sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Montando uma Strato Fender...




       Já postei aqui várias "montagens" e "tunagens" de guitarras. A Telecaster "Black Jack" ficou linda e não deve nada para uma Fender autêntica.
Mas, e se eu montasse uma Stratocaster somente com componentes (diretos e indiretos) Fender? Seria uma Fender? E quanto custaria essa brincadeira?
Bem, já posso adiantar que custa bem menos do que comprar uma Fender americana aqui no Brasil...

       Nas minhas andanças pelo ebay, conheci uma empresa que faz corpos de guitarra mas também vende corpos Fender "ponta de estoque" (se não sabes o que isso significa, pergunte para tua namorada, mãe ou irmã). Lá eles chamam de "factory outlet" - são corpos que estavam na linha de produção e, por algum motivo estético (pequenas lascas, defeitos na madeira, etc.), foram reprovados na inspeção final.
Analisei e continuo analisando sempre esses outlets da Fender. A maioria já está na fase final apenas faltando a pintura e todos são plenamente funcionais. A Fender é honesta o bastante pra não preencher uma ranhura com cola ou filler de madeira e tocar tinta por cima, mas pra mim, um corpo Fender 95% finalizado na fábrica, com um pequeno detalhe estético, custando 80 a 100 dólares é um puta negócio... Putz!


(Obs: hoje, pela primeira vez, não há peças à venda no ebay da B.Hefner. Estranho...
Como opção na mesma faixa de preço, há os corpos da licenciada Fender Mighty Mite na Guitar Center. Clique aqui para o link.)

        Aproveitei a viagem de um parente para os EUA, comprei um corpo ultra leve de alder (o mais leve que vi nos últimos meses), já com a tinta condutiva aplicada e pronto para pintura e pedi para a B.Hefner entregar no hotel em Miami, junto com todo o hardware Fender comprado na Guitar Center (no esquema pick up at the store). Poderia tranquilamente colocar os excelentes captadores Rosar Fullerton que não devem nada para os Custom Shop Fender, mas fixei na idéia de montá-la com tudo "Fender". O braço, eu havia comprado aqui no Brasil, um Mighty Mite licenciado pela Fender (mais sobre isso depois)

Bem, eis aqui a guitarra, um quebra cabeças espalhado no sofá:



A única coisa "Fender" que me arrependo de ter colocado foi o pot de tonalidade "No Load" - uma bobagem inútil que havia comprado há uns 2 anos e coloquei só por causa da brincadeira.

No detalhe, o "defeito" (com a marcação em vermelho do inspetor da Fender) que retirou esse corpo da fábrica e me possibilitou comprá-lo por 97 dólares:


Uma pequena rachadura, extremamente fina e de pouca profundidade, na extremidade traseira. Essas pequenas rachaduras incomodam muito na pintura porque a tinta tende a penetrar ali e fica uma irregularidade na supefície. Pô, é só colocar um pouco de massa de madeira e lixar... Em casa, preenchi essa ranhura e uns 2 ou 3 pequenos amassados, tipicamente provocados pelo empilhamento e manuseio posterior dos corpos. Como nunca havia feito isso, não percebi que é um processo que deve ser feito, esperar secar (há uma retração na secagem) e refeito mais uma ou duas vezes. TODO luthier que pinta, assim como TODO pintor de carro sabe que a superfície tem que estar absolutamente plana para receber a pintura. Lixar, lixar e lixar...
Como sempre, eu não tenho muita paciência e levei o corpo para o pintor de carros já no segundo dia... E, como sempre, pedi o mínimo de camadas de verniz. O cara diz: "Olha, isso aqui e aquilo ali não estão bem planos... Se queres apenas poucas camadas... Na hora, resolvi deixar assim - até porque, já falei, não gosto de guitarra brilhando demais e minha intenção era fazer uma relicagem nela depois.



O resultado ficou muito melhor do que eu esperava, até "bonita demais"... duas pequenas depressões microscópicas e um belo corpo "all black" :)
Na foto acima, a guitarra montada. O mais legal de montar uma "Fender" dessas é que tudo encaixa perfeitamente. O corpo e o braço estão com a junção PERFEITA.
A sonoridade? Fender na veia!
Vocês queriam o que? O som de uma Tagima 735 Special? :)

O corpo (levíssimo) de alder comparado com o da minha 97 (bem mais pesado, duas peças) tem menos projeção e ataque, porém é um pouco mais estalado e agudo. Autêntica sonoridade strato, sem nenhuma dúvida.
Na última hora acabei usando as tarraxas Fender com lock na minha Fender 97. Ia colocar as tarraxas Fender antigas nessa, mas tinha um jogo de Planet Waves sobrando e, por mais que quisesse que ela fosse toda Fender, uma tarraxa Fender comum perde feio para a Planet Waves... :)

