sábado, 12 de novembro de 2011

Telecastermania - parte 4: "Bittencaster"

O Anderson Aguiar ( andersonaguiar2009@gmail.com postou: "Inspirado no seu post: "Quanto custa uma boa Telecaster" e depois de trocar algumas ideias contigo nos comentários, muito empolgado resolvi montar minha própria tele, batizada de "Bittencaster" em homenagem ao patriarca da minha família.
Montei a minha guitarra junto com meu amigo luthier e colecionador de instrumentos raros que mora em Barra de Guaratiba - RJ, chamado Blank. "

Pois bem, achei muito interessante porque é de fato um complemento que justifica esses meus posts do tipo "monte sua própria guitarra". A Anderson teve uma "pequena" ajuda da sorte porque conseguiu comprar um corpo e braço de telecaster esplêndidos numa promoção da WD. Mas além da WD existem outros fornecedores. O fato é que, tanto com as minhas experiências (Tele "Black Jack" e a Tele de Ash recém-postadas) como com essa do Anderson, confirmamos que não há necessidade de gastar mais de 2.000 reais (essa custou 2.300, mas é porque o Anderson quis acrescentar "luxo" à sua guitarra, hehehe) para adquirir uma Telecaster (ou Stratocaster) excelente. E ele foi além: começando pelo braço de Birdseye Maple e terminando com os captadores Fender OV (Original Vintage), TUDO é top de linha, coisa de Custom Shop da Fender, no mínimo... :)
Segue o relato do Anderson com as fotos:



"Essa Telecaster eu montei com o meu amigo Blank, utilizando materiais de primeiríssima qualidade: corpo de Tele de duas peças em swamp ash (a emenda é perfeita, de cima não dá pra ver a junção das peças, somente pelas extremidades e que madeirão ele é!). O braço foi fabricado em peça única de birdseye maple da WD Music. Cara, esse braço é uma obra prima, a peça mais linda que já vi até hoje! Parece âmbar, uma espécie de holograma na madeira, pois ao movimentá-lo a luz reflete em seu material... Muito lindo!



Fiz o pedido no dia 27/05/11 e o corpo estava na promoção por $195,00 doláres. Hoje ele está custando $300,00. O braço custou $225,00. Hoje esse braço não tem mais em estoque, existe um similar por $450,00. Que barbada! E ainda aproveitei o desconto do cupom que a WD me enviou por email e foi molezinha! O corpo, o braço e o capacitor Orange Drop com desconto saíram por $340,00! Então se vc for montar a mesma guitarra hoje vai sair bem mais cara.



A tocabilidade, o timbre, a versatilidade, o sustain e a ressonância desta guitarra me impressionaram.
Fiz duas gravações em áudio em: http://macidol.com/Bacareca/audio.php
E os links do youtube:
www.youtube.com/watch?v=8ezbPCrI60I
www.youtube.com/watch?v=IhIXDdBycoI

Não tive qualquer problema na importação. O atendimento da WD Music foi excelente. Paguei tudo com cartão de crédito e no dia seguinte ao do pedido já recebi um email do correio americano me informando o número do rastreio. Impressionante a eficiência e o know-how dos americanos em matéria de vendas pelos correios. O restante das peças comprei na MusicWare aqui no Rio de Janeiro (eles têm muita variedade) e os  ferrolhos e nut comprei no Dodô Audrin que vc já conhece.




Veja o histórico do objeto no rastreio de encomendas do nosso correio: (www.correios.com.br/servicos/rastreamento/rastreamento.cfm) Objeto nº CJ186915111US

Corpo: www.wdmusic.com/tele_body_standard_ash_clear.html
Braço: www.wdmusic.com/tele_neck_birdseye.html
Demais peças: www.musicware.com.br e www.dodoaudrin.com.br

Montei tudo na casa do Blank. Ele é muito habilidoso, passamos a madrugada toda nos divertindo e tomando cerveja. Ele saca muito de guitarras, tem uma coleção impressionante de violões espanhóis, craviolas, violões de 12 cordas, guitarras Fender e de outras marcas.
Ele não constrói instrumentos para venda. Apenas dá uma força para os amigos compartilhando seus conhecimentos e habilidades, além de ser colecionador. Nós gostamos de fazer um som nos fins de semana em Barra de Guaratiba, zona oeste do Rio de Janeiro, região de praia muito agradável, e lá temos muitos amigos músicos profissionais também. Ele é muito gente boa.



Composição: corpo em premium swamp ash (duas peças), braço em peça única de birdseye maple, ambos norte-americanos da WD Music, captação Fender, pots CTS 250K, jack Switchcraft, fiação vintage de pano USA da WD, nut Tusq da Graphtech canadense, ponte moderna 6 saddles da Gotoh Japan, knobs Gotoh, tarrachas Kluson Deluxe americanas, chave 4 posições da Fender (série-paralelo), capacitor Orange Drop 0.047 USA., encordoamento Ernie Ball 0.10.
O instrumento ficou excepcional, lindo, timbre incrível, twang maravilhoso (os caps do Lollar são demais!!!) se encontra no nível das Custom Shop, afinal a matéria prima utilizada, em sua maioria, foi fabricada nos EUA, sob rigoroso controle de qualidade e não poupei esforços: instalei tudo que existe de melhor no ramo. Dá banho em qualquer Mexicana e é páreo duro para as americanas. No total, com os impostos pagos, recebendo tudo em casa via USPS, gastei 2.300,00 reais.
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....E tem gente que paga quase isso por uma Tele Standard Mexicana, com madeiras inferiores às americanas e captadores cerâmicos...

Em tempo: "Birdseye" (olho de pássaro) refere-se a um tipo especial de figuração que ocorre eventualmente no hard maple (e também em algumas outras madeiras, mogno inclusive), com pequenos pontos redondos. O aspecto após tingimento/verniz é tridimensional e muito bonito. Não sabe-se ao certo porque essa figuração ocorre (sempre aleatória) e geralmente ela só é observada após o corte da madeira.
O birdseye é bem mais caro que o maple comum e é muito usado em braços de guitarras de luxo.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Luthier Cavalheiro (post em stand by)



ATENÇÂO:

Post temporariamente retirado até esclarecimento de algumas pendências. Não apaguei os comentários porque é importante que as manifestações permaneçam.

Até onde sei, por volta de julho de 2012 o luthier Roberto Cavalheiro estava mudando de cidade devido a um novo projeto. O meu último contato com ele foi através desse e-mail:
(7/2012): cavalheiroguitar@gmail.com

Telecastermania - parte 3: Making Of

       Então vamos à sequência de passos:

1) Madeiras: para Telecaster, só existem 3 madeiras (minha opinião): Ash leve (swamp), Ash pesado (northern) e Alder. Pinus (americano), Marupá, Cedro, todas podem funcionar, mas não ficam iguais às clássicas. Resolvi fazer uma de ash e outra de alder, além de um braço de maple com escala de maple.

Comprei os blocos (blanks) no Brasil, na MusicTools do Miguel Cardone. Já havia comprado antes alguns equipamentos de luthieria e um lindo blank de flamed maple AAAA para o top da minha - ainda distante - Les Paul 59. Acesse o site: www.luthierexpress.com e faça o download do catálogo de madeiras (e do de ferramentas, caso seja metido como eu :) ). O Miguel é gente finíssima -  o telefone para contato direto é (11) 9193-8797.
Preços: blank de Ash (pesado/northern): 200,00. Alder: 270,00 Maple: braço: 80, escala: 45 reais.


Posicionei os blocos e escolhi (a decisão final seria do luthier, mas o Cavalheiro concordou comigo) a melhor combinação para colagem. Cada corpo terá duas partes. Convém citar que mesmo na Fender, em qualquer época, corpos de bloco único são raros.
É importante evitar os nós da madeira - onde o som não se propaga tão bem e podem gerar problemas no acabamento. Usei o corpo da minha Tele 68 pra desenhar o local do corte:


As fotos seguintes já são na oficina do luthier Roberto Cavalheiro, de Blumenau (oficinadomusico@ig.com.br / Fone: (47)33785960), cerca de 150 km daqui (Florianópolis). Já havia feito um corpo de cedro e a Les Paul Jr (postada anteriormente) com ele e fiquei impressionado com a qualidade. O Cavalheiro poderia finalizá-las completamente, mas eu queira ficar com a diversão final do acabamento e montagem, hehehe...


