 60, com a demanda crescente, a Fender teve que usar também o Ash pesado (assim como o mogno, o Ash pode variar em até 300% de peso) - e o pessoal começou a reclamar do peso. Em 67, tentaram fazer cavidades embaixo do escudo (esses modelos são conhecidos como "Smuggler"/contrabandista, porque dava pra esconder um monte de coisas ali :) ) mas não durou muito tempo.
Telecaster "Smuggler":


Paralelamente, as tentativas de criar uma Fender semi-acústica (Coronado, etc.) também não deram certo.
Roger Rossmeisl, designer que havia trabalhado na Gibson e Rickenbacker (linha 300) criou a tele Thinline em 68. A manufatura era semelhante às Rickenbacker (lida como se escreve, com "A" mesmo): uma tampa recortada por trás, as duas "asas" escavadas ficando apenas o centro sólido e depois a tampa era colada. A perda de "corpo" do timbre do ash escavado foi percebida e a Thinline, lançada no final de 68, tinha uma versão em mogno também. Um escudo próprio, maior, foi criado para tapar as cavidades inferiores.

Essa foto é de uma Fender, cópia atual, mas idêntica à Thinline original de 68/69 (corpo de mogno)



Inicialmente, os captadores eram os mesmos das Teles padrão, mas os anos 70 foram os anos do "humbucker". O rock tornou-se mais pesado, saturado e denso e nada melhor do que um humbucker quando se quer densidade no timbre :). Vários guitarristas famosos começaram a colocar humbuckers em suas teles. Keith Richards usava um PAF no braço. Jeff Beck tinha uma tele (feita pelo Seymour Duncan, a "Telegib") com dois humbuckers (um deles era o avô do JB :) ).

A Fender, é claro, percebeu a tendência e não podia deixar sua arqui-inimiga Gibson levar a melhor: chamou outro ex-empregado da Gibson, Seth Lover, o pai do humbucker, para criar um "humbucker Fender".
Encurtando uma outra história, ele criou o humbucker "Wide Range" com imãs de CuNiFe e por volta do final de 1971, a Fender equipou inicialmente a Thinline, depois criou a Telecaster Custom (single na ponte e wide range no braço) e por fim, a Telecaster Deluxe, uma tele meio Frankenstein com braço e tremolo de strato e dois humbuckers.

Particularmente não gosto desse modelo com dois humbuckers (lembro aqui que tenho uma Custom original de 1974), mas hoje em dia ela (Thinline H-H) tá virando moda, principalmente entre as bandas "indie" e alternativas. Interessante notar que atualmente o "Deluxe" é usado para as Teles com binding (na década de 60, essas com binding eram as "Custom").

Telecaster Thinline 72 (H-H)


Telecaster Custom 72:

A minha Telecaster Custom (1974) tá postada aqui (clique).

Para os fãs de carteirinha, a verdadeira "Thinline" é a primeira, de 68, com dois singles. Se for de mogno, melhor ainda. :)

sábado, 24 de dezembro de 2011

Corda Velha? Uma lixa às vezes ajuda.




Nessa brincadeira de aprender a mexer em guitarra, acabei com muitas aqui em casa. Na última contagem, 28!!
Grande parte delas orfãs de fundo loja que foram devidamente tunadas e hoje são plenamente tocáveis, algumas com timbres maravilhosos.
Não sei me desfazer de "coisas". Não sei negociar, então elas ficam por aqui mesmo.
Um dos grandes problemas entretanto, além das regulagens periódicas, são as cordas. É muita corda! KKK! :)
Às vezes termino de tunar uma, coloco um jogo novo e só vou tocá-la novamente dali a seis meses ou mais. Mesmo limpando antes de guardar, depois de um certo tempo, sempre há oxidação. A maioria das metais usados em cordas só precisa de oxigênio para oxidar/enferrujar.

Tempos atrás, depois de jogar muitas cordas pouco tocadas fora, me ocorreu de tentar retirar aquela fina camada de oxidação, com pontos mais escuros, com lixa de papel.
Gente! E não é que funcionou? Depois de alguns testes, passei a usar a lixa de grão 1200 para as primeiras 3 cordas - as desencapadas. As outras 3, limpo com pano e álcool e/ou baby wipes. :)
A lixa retira toda aquela fina crosta oxidada e a corda às vezes chega a brilhar novamente.

A posição da foto é a ideal - os dedos indicador e polegar fazem a pressão (leve a moderada) em dois lados. Repito pelo menos 5 vezes, puxando a corda pela bolinha e girando sempre.



Não é perfeito, mas BEM melhor do que os métodos anteriores que eu usava. Lembrando sempre que só é útil para aquelas cordas com pouca oxidação superficial. Cordas velhas mesmo, muito usadas (como as da primeira foto), já apresentam deterioração mais profunda do metal. Daí, só comprando novas mesmo... :)


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

SX de Alder... Alder? Qual dos 23 tipos?

Digite "Alder" na Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Alder
Alder é o nome comum ao gênero ALNUS, que é subdividido em 23 subgêneros. Os subgêneros "Alnus Rubra (Vermelho/Red Alder)" e "Alnus Rhombifolia (Branco/White Alder)" são os  mais comuns e conhecidos nos EUA.
A China tem pelo menos 3 desses 23 subgêneros. Até na Argentina tem um tipo de Alder...

Aí é complicado. Uma guitarra feita com "alder argentino" pode ser vendida como "guitarra de alder", tecnicamente falando (pode realmente, digo, legalmente? Não sei). E é claro que o timbre dessas variedades são também distintos.
O timbre clássico das Fender é proveniente dos dois tipos citados de alder americano.  E acaba por aí. ALDER AMERICANO. Ponto final.

Por isso o esforço atual da SX de especificar "American" em suas novas guitarras de ash e/ou alder. Eles já sabem que nós já sabemos que existe o Alder chinês.
Minhas duas SX são provavelmente de alder chinês ou do oriente. Tentei identificá-lo através de fotos, mas é muito difícil.

Sempre mencionei que a SX sunburst soava melhor que a creme. Resolvi remover a pintura (e dessa vez juro que foi a última mesmo - tanto que nem finalizei a remoção) só por curiosidade:



Aqui, o solvente químico desprendendo o verniz:

A já famosa "tampa" pra esconder as emendas:

Emendas? 3 ou 4 - nem parei muito para olhar:


A madeira por baixo da tampa, essa aí da borda, é a mesma da maioria das SX de "alder": avermelhada e com esses "riscos" curtos e mais escuros. O mesmo padrão da SX sunburst.

Aparentemente, esse é o padrão de textura do ALDER CHINÊS: cor castanho avermelhada, com pequenos traços mais escuros. Esses riscos até aparecem no alder americano, mas em pequena quantidade. Compare a madeira que aparece na lateral da guitarra com essa, de alder chinês da  região de Guangdong




Nem pensar em lixar os restos não removidos pela química - entreguei a guitarra assim mesmo para o cara que pintou a minha Telecaster (essa sim de verdadeiro alder americano) e pedi pra lixá-la e pintá-la de preto. O creme tava legal, mas prefiro preta. :)


A camada de verniz PU agora tá bem fina (a original era grossa) mas a sonoridade é praticamente a mesma - não mudou quase nada. O timbre é basicamente "strato" porém com mais graves e menos médios. Ela tem uma chave para trocar entre os pots de volume de 250k (singles) e 500k (humbucker). Não tem controle de tonalidade.

O humbucker da ponte é um Hot Mojo Rosar, mas acho que o Supershred Rosar vai ficar na medida ali. É uma guitarra sem as sutilezas de uma strato clássica tipo Fender, com vocação pra sons pesados e cheios, ainda mais agora, toda "black" :)

Alder chinês. :)

O braço, antes que perguntem, é de uma Condor RX 20. Êta bracinho bom de pegada... :)

PS: Por falar em "Wikipedia",  já fiz a minha doação pra mantê-la livre das propagandas que inundam a internet. Quem usa Paypal ou tem cartão de crédito internacional pode e deve ajudar. 5 dólares, que seja. É menos que um X-Salada.
Dê uma passada e leia esse curto texto do fundador. Difícil não sensibilizar-se com essa causa
Garanto que a gente se sente muito bem depois.


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Pauleira arrasando novamente: Les Paul Begins

Pra quem ainda não conhece, a querida luthier Paula Bifulco, minha musa inspiradora, professora da BH Luthieria de SP, acabou de postar no seu blog a já famosa e lendária "Les Paul Begins":


Tenho acompanhado no seu site o desenvolvimento dessa linda e inédita guitarra. Os detalhes, acabamento, construção - impressionante!



Todos os detalhes da construção da Les Paul Begins, desde o início, estão no magnífico site da Pauleira Guitars. Vale (ouro) uma passada lá.
Parabéns Paulinha! :)

domingo, 4 de dezembro de 2011

A polêmica da posição do captador do braço.

         Aproveitando a pergunta do Pedro no post anterior das KX e com alguns minutos sobrando nesse domingo, vou tentar explicar uma coisa que eu nem entendo muito: porque a posição do captador do braço em guitarras de 22 e 24 trastes é relevante para o seu timbre. Isso envolve um conhecimento/domínio de acústica e física em geral (como sempre! :) ), mas dá pra entender o princípio da coisa...

Antes disso, vou lembrar que a quantidade de trastes/casas não tem relação direta com o comprimento da escala. Escala é a medida que vai do (início do) nut até o meio do 12º traste. Esse valor então é dobrado e no final estarão os saddles/carrinhos da ponte. Portanto, a medida do nut até o 12º traste é igual à do 12º traste até o carrinho (usamos o ajuste de extensão dos saddles para afinar as oitavas). A escala "Fender" tem comprimento de 25.5 polegadas (64.77 cm). A Gibson é menor, com 24.75 polegadas (62.865 cm).

Se pego uma Strato e uma Les Paul, ambas com 22 trastes, o espaço entre os trastes da Gibson é menor, é claro. Mas se quisesse, poderia fazer um braço com mais trastes/casas e projetá-lo no corpo da guitarra em direção à ponte. Teoricamente, dá pra fazer um braço com trastes até ele chegar na ponte... :). Mas precisa haver espaço para colocar os captadores :).

E é essa a questão: quando comparamos uma PRS 22 com uma PRS 24, percebemos que a posição do captador do braço da PRS 22 (e Les Paul) é exatamente em cima do que seria o 24º traste. Se coloco 24 trastes, obviamente terei que mover esse captador mais para trás em direção à ponte. Acho que nem chega a dois centímetros, mas aí o timbre muda completamente. Por que?

Uma pausa visual para o post não ficar tão chato: a KX custom com 24 trastes e a Les Paul 81 com 22 - observe que na KX os captadores estão mais próximos (óbvio, mané! :) )




Continuando:
Quando uma corda vibra, ela emite uma frequência primária ou "fundamental" que é diretamente relacionada ao seu comprimento e tensão. A 5ª corda solta emite uma frequência primária de 440 Hertz, se diminuirmos seu comprimento pela metade (pressionando no 12º traste/casa) ela vai vibrar duas vezes mais rápido, gerando 880 Hertz. Além da frequência primária, a corda emite também frequências derivadas, os chamados "harmônicos", correspondentes aos diversos aspectos da vibração. Existem pontos onde a vibração é ampla e outros onde ela é nula/zero, os chamados "nós/nodes".