Esse corpo tem 3 peças de alder. A terceira só consegui ver depois de dois dias. Eu aposto que ele é da linha da American Special ou até da Standard, considerando o tipo de cavidade frontal.
No total, gastei menos de 1.500 reais, mas não paguei impostos do corpo e hardware. O mais caro foi o braço, 560 reais  - bem pagos, pois é um excelente braço e o acabamento do luthier do Ceará é fantástico. Por cima se tivesse que pagar os impostos e transporte, acho que teria que acrescentar uns 800 a 1.000reais. Humm... 2.500 reais por uma Fender, aqui no Brasil? Só mexicana com captadores cerâmicos e corpos com 6 peças...

O decalque Fender no braço (tinta metálica, padrão original) e o acabamento foram feitos pelo guitarrista/luthier Vitor Tavares, de Fortaleza/Ceará ( vitor_tavares_ce@hotmail.com ). O Vitor adquire os braços da Mighty Mite e faz um acabamento realmente profissional neles. Um braço desses custa por volta de 100 dólares lá nos EUA. Coloque transporte, impostos... A gente acaba pagando 400 ou mais reais. 560 reais pela finalização e sem o stress da compra e espera, acho um excelente negócio. Ele também monta guitarras inteiras com peças originais e/ou licenciadas da Fender, da mesma forma que eu fiz.
Me esqueci de perguntar para o Vitor se poderia colocar link, mas aqui vai:
http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_17984361

Observem o padrão de qualidade do logo:



Minha black strat...:) Acho que todo guitarrista, no fundo, gostaria de ter uma stratocaster preta, não? :)




****************************************
Me esqueci: a pintura custou a bagatela de 75 reais. Os captadores são os Fender Custom Shop 54,  meus preferidos, mas tem gente que não gosta dos médios deles. O Rosar Fullerton tem DNA desses 54 misturado com o DNA do 57/62 - estupidamente Fender mas um pouco mais macios que os 54


PS: Não faço propaganda paga, muito pelo contrário, os links que coloco aqui são para os guitarristas e só para eles. Se acho alguma coisa legal, justa, barata e principalmente honesta, passo a dica adiante.

Sei do sonho de muito guitarrista de ter uma Fender ou uma Gibson. E sei que para a imensa maioria, pagar os impostos brasileiros é inviável. Não acho que a culpa seja dos lojistas finais (pelo menos uma boa parte deles), pois eles também pagam impostos pra tudo, até para as vendas por cartão, mas diante do impasse, mesmo uma pequena luz no fim do túnel já ajuda. Quanto custa uma Fender "John Mayer" aqui no Brasil? Quanto custa essa John Mayer?
        A Fender americana mais barata do Brasil (com todos os impostos devidamente pagos) tu encontras provavelmente em Fortaleza, no Ceará... :). Não é uma Fender oficial, mas é uma Fender na soma das partes, com qualidade similar (senão maior, já que algumas variáveis nem a Custom Shop domina) às originais.
Não perguntei o preço final, mas pela lógica, aposto que...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Uma Les Paul Boa e Barata? (Vintage V100 AFD)

O que torna uma Les Paul boa? Além de um pouco de sorte e mágica na combinação das madeiras, sua construção, quanto mais próxima do período clássico (1958-1960), maior a chance de ser excepcional... Antes de discutir, aqui seguem as fotos das duas guitarras em questão:

Epiphone Slash "Appetite" Les Paul Standard (cerca de 4.000 reais aqui no Brasil):


Vintage "AFD" Paradise (paguei 1.450 reais no Brasil):


Por favor, chequem as especificações da Epiphone aqui (Clique)
Diferenças óbvias (sem considerar o desenho do headstock e o cutway inferior): Captadores Seymour Duncan na Epiphone e Wilkinson (também de qualidade, alnico, etc.) na Vintage. Pots algo melhores e capacitor Orange Drop na Epiphone. E o resto? Muito, mas muito similar. Por que a diferença tão estúpida de preço? As especificações da Vintage (não é mencionado lá, mas ela tem o braço com long tenon/deep joint) estão aqui (corra até o meio da página, mais ou menos - Vintage V100 Series Paradise)...
Comparem as madeiras, acabamento e construção...