Observem na foto acima, que o corpo de alder foi posicionado bem embaixo no blank, pra fugir daquele nó no canto superior direito. O blank de ash tá com aspecto feio porque havia uma camada de resina/cera para proteção.
Então, passo número 2:

2) Manufatura dos Corpos/Braço: A sequência de fotos é do próprio Cavalheiro:

Colagem dos blocos. As superfícies devem estar absolutamente planas para um perfeito acoplamento e os clamps mantém a pressão até secagem completa


Blocos colados. Observe que a linha de separação do ash é praticamente invisível.


Corpos semi prontos. À esquerda, já com as cavidades, feitas na tupia copiadora (vide vídeo da tele de mogno no post anterior). Pedi para o Cavalheiro não arredondar as bordas, pois queria fazê-las pessoalmente. Gosto de bordas suaves, mas sem exagero, e dá pra fazê-las rapidinho com lixa.


Furação do "string through body". Telecaster  com "top load", cordas presas em cima, sem atravessar o corpo, não tem o som clássico.


Braço. Esse é bem mais complicado... Acredito que a habilidade do luthier de guitarras é colocada à prova aí. Braço não é fácil! Desenho e corte inicial.


Cavidade e colocação do tensor.


A escala é colada.



Escala cortada,"raiada" (curvatura/raio), posicionamento e corte para os trastes e colocação das bolinhas de marcação.



Trastes (Dumlop Jumbo) colocação e corte. Depois disso ainda tem o check-up do nivelamento e arredondamento das bordas.


Acabamento do shape do  braço: parte posterior e cavidades das tarraxas. Tudo é medido exaustivamente. Braço é geometria/matemática pura. A pegada/forma do braço (vide post sobre tipos de braço) vai depender do cliente. Pedi um "C" um pouco mais gordo, com mais ombros. Prefiro assim porque é fácil retirar um pouco dos ombros depois e eu mesmo posso fazer (mas gostei dele assim). Quando o braço fica muito fino ou pequeno, não tem remédio...


 Os 3 corpos (o de Mogno tá explicado no post anterior :) ) e o braço, já aqui em casa. Pretendia fazer um acabamento natural no de alder, mas esse tá muito liso e sem figuração - é ideal pra pintura sólida. Como decidi só depois de trazê-lo pra cá, fiquei com preguiça de viajar novamente e levá-lo para o Cavalheiro pintar... Resolvi fazer por aqui mesmo, com o cara de uma oficina de carros que pintou alguns arranhões no meu carro. Mas essa eu vou postar assim que acabar de montá-la... :)


3) - Acabamento:
"Butterscotch Blonde" é a cor mais famosa da Telecaster,  e fui atrás dela com a anilina. Num primeiro momento, ficou assim, bem no tom "butterscotch" (essa tonalidade refere-se a um doce feito de manteiga e caramelo). Porém, ele é conseguido no verniz, que é tingido com corantes e não na anilina. O resultado final da Fender provoca um certo apagamento dos veios de ash. Como esse ash tava muito bonito, resolvi fugir um pouco do laranja e me direcionar para o amarelo, para realçá-lo ainda mais. Após essa foto, cheguei a passar duas demãos de verniz incolor:

Mas, não sei como, tive a paciência de lixar tudo, retirar o verniz, enfraquecer o primeiro tingimento e acrescentar um pouco mais de amarelo. Antes de envernizar novamente, uso as lixas para tirar a uniformidade da cor, lixando mais nas partes naturalmente mais gastas com o tempo (bordas, ângulos e apoio do braço)


         Aqui, o resultado final, mais sutil. 4-5 passadas de verniz spray e depois muita lixa (600 e 1200) pra cortar o brilho. No final fica verniz suficiente apenas pra deixá-la com o toque sedoso/macio e bem selada.
O braço também ficou muito legal com o tingimento/envelhecimento.
Os metais passaram todos por uma lixa de 1200. Saddles de aço, roubados de uma ponte Wilkinson de strato. Captador da ponte feito pelo Sérgio Rosar (fio Enamel 42 AWG) com uma bobina velha que eu tinha guardado. Captador do braço GFS Premium 63 vintage wound (fio Enamel 43 AWG). Tarraxas Planet Waves (não poderia ser outra:) )
Capacitor Mojotone Dijon de .047uF,  potenciômetros de 250k, mas acabei de descobrir que minha Tele 68 tem pots originais de 500k - nunca me preocupei em checar e isso me colocou uma pulga atrás da orelha. Vou testá-la também com pots de 500k.
O restante do hardware foi comprado na Mensageiro Musical e é da Condor Parts. O escudo não foi parafusado porque está ligeiramente fora do padrão Fender. Encomendei um da GFS (Guitar Fetish: http://store.guitarfetish.com/ que vai chegar em breve.
O braço foi tão bem feito e com encaixe soberbo no corpo que pude deixar a ação extremamente baixa, ainda mais que a das Tele 68 e 74. Mais um mérito para o Cavalheiro!

CONCLUSÃO :

          A guitarra ficou linda e excelente. Madeiras e hardware de primeira, construção impecável do Cavalheiro. Ela não perde em nada pra minha 68. Os timbres são ligeiramente diferentes devido ppte às escalas distintas, mas ambos excepcionais. Telecaster na veia!

Vamos checar o custo final da guitarra (algumas peças eu já tinha, mas vou passar o custo como se não as tivesse):
Blank de Ash/Corpo de 2 peças: 200
Blank Maple braço/escala: 125
Manufatura corpo e braço (Cavalheiro): ainda não acertei com ele, mas acredito que entre 500-600 reais
Captadores: Ponte: 175 (Sérgio Rosar Hot T). Braço (GFS Premium 63): 180 reais (originalmente custa 34 dólares - o resto é a porcaria de impostos). O modelo do Érico Malagoli da www.captadores.com.br custa 135 reais à vista e é adequado. Quando ele passar a usar o fio original (enamel 43AWG), não haverá razão pra comprar lá fora.
Tarraxas Planet Waves: 200 reais
Hardware restante: 120 reais
Fato interessante: ela foi em boa parte baseada na minha 68. No final, por coincidência, o peso das duas é o mesmo: 4,1kg... :)
Total: R$ 1.500
Garanto-lhes que nenhuma Fender mexicana (e provavelmente algumas americanas) chegam perto dessa guitarra em termos de qualidade. O valor dela aqui, a julgar pela qualidade e pelas outras que temos à venda, seria no mínimo 2.500 a 3.000 reais.
Meu amigo Oscar Isaka Jr., também membro do fórum da Guitar Player, esteve aqui em casa hoje e pode avaliá-la e tocá-la. Vou pedir pra ele comentar, da forma mais sincera possível, o que ele viu aqui.

Sei que algumas pessoas que acompanham o blog acham uma perda de tempo tunar e montar guitarras. Tudo bem, tunar SX chinesa não é a melhor ideia do mundo, mas nesse caso, mostrei uma opção viável, sem muito risco e com uma relação custo benefício excelente. Mesmo que o cara não saiba ou não queira finalizar a guitarra, o luthier pode fazê-lo, com um acréscimo, é claro.
O mesmo processo pode ser aplicado para uma strato de alder ou ash, com custos semelhantes.

Recentemente o Fagner Cirino postou aqui dizendo que só tem 3.000 reais pra fazer uma strato. "Só 3.000?" Imagine a strato que dá pra fazer com esse dinheiro. É só ligar para as fontes citadas (ou outras que eu não conheça) e esperar sentado em casa. Com 2.000 reais ele faz uma strato absolutamente top de linha.

Novamente: não tenho vínculo comercial com ninguém. Indico as pessoas e fornecedores que eu mesmo utilizo e comprovei a qualidade. O objetivo do blog permanece: trocar informações e dicas com guitarristas. Quanto mais sabemos, menos gastamos! :)




PS: O baixista Flávio Siodoni fez um processo semelhante para construir o seu Precision 51. A história, com os custos especificados, está aqui: Siodoni P-Bass by luthier Cavalheiro

domingo, 30 de outubro de 2011

Telecastermania - parte 2: Mogno (ou: como fazer um corpo de mogno em 64 minutos!)


         Quando cheguei na oficina do luthier Roberto Cavalheiro em Blumenau pra pegar as minhas duas teles de ash e alder, vi um enorme bloco de mogno, e como sempre, fico babando quando vejo mogno. Esse era de uma madeireira recentemente fechada e o aspecto era muito bom.

Ficamos a tarde inteira em função das Teles e lá pelas 18 horas,o Beto ainda percebendo o meu encanto pelo mogno, me disse: se esperares mais uma horinha, faço um corpo de tele de mogno pra ti, em peça única. E melhor ainda, de presente, já que vieste aqui me visitar e sempre acreditaste no meu trabalho!
"Daquele bloco ali, pretendes fazer um corpo pronto em 1 hora??" - E comecei a rir. :)
"1 hora? Tá com cara de 3 a 4 horas, no mínimo... Pensei"

Mas, tudo por um corpo de mogno bom, e ainda em peça única! Resolvi cronometrar, filmar e fotografar pra ter certeza :) E, exatos 64 minutos depois, ele me entrega aquela maravilha!
Acabei de editar o vídeo em HD no YouTube - pra quem tem boa conexão, sugiro assisti-lo no formato HD - tá muito legal.
Eis o vídeo:


Aqui a bichinha pronta, depois de uma finíssima camada de verniz para acender o mogno:

Nos próximos posts, conforme prometido, toda a aventura da construção das duas Teles, com detalhes e dicas.
Abraço!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Telecastermania

Telecasters: Ash e Mogno

       Recentemente resolvi montar duas teles clássicas, uma com corpo de Ash e outra de Alder, mas sem ter que importar quase nada (apenas algumas peças). Andei pesquisando e vi que poderia fazer essas guitarras com alta qualidade, tudo no Brasil e com custo bem inferior às importadas. Nos próximos posts vou colocar um "passo-a-passo", desde a compra das madeiras, o processo de manufatura dos corpos e  braço de maple, feitos magnificamente pelo luthier Cavalheiro, até a finalização aqui em casa. Já aproveitarei para explicar porque no final acabei com uma terceira tele, feita com peça única de mogno.
De brinde, vou postar um vídeo do luthier Cavalheiro fazendo o corpo de mogno em exatos 64 minutos! Incrível! :)
A tele de alder está em processo de finalização.

Por enquanto, vou colocar algumas fotos, só pra dar água na boca do pessoal, hehehe...

A Telecaster de mogno, num close up (o braço é de uma antiga Roland GR707, sem a barra estabilizadora):



A Telecaster de Ash (pesado: northern ash):



Tudo começou porque queria fazer uma tele semelhante à minha 68. Era pra ser um clone, mas no meio da aventura resolvi modificá-la um pouco (escala de maple, tarraxas Planet Waves). Fiz um acabamento  "envelhecido" que realça a beleza dos veios do ash.
Aqui, ela do lado da 68:

De perto, ao vivo, ela parece mais antiga que a própria tele de 1968! :)

PS: O som delas, é claro! Esqueci de comentar, mas nem é necessário: não tem como errar quando usamos madeiras e parâmetros clássicos de construção. Guitarras magníficas! Com o tempo, colocarei os samples, mas já posso adiantar que a de Ash tá com um timbre muito parecido com o da irmã... :)

Update 08/2012: Depois de ouvir muito, conclui que a nova de ash é excelente, mas se comparada com as outras. Quando no "mano-a-mano" com a 68, ela apanha um pouquinho... :)
Essa Fender 68 é foda. O som parece que "salta" dela, equilibradíssimo. Ainda bem que é minha! :)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

As Crônicas do Cedro - (1º capítulo)

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)
     




        Acabei de ressuscitar uma Telecaster com corpo de Cedro, que cismava em soar mal. Mesmo depois de umas 5 tentativas de captadores, não tinha jeito. Semana passada resolvi colocar aquele braço da SX (postado aqui) que estava sobrando, e mais algumas peças, também "sobrantes". Dessa vez, tinha certeza que o captador do braço seria um P-90 e separei o meu humbucker mais agudo e rabugento pra colocar na ponte.
Tudo isso iria para um corpo de Telecaster de (suposto) Tauari, que acabou ficando muito pesado (quase 5 kg) e com timbre feio, abafado. Abafado por abafado, prefiro o Cedro! :)

Quando acabei de montá-la, liguei no amp sem muita esperança, mas me surpreendi com a sonoridade! Comparei com várias guitarras boas que tenho e o timbre dessa tele de cedro está praticamente à altura de todas elas. É um meio termo entre a Les Paul e a Telecaster padrão.
Como já apanhei muito do cedro, tomei o cuidado de colocar um pot de volume com 560k e capacitor de .022. Ajudou a abrir um pouco mais o timbre.

        No fórum da Guitar Player já fiquei conhecido como "o cara que não gosta de cedro" :). Tudo porque há uns 7 anos, quando era apenas um guitarrista sem nenhum conhecimento de luthieria, resolvi finalmente ter uma strato e conclui que uma de luthier seria ideal. Nem me lembro se a palavra "cedro" foi mencionada, mas na época não tinha a mínima noção da importância das madeiras.
Gastei quase o mesmo valor de uma Fender americana importada e o resultado foi terrível - uma strato SEM som de strato.
Depois de umas 20 tentativas frustradas para fazê-la soar bem, fui pesquisar... Santa cultura! Aos poucos, fui entendo porque ela não soava como strato: corpo de cedro, braço de marfim, captadores Seymour Duncan Quarter Pound/Blackmore, ponte Wilkinson VS50 (esse modelo nunca engoli - muito bem feito, mas...).
De início, pensei: "Ahá! É só trocar os captadores!". Troquei e nada, abafada, sem muito estalo... Até que troquei o corpo de cedro por um de alder e a mágica aconteceu.

Ainda fiz mais 2 tentativas com cedro, dessa vez com tops de outras madeiras para tentar jogar brilho no timbre: Cedro+Marfim (essa tele), Cedro+Imbuia. Nada. Com um EQ paramétrico, consegui identificar uma falta de força nos médio-agudos, entre 1600 e 2000 Hz, centrado em 1850 Hz. As 3 guitarras tinham essa característica. Todos os corpos de cedro foram para o "depósito"...

        Há uns 4 meses, peguei o corpo da minha strato de cedro e percebi que o cheiro característico (de sauna) do cedro havia diminuido muito. Coloquei um braço de maple/maple e ao tocá-la (captadores StewMac Golden Age) percebi uma boa melhora no timbre. Imediatamente pluguei a minha strato de alder e somente com as duas, lado a lado, é que consegui perceber que aquela deficiência de médio-agudos ainda estava lá, mas mais sutil. Se não estivesse ouvindo a de alder junto, juraria que o som era de uma strato perfeita... :)
Acredito que o maple tenha equilibrado o timbre do cedro.

Fiquei com uma pulga atrás da orelha e resolvi ressuscitar as outras duas. A Tele foi uma grata surpresa - tá com um timbre muito legal, principalmente por causa do braço de maple/maple. Ficou tão boa que vou investir numa troca de trastes (com luthier - não tenho capacidade técnica pra isso) - 3 deles estão levantados e se tem uma coisa que me irrita é traste mal colocado/nivelado. Coisa de guitarra (SX) chinesa barata.
Já uma custom HH, cedro rosa com top de imbuia (o timbre da imbuia não ajuda muito nos agudos), continuou abafada - mas nela coloquei uma braço de maple (fino) com rosewood.



O que será que aconteceu? O cedro envelheceu, secou mais ainda (mas já estavam bem secos, segundo os luthiers) ou foi o acréscimo do maple?
Não sei ao certo. Ainda acho o cedro deficiente nos médio-agudos (há quem goste dessa característica) e o Alder e Ash bem melhores, principalmente para guitarras estilo Fender, mas pra quem jurou que nunca mais tocaria numa guitarra de cedro, tô mordendo a língua, kkk...

sábado, 15 de outubro de 2011

FAQ-002: Tingindo Plásticos

Guitarra boa é sempre guitarra boa, independente do aspecto. Pode ser uma daquelas envelhecidas naturalmente, como a famosa e clássica tele "Micawber" do Keith Richards:

Pode ser uma ilustre desconhecida, como a do Jon spencer:

Ou uma toda reluzente e novinha em folha, sem nenhum arranhão.
O que eu não curto muito, esteticamente, é guitarra muito "relicada". Não sei, pouquíssimas me parecem realmente naturais. Principalmente essas "heavy relic", onde algumas tentativas ficam ridículas:

Até mesmo a Fender às vezes exagera e perde a mão. Aqui, uma "Time Machine" Custom Shop:

A Fender iniciou essa onda (e criou o nome "Relic", de relíquia) nos anos 90. Reza a lenda que Keith Richards encomendou cópias de suas amadas Telecasters e as devolveu com um bilhete: "Estão muito bonitas. Se vocês derem uma "gastada" nelas, eu as tocarei". Daí foi ladeira abaixo. Tom Murphy na Gibson aproveitou a onda e hoje ambas as empresas têm nas suas linhas "envelhecidas" as guitarras mais caras.

Por outro lado, não gosto de guitarras reluzentes, com metais ultra polidos e aquele acabamento grosso de poliuretano que reflete tudo.
Também não gosto do branco "OMO", pode até ser trauma de uma telecaster Finch branca muito ruim que tive há décadas e entre outras coisas, não afinava nunca e me dava choques elétricos... hahahá :). Fico feliz que tenham inventado o "Off White", que é o branco "não tão branco"

Por isso, sempre que pego um plástico branco, fico tentando deixá-lo um pouco mais escuro. Sempre que pego uma guitarra reluzente demais, passo uma lixa bem fina pra "cortar" o excesso. Idem para os cromados. A técnica atual de cromagem de metais (acho que) surgiu na década de 50/60 e só foi instituída nas peças de guitarras a partir dos anos 70. Anteriormente, os metais eram mais foscos e, na minha opinião, mais bonitos quando combinados com madeiras. O acabamento de poliuretano (PU) também iniciou-se só em meados da década de 60. Antes era só nitrocelulose ou "duco", que não brilhava tanto. Hoje, é tudo PU super polido e em grossas camadas, abafando a madeira..

Chega de papo retrô... Esse post é porque o pessoal demonstrou curiosidade sobre o método que uso pra tingir os plásticos. Já tentei várias coisas e tintas. Uma vez peguei uma "fórmula" num fórum que incluia, entre outras coisas, uísque e mostarda... E funcionou! :)

Mas um método mais simples é usando apenas corantes para tintas, aplicando-os diretamente no plástico. Aconteceu por acaso - tentei uma vez e saiu tudo após passar água. Mas no outro dia, por acidente, derramei um pouco na mesa e como não tinha água por perto, tentei limpar com um pano velho. Quanto mais eu esfregava, mais a tinta grudava. Depois tentei com água, mas daí a tinta já havia grudado... :)

Então, descobri que o princípio é esse - sujar bastante com a tinta e tentar limpar sem água. :) Quanto mais tentamos limpar, mais a sujeira/tinta gruda. É importante que o plástico seja previamente lixado - de maneira uniforme ou não (veja o porque na sequência) - pode ser uma lixa de grão 400 a 600 (obs: quanto mais alto o valor, mais fina é a lixa) 

Essas são as cores que uso (lojas de ferragens, tintas e utilidades, custam por volta de 4-5 reais cada):


Aqui o processo em dois escudos de telecaster. O da direita já é "off white", mas eu queria deixá-lo "mint green", um pouquinho esverdeado. Pinguei as gotas. Mais tarde vou acrescentar apenas 4 gotas de verde claro no da direita:

Aqui, já com um pedaço de pano (bem seco, não esqueça, tudo nessa etapa é sem água). Esfreguei bastante e com força, até secar e "travar" o pano. Tente literalmente "limpar a seco":

Faltou um pouquinho de amarelo... E esfregar novamente.

Depois de bem secos, são então lavados com água corrente. A água (continue esfregando aí também) retira mais de 80% da "mancha", mas o que queremos realmente são os 20, 10 ou 5% restantes...



O da esquerda "manchou" mais porque eu o lixei propositalmente de forma irregular. A sujeira irregular é essencial para um aspecto vintage. 
Agora, seque-os novamente, esfregando firme. O excesso de cor/manchas/sujeira é retirado com lixa e água. 


A relação de valores das lixas é importante. Se lixamos inicialmente com uma 400 e queremos tirar pouca coisa, podemos usar uma lixa de 800 ou 1200 (usei inicialmente uma 500 e depois 1200). Mas se o objetivo for apenas o de "cortar o branco", podemos usar uma com o mesmo valor ou um valor imediatamente acima. Lixamos levemente, de maneira uniforme ou não, dependendo do objetivo final. 

Na foto o da direita não parece tanto, mas ficou com um tom levemente esverdeado, exatamente como eu queria. O da esquerda, que deve ir para uma telecaster que será pintada em "Daphne Blue" ou "Surf Green" (ou Teal Green), pode ainda receber mais lixadas pra diminuir o amarelo - ou simplesmente acrescentar um pouco da cor "ocre" ou marrom. Prefiro esperar e decidir depois.
O legal é que podemos lixar, retirar tudo e tingir novamente :).
Nessa strato (postada anteriormente), o tom levemente amarelado/esverdeado do escudo ficou perfeito com o vermelho do corpo:

É claro que se alguém fizer isso e descobrir mais alguma dica, por favor, dê um toque - é obrigação! :)

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12/11/2011: O pessoal já está aplicando esse método e descobrindo novas opções/variações muito interessantes. Uma delas é a tinta a óleo - faz sentido porque o óleo "gruda" e mancha bem. Vou postá-las sempre que acrescentarem algo:

Duda Menezes: usei algumas Tintas Óleo , aquelas usadas para pintar quadros e tive um bom resultado. Marrom escuro , marron médio e amarelo .Usei o seu sistema para tirar excesso e ficou muito bom. Não ficou exagerado , ficou no ponto . 

Cesar: "Eu utilizei essa tecnica para tingir escudo e covers de captadores. Realmente é uma técnica fácil e q funciona, porém fiz algumas adaptações. Para mim funcionou mto bem com as peças molhadas, ficando assim mto mais fácil para espalhar a tinta mais homogeneamente. Pinguei algumas gotas do corante amarelo (meio mostarda) em um pano e apliquei em todo o escudo molhado, em seguida passei um pano seco, assim já ficou praticamente na cor que eu queria, levemente amarelado, sem excessos, bem homogêneo e natural, depois só lavei em água corrente e passei uma lixa 1200 bem de leve msm, o resultado me agradou bastante

Jean de Bethencourt:
1 - Lixar o escudo com lixa 600.
2 - Em seguida lixar com 1200, eliminado os riscos profundos. Lavar com água para remover o pó.
3 - Polir com Kaol ou Brasso.
4 - Pingar as gotas de corante 'à seco' (usei cor Ocre). Esfregar por toda superfície, até travar o pano.
5 - Polir novamente com Kaol para remover o excesso de tinta.

Resultado: Escudo fosco (matte), levemente amarelado, de forma homogênea, sem tinta acumulada em riscos profundos.