Aqui, uma ilustração da onda primária e dos seus primeiros 5 harmônicos:


O "nó" (zona morta) do terceiro harmônico está exatamente no ponto do 24º traste, ou seja exatamente no local do captador do braço das guitarras com 22 trastes. Esse é o argumento usado por caras como Ed Roman e John Johnson pra dizer que o som do captador do braço de guitarras de 22 trastes tem deficiência de pelo menos um harmônico importante (o 3º, no caso, mas na verdade ele está embaixo de 3 nós).
Ou seja, segundo o (polêmico) Ed Roman, a Gibson é burra e toda guitarra deveria ter 24 trastes. :)

Uma ótima dica do Fabiano me levou a esse artigo retirado do livro "Electric Guitar & Bass Design" de Leonardo Lospennato. Muito bom e bem mais sensato. Realmente, mesmo estando sob o nó de um harmônico, o captador - e principalmente o humbucker (2 bobinas: capta os sons de uma área mais ampla). ainda capta parte das vibrações próximas daquele harmônico.

Essa figura do Leonardo Lospennato é bem mais didática que a anterior. Ela mostra os primeiros 8 modos de vibração e o posicionamento dos captadores. Ele coloca muito bem: "É irrelevante ficar tentando evitar os nós ou encontrar determinado ponto das curvas. O que é matematicamente ou geometricamente perfeito não se traduzirá necessariamente num som "perfeito". Pequenas diferenças podem ser boas ou ruins, ou simplesmente "diferentes"."


Então, isso vai de encontro ao que eu já pensava. O que vale é o que se ouve e meus ouvidos me guiam. Até hoje, não ouvi um captador de braço em guitarras de 24 trastes que soasse bem (é gosto pessoal, só pra lembrar). Vivo isso na prática, pois tenho 2 guitarras com 24 trastes (tive uma Tagima Zero, mas aquilo lá é um absurdo... :) )
Falo de timbre orgânico, dinâmico - "wood tone" como dizem os americanos. Nessa posição, ouço sempre os médio-graves embolando. O timbre geral é seco e sem vida, com um certo "cancelamento de frequências", embora matematicamente isso não ocorra (será? :) ).

Essa é uma questão polêmica. Já li guitarrista falando que o som do captador do braço nas guitarras de 24 trastes é "mágico", perfeito. E também já li o contrário.

Portanto, mesmo com toda essa física (e polêmica), não sei ao certo a razão e nem esquento com isso, mas pra mim, o captador do braço em guitarras de 24 trastes soa pior do que nas de 22.

PS: O P-90 da KX5 tá soando muito bem. Por ser single, ele compensa a falta de definição que eu percebia com todos os humbuckers que tentei. O GFS Mean 90 de braço é mais grave do que eu pensava, mas mesmo assim, também trouxe mais definição pra KX Custom.

Cort KX5 e KX Custom: update

          A Cort KX 5 foi provavelmente, depois de uma Condor RX20, a primeira guitarra que comprei (por volta de 2004) depois de uns 10-15 anos sem entrar em lojas de guitarra. Sou de uma época que as guitarras dividiam-se em 1) - boas e caras e 2) - ruins e baratas. Com essas duas descobri que existiam guitarras boas e baratas. Não sabia das melhorias que o processo CNC havia acrescentado na produção de guitarras de baixo custo.
A KX5:


Os furinhos na região do captador do braço são resultado de uma tentativa frustrada de escudo pra colocar um single (ficou terrível :) ) Tive que refazer a cavidade para caber um P90. O ideal é com luthier, tupia e gabarito, mas fiz com uma Dremel no "olhômetro" mesmo... :)

Mas continuando: na época não sabia nada de madeiras, captadores, etc. Porém sabia reconhecer uma guitarra bem construída, com boa tocabilidade e principalmente, bom braço. A KX5 era uma dessas. Que braço gostoso de tocar! Nem percebi que eram 24 trastes e que portanto o captador do braço (ambos cerâmicos e ruins) estava deslocado da posição clássica (Les Paul, por exemplo)...