E já que estamos confrontando diretamente as Les Paul Epiphone e Vintage, não deixe de checar o review comparativo entre as versões "Joe Bonamassa Gold Top" Epiphone e Vintage na revista digital "iGuitar Magazine". A Epi ganhou 4 estrelas (de 5 totais) mas a Vintage chegou a 4 e 1/2 :). Siga o link: (CLIQUE)

Next post, vamos às considerações...

25/10/2012:
Bem, não tem muito o que considerar. As especificações de madeira e construção são praticamente as mesmas. Considere que a Vintage especifica o mogno do corpo como sólido (sem câmaras ou buracos de alívio de peso). A minha guitarra pesa 4,1 kg - leve para um corpo de LP sólido com esse preço.

O hardware? Como falei, a diferença está nos captadores - os Seymour Slash teoricamente são melhores, mas isso não justifica de forma alguma os 2.500 reais de diferença do preço.
Esses 2.500 reais a mais pagos por uma guitarra praticamente IGUAL estão provavelmente na ganância humana - começando pela Gibson (que supervaloriza sua submarca Epiphone) e terminando nos exploradores brasileiros, pois o preço lá fora é quase equivalente - pelo menos não há essa diferença absurda.
É uma guitarra com custo-benefício insano, mesmo se comparada com as novas Cort CR280. Nem troquei as tarraxas. Coloquei captadores excelentes - um Rolph 58 na ponte e um Rosar Mojo 13 (custom, com alnico V) no braço. Confesso que foi difícil timbrar o captador do braço, mas isso porque eu gosto de timbre menos gordo e mais definido e estalado nessa posição - coisa difícil de conseguir mesmo numa Les Paul Gibson. O Rosar Mojo 13 customizado pelo próprio Sérgio Rosar, com alnico V resolveu o dilema e a guitarra tá falando uma barbaridade! :)

(Obs: para ouvir essa guitarra, numa comparação com duas Les Paul Gibson, clique aqui)

Claro, não gosto do excesso de brilho do verniz PU das guitarras modernas e estou tentado a mexer um pouco no visual dela, mas isso fica pra depois :)

Aqui, uma foto da cavidade do captador do braço, mostrando a junção profunda/longa do braço com o corpo (quando uma marca em forma de sorriso aparece no meio):


PS: Não confundam esse modelo (Vintage V100 AFD Paradise) com a Vintage V100 comum, que não tem top sólido de maple - apenas mogno e uma folha fininha de maple figurado. Mesmo assim, a V100 ainda é uma ótima guitarra e custa menos que 1.000 reais. Na maioria das V100 o corpo é todo de mogno e o "flame maple" é só uma casquinha, pra dar o visual. Já a AFD e a "Lemon Drop", por exemplo, têm a camada de maple real (maple cap) e por último a folha de maple figurado. Há uma grande diferença sonora entre as Les Pauls (e suas cópias) com (mais aberta) e sem (mais fechada) top de maple.
No site da JHS, quando eles colocam: Body: Mahogany with Maple Cap / Top: Flame Maple Veneer , é top de maple real.
Se especificam apenas: Body: Mahogany / Top: Flame Maple - é só a folha de maple.

PS2: Tava bom demais pra ser verdade... :) No dia 18/8/13 o leitor do blog Isaías Faleiro mencionou que havia uma colagem no braço de sua AFD recentemente comprada. Pedi para que ele enviasse fotos:


Pois bem, o braço da minha recebeu uma quantidade extra - e suspeita - de tinta vermelha nessa região e num papo com meu luthier, o Inaldo, imaginamos que de fato deveria haver uma colagem ali - quase certo que do tipo "colagem espanhola". A foto do Isaías confirmou o truque. Entretanto, isso não necessariamente piora ou modifica o som do braço, mas com certeza aumenta um bocado sua resistência. Como o nome diz, a "colagem espanhola" refere-se a uma técnica (não apenas limitada ao braço) desenvolvida pelos mestres luthier espanhóis e aplicada em violões.
Grandes empresas utilizam essa colagem, bastante comum nas Ibanez, por exemplo. Ela tem duas utilidades: fornecer o ângulo necessário para inclinação do headstock usando um bloco mais fino (economiza madeira) e aumentar a resistência do braço. O método está rapidamente ilustrado aqui (fotos emprestadas do blog do Flávio Gomes):

Bem, não é uma manobra que, na minha opinião, modifica de forma tão perceptível a ressonância do braço. Além disso, se formos considerar a história da verdadeira "AFD" do Slash, a mesma teve uma ruptura do braço próxima ao headstock e uma colagem foi feita durante o conserto. Ao utilizar um truque não pernicioso para economizar, a Vintage acabou criando um detalhe extra de semelhança com a LP original do Slash... :)
Eu não devolveria a guitarra por causa desse detalhe, Isaías. A Epiphone também faz isso frequentemente.

Mesmo considerando essa colagem, ainda acho que a relação custo/benefício da Vintage AFD é a melhor do Brasil.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O grande problema de guitarras com singles e humbuckers continua - Parte2

Seria interessante ler pelo menos a parte inicial do primeiro post:
http://guitarra99.blogspot.com.br/2010/12/o-grande-problema-da-guitarra-com.html

A solução apresentada nesse post antigo funciona, mas envolve o acréscimo de uma mini chave e um segundo potenciômetro de volume.
Pois bem, meu grande amigo e também viciado em guitarra, Oscar Jr., me chamou a atenção para o esquema usado pelo mestre luthier John Suhr, que resolve esse impasse de forma muito elegante e com mínimas alterações da fiação padrão.

John Suhr aproveitou-se de uma lei da física e colocou resistores em paralelo com o potenciômetro de volume (que em essência é um resistor). Usamos um pot de volume de 500k, mas acoplamos resistores com valor aproximado (utilizei de 460k) nos singles (apenas neles). Da forma como é feita, esses resistores ficam em paralelo com o pot de 500k. Seguindo essa fórmula (clique), vemos que o resultado (no meu caso, com resistores de 460k) é uma resistência final de  239.58k - bem próxima dos ideais 250k para singles. Como os resistores não são acoplados no humbucker, ele continua "vendo" apenas um pot de 500k. PERFEITO! :)

Claro que os esquemas do Suhr são bem mais complexos, permitindo combinações diversas, mas o foco aqui é um só: 250k para os singles e 500k para o humbucker.
Aqui uma foto da atual fiação da minha Cort G260 (lembro-lhes que eu utilizo apenas um pot de tonalidade para poder colocar o pot de volume mais embaixo, fora do alcance da mão direita):


Observem que os resistores são ligados no hot dos singles e no aterramento. Poderia até colocá-los no próprio captador, mas sempre tem o problema de espaço, capinha, etc. Então liguei-os nos respectivos terminais da chave e fiz um ponto de aterramento nela.

Como já falei inúmeras vezes, sou péssimo em física/elétrica/etc., mas à princípio tá correto - até porque estou "ouvindo" isso funcionar. A sibilância dos singles em pots de 500k não existe mais :)
A foto é bem grande - clique nela pra ampliar e ver os detalhes.
Basicamente, é só levantar o escudo de uma strato HSS e acrescentar os resistores naqueles pontos.

É isso. Enquanto não aparece nenhum expert em elétrica por aqui, essa é uma excelente solução para guitarras HSS. Obrigado ao Oscar Jr. e ao John Suhr :)
Qualquer novidade, aviso! :)

19/10/2012: Já que o pessoal tá pedindo, segue o esquema (adaptado de um do Seymour Duncan) para stratos com 2 pots de tonalidade. O pot de volume TEM que ser de 500k, mas os de tonalidade podem ser mantidos em 250k. Basicamente, trocamos o pot de volume e acrescentamos os resistores (R1 e R2 - cerca de 500k) como no esquema. Uma das pontas dos resistores vai para o terra. Achei melhor criar um ponto de aterramento na própria chave e dali partir para a carcaça do pot de tonalidade (ou direto para o de volume) com um fio. Segue:

06/09/13: O circuito que estamos discutindo (esse da imagem acima) tem um "pequeno" problema, percebido pelo nosso amigo Ramsay lá do fórum da GP e também pelo Alex Frias, do fórum handmades.com.br. O problema é na posição "4" do seletor (captadores do meio e braço juntos). Nessa posição, os dois resistores estarão atuando e teremos uma resistência final por volta de apenas 160k, o que, além de baixar ainda mais o volume (os captadores juntos ficam em paralelo e o volume diminui naturalmente), pode filtrar demais os agudos. Putz! Tava bom demais pra ser verdade!

Bem, eu raramente utilizo a posição 4, então vou manter os esquemas que já fiz assim, mas o Alex Frias sugeriu uma excelente opção e teve a gentileza de nos permitir a reprodução do esquema dele, que utiliza apenas um resistor, engenhosamente posicionado. Segue:



Segundo o Alex: "O resistor só não entra em ação na posição 1, deixando o valor do potenciômetro em 500k. Já em todas as outras posições ele entra em paralelo com o potenciômetro resultando algo próximo a 250k. O esquema usando dois resistores cria uma resistência ainda mais baixa na posição 4. "

Mais uma opção, então. Se alguém tiver alguma outra ideia testada, o espaço tá aberto! :)