segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tagima - parte II


Para quem acompanha o blog e já leu o post "Tagima 735 Special (ou, como levar gato por lebre...)"
Link: http://guitarra99.blogspot.com/2010/09/tagima-735-special-ou-como-levar-gato.html 

Hoje, 18/04/11, houve uma "Audiência Conciliatória" num fórum de Florianópolis. Ano passado iniciei um processo contra a empresa Marutec, dona da marca Tagima.
Interessante que a empresa contratou um advogado (local) que também é guitarrista e enviou um técnico de São Paulo (luthier? Não perguntei).

OFERTA DA TAGIMA: um corpo de Alder, sem acabamento, composto de 5 (sim, cinco!) emendas. Parecia uma daquelas cercas de madeira que vemos por aí. Como brinde, escudo, ponte e captadores (o mesmo hardware da T-735 nacional). Quase ia esquecendo: também um bag Tagima de plástico e uma camiseta Tagima.

O advogado, simpático e articulado, toca guitarra há 20 anos e tem uma "Fender Standard" - não sei se ele referiu-se à americana ou literalmente à standard mexicana, mas o fato é que ele achou o corpo "muito bom" e "gostaria de ter um desses".
Embora tenha ficado claro que fez a "lição de casa" e pesquisou antes, ele não tinha percebido esse detalhe do corpo e até tentou argumentar que as Fender americanas "podem ter cinco emendas/partes". Olha, duvido muuuito. Mesmo nos anos "negros" da CBS, acho extremamente difícil encontrar alguma. Duas peças é a regra geral. Três? Nas de cores sólidas, talvez.. Quatro? Humm... Cinco???
E acho que de certa forma eu me vi nesse advogado. Eu tinha pouco mais de 25 anos de guitarra quando finalmente me interessei pela construção delas. Há cinco anos, não perceberia essas mutretas.

O técnico/representante da Tagima, também muito educado, por 3 vezes mencionou "A Tagima não trabalha com alder". Na terceira eu pedi para ele assistir o vídeo do Zaganin!

Eu falei que tinha amigos guitarristas que sabem tudo o que eu passei com essa Tagima e eles iriam rir da oferta.
Não aceitei e achei uma falta de e educação e bom senso da Tagima me oferecer um corpo de Alder todo retalhado. Se eles não conseguiram me enganar com uma guitarra de "lenha", ingenuidade extrema achar que eu seria incapaz de perceber as emendas. Acho que nunca leram o meu blog... :)
E a cavidade dos captadores era piscinão! :)

Eu vou até o fim com essa coisa agora. A minha índole é de natureza pacífica e de certa forma até complacente, mas aprendi com meu pai o valor da honestidade e honra. E não foi isso que vivenciei hoje, novamente.

PS: 03/2013: Leia o final desse caso aqui (CLIQUE)

domingo, 6 de março de 2011

Quanto Custa Uma Boa Telecaster?

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)


Como subtítulos, deveria acrescentar também:
"Sem Luthier": Partes 3 (acabamentos caseiros) e 4 (blindagem caseira)
Antes, a foto e as especificações:


Especificações
Corpo: Swamp Ash, 3 peças, tingido e encerado
Braço: Maple, "C"
Escala: 251/2", Rosewood, Raio: 9.5". Nut: latão
Tarraxas: Planet Waves Auto Trim/Lock
Captador Ponte: Fender Custom Shop Nocaster 51
Captador Braço: Fender Custom Shop Nocaster 51 rebobinado (Sérgio Rosar)
Pots e capacitor: 250K, capacitor à óleo (PIO) 0.047uf
Ponte: Gotoh Modern Tele, com 6 saddles
    
     Quanto mais aprendemos sobre guitarras, maior a chance de adquirirmos bons exemplares sem pagar um real a mais. Melhor ainda, podemos montar uma excelente guitarra pesquisando componentes de qualidade com preços às vezes surpreendentemente baixos.
Assim, vou descrever como essa Telecaster "Custom" foi criada. Ainda não calculei o preço final - ao longo do post vamos somando... :)