Comprei-a pelo preço e inusitada qualidade. A história da KX Custom já contei aqui: assim que adquiri um conhecimento básico, achei que estava apto a fazer uma escolha perfeita. Me baseei na KX5 e comprei sua irmã mais cara, de mogno e maple, aparentemente uma guitarra com todas as características pra soar excelente mas que na prática mostrou-se difícil de timbrar (refiro-me a um timbre orgânico, elegante, definido, equilibrado, etc.)

A medida que fui aprendendo sobre guitarras, fui modificando essas duas (tenho uma 3ª Cort, a G260, que embora muito bem construída e com materiais de primeira, também mostrou-se complicada de timbrar).
Já havia quase jogado o corpo de Basswood da KX5 no lixo, mas nos últimos meses tenho aceitado o timbre do basswood (e do cedro), que podem funcionar em setups específicos. Cheguei a fazer um corpo de Louro Vermelho, instalei tudo mas a sonoridade final ficou muito ruim - médios graves embolados e excessivos e agudos pálidos, além de muito pesada. Ela ficou assim, durante exatamente 24 horas :):


Em seguida voltei para o corpo de basswood:



Humbucker (ex PRS SE) alnico V 9k na ponte e P90 Kent Armstrong (já falei que são muito bons?) no braço.  Braços com 24 trastes matam humbuckers de braço, então acho que o som só fica razoável com caps tipo P90 (single simples não dá). Basswood não tem muito brilho. Tirei o controle de tonalidade. Só volume. Agora tá uma guitarra de 3kg, levinha, com um timbre digno e muito versátil. E aquele braço... Perfeito! :)
Obs: ela não tem originalmente frisos laterais - usei uma lixa pra gastar a tinta e expor o basswood clarinho. "Faux binding" :)


A KX Custom (que já foi postada duas vezes, coitada...) recebeu captadores GFS Mean 90 - são P90 em formato de humbuckers. Depois coloco um adendo sobre eles, mas o timbre fica bem melhor (definição das notas - coisa que ela penava pra ter) que com humbuckers.




Será que agora deu? :) Chega de mexer nessas CORTs? Ainda falta transformar a G260 numa S-S-S (tenho que fazer um escudo no padrão). Vamos ver... :)


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Angulação do braço: correção com calços


         Eu já troquei muitos braços (parafusados, é claro) de guitarras nesses últimos anos. Algumas Stratos já experimentaram uns 3 a 4 braços diferentes :). Coisas do tipo: "Vou experimentar colocar o braço da strato "A" no corpo da strato "B" e vice-e-versa..." Tudo seria uma maravilha se todas as stratos e seus respectivos braços seguissem um padrão (o Fender, por exemplo) de medidas de largura e altura. Do tróculo (cavidade do corpo onde o braço é encaixado) e do braço.
Mas, na vida real, a lei de Murphy impera e sempre tem aquele milímetro a mais ou a menos pra pentelhar. Na maioria dos casos, o ideal é buscar a ajuda de um luthier, principalmente se tivermos que mexer no tróculo.



         Entretanto, um problema bastante comum e relativamente fácil de resolver em casa é o da angulação do braço (estaremos falando sempre em braços parafusados). Não confunda com "curvatura do braço", que é relacionada com seu próprio eixo e é regulada com o tensor. Antes de checar e arrumar a angulação, cheque a curvatura e faça o ajuste com o tensor, se necessário.

Teoricamente, ao contrário dos braços da Gibson, por exemplo, os braços tipo "Fender" não têm nenhuma angulação em relação ao corpo, ou seja, são colocados "retos no corpo reto".


Eventualmente, devido às superfícies do tróculo e da base de encaixe do braço, pode haver uma angulação, fazendo com que o braço fique apontando pra baixo ou pra cima em relação ao corpo. É importante reconhecermos esse problema porque geralmente tentamos compensá-lo mudando a altura dos carrinhos/saddles, mas mesmo assim sempre haverá uma região com trastejamento.

Quando isso acontece (angulação), temos os dois possíveis problemas descritos nessa ilustração:

Hoje em dia, com as máquinas CNC, angulação é um problema que raramente ocorre "de fábrica". Mas já vi fotos de Fenders da década de 50 com calços (Shim) no tróculo pra compensar - e esses calços foram colocados na fábrica... :). O calço pode ser de qualquer material, geralmente papel grosso (a espessura dependerá de quanto queremos corrigir, mas geralmente não ultrapassa 1mm)

Considerando a ilustração anterior, as respectivas posições dos calços para correção são as seguintes:

Seguem agora uma série de fotos que peguei na intenet do processo (é um baixo mas o princípio é o mesmo):



Podemos retirar as cordas e depois retirar o braço, mas como quase nunca dá pra ter certeza da espessura exata do calço, recomendo adotar esse procedimento: afrouxe as cordas mas fixe-as ao braço com um capo ou mesmo um elástico sob pressão. Assim, podemos retirar o braço, colocar o calço e testar rapidamente se funcionou ou não. Caso resolva retirar todas as cordas, dá pra testar recolocando só a 6ª ou a 6ª e a 1ª.


Geralmente a espessura de um papel mais grosso, como o de um cartão ou de caixa de sucrilhos já é suficiente. Use a própria base do braço para delimitar.


Cortado e posicionado no tróculo

Observe que nesse caso, o problema era o braço angulado pra cima, deixando a altura das cordas na região próxima ao corpo muita alta em relação ao nut.



Aqui as duas possibilidades de posicionamento (é claro, ou uma ou outra). Usei lixa de papel.

Recoloque o braço e cheque novamente a altura. Como regra geral, a altura das cordas no último traste não deve ser maior que o dobro da altura no primeiro traste. Com essa relação, temos um bom equilíbrio de ação/tocabilidade/entonação.

Uma dica: não use a altura das cordas como referência para a espessura do calço. Como falei, raramente essa espessura passa de 1 mm. Inicie com um pedaço de papel de caixa de sucrilhos e aumente se necessário.

Um terceiro problema: eventualmente, um braço é muito alto ou baixo em relação ao tróculo. Isso acontece geralmente quando são de fábricas/marcas diferentes.
Veja nessas fotos: os saddles estão já colados na ponte e mesmo assim as cordas estão altas. O braço (ou o tróculo) tem pouca altura:



Nesse caso, temos que usar um calço (aí uma lâmina fina de madeira ou mesmo um cartão de plástico sem relevos) por toda a extensão do tróculo:


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Corrigir angulação é um trabalhinho meio chato porque dificilmente acertamos na primeira , mas quando funciona, funciona! :)

A seguir, uma sequência de 3 vídeos do youtube mostrando o processo:








Adendo: Como bem lembrado pelo Júnior, essa questão do ângulo do braço aparentemente era um problema constante para a Fender. Tanto que, no início dos anos 70, o Leo Fender introduziu (nessa época a Fender era da CBS e Leo trabalhava como "consultor técnico") um sistema patenteado chamado de "Tilt Neck" (ou "Micro Tilt Neck"). Veja a foto (guitarra atual):

Com uma pequena chave, após soltar um pouco os parafusos, ele permite regular a angulação. Na época, além dessa novidade, a Fender também passou a usar apenas 3 pontos de fixação e a ponta de ajuste do tensor era em forma de "bala/bullet":







Em 1981 a Fender retornou ao padrão original de 4 pontos de fixação, abandonou o tensor bullet mas ainda hoje mantém o ajuste de "micro tilt" em algumas guitarras. Esse sistema é bastante polêmico. Embora prático para ajuste do ângulo, muitos acham que ele diminui a transmissão da vibração do braço para o corpo. A minha Tele 68, clássica e com ajuste posterior do tensor, soa melhor do que a Tele 74, com tilt, bullet e 3 parafusos de fixação... Será que é por isso? :)