     Tudo começou com uma Telecaster Squier Standard usada que adquiri por 450 reais. As Squier da série "Standard" são boas guitarras e essa particularmente me chamou a atenção por ter sido feita na fábrica da Cort. Eu sabia que o corpo, embora lindo (candy apple red) era de agathis, madeira que engana muito mas definitivamente não serve para um som clássico de tele. Assim, comprei-a por uma razão principal: o braço! Fantástico, muito semelhante ao da minha tele 68, acabamento e trastes perfeitos. Captadores bons, de alnico, ferragens muito boas. Vendi o corpo por 200 reais, então o preço final dela foi de 250 reais
Tudo bem, vocês podem pensar: "Mas isso é sorte - uma guitarra dessas por 450 reais". Bem, um bom braço de Telecaster da Guitar Center chega aqui por cerca de 300-350 reais.
Comprei um corpo (sem acabamento, madeira crua) de tele de Swamp Ash (aquele ash leve do sul dos EUA, usado pela Fender ppte nos anos 50) na Guitar Center. Recebi em casa e no total, com impostos, custou 374 reais. Pelo peso, não é swamp, parece northern, mas tudo bem, acho que até prefiro o ash mais denso. Chegou assim:

     Nunca gostei desses acabamentos modernos, com grossas camadas de verniz acrílico ou poliuretano bicomponente. Não deixam a madeira falar direito e esteticamente acho-os muito brilhantes, exagerados.
Resolvi apenas tingi-la e encerá-la. O ideal seria usar um selador e não sei o quanto a cera pode funcionar como selador, mas já havia feito isso numa outra guitarra e funcionou muito bem. Além do mais, minhas guitarras não são expostas à muita umidade.
A anilina é o corante mais usado para madeiras e um pote custa menos de cinco reais. Misturamos anilina com álcool (quanto mais puro o álcool, melhor) e espalhamos com uma pedaço de pano/estopa. Eu sempre começo com pouca concentração e vou aumentando se necessário. Como eu queria bem preta, coloquei logo uma colher de café de anilina em cerca de 50 ml de ácool (obs: anilina mancha muito a pele e demora para sair - sempre use luvas).


     Aplique uma ou mais vezes, dependendo da intensidade do tingimento desejada. Nesse caso, fiz duas ou 3 demãos. O álcool evapora rapidamente. Ele funciona como veículo para a anilina. Quanto mais e mais vezes "molhamos" a madeira com álcool, mais profundamente ele conduz a anilina, dependendo é claro, da permeabilidade da madeira, que é diretamente relacionada ao seu tipo de fibra e poros abertos/fechados.
O maple, por exemplo, tem poros tão fechados que pode até ficar sem impermeabilização/selador/verniz.
Depois do tingimento e secagem (que depende da pureza do álcool, mas é rápida), eu geralmente uso alguns pedaços de panos velhos (um deles levemente umedecido) para retirar o excesso de anilina.
Uma etapa intermediária: eu lixei (lixa 220 e depois 300/400) as bordas para dar um certo ar de "envelhecida" e um toque de "faux binding". O efeito é legal e já havia feito antes, inclusive acrescentando algumas lixações irregulares e aleatórias em outros locais. Fica mais velha ainda, porém eu ando meio preguiçoso ultimamente... :)
Mas ainda falta a cera...
Só que antes da cera, usei um spray da Colorgin de tinta magnética (com partículas de ferro) para blindar a cavidade de controle. Deveria, mas não repeti o procedimento nas cavidades dos captadores. Essa é uma solução caseira que funciona na prática. Tinta condutiva é cara e chata de aplicar e blindagem com fita de cobre + solda é mais chata ainda de fazer...
Como disse antes, nunca seria luthier porque não tenho o dom e principalmente, paciência para isso. Tudo o que faço é com o objetivo de aprender. Aprender "fazendo" - não tem coisa mais eficiente.
Observem na foto que o local deve ser isolado e é necessário deixar uma pequena borda superior de tinta para que entre em contato com a placa metálica de controle, fechando a "gaiola de Faraday". Bem, mais ou menos... :)

Obs: No site da Pauleira, uma aula sobre como fazer e aplicar tinta condutiva, pra quem não é tão preguiçoso quanto eu... :) Siga o link: Pauleira: Como fazer tinta condutiva e blindagem


Tinta seca, e cera Poliflor (sim a própria, com carnaúba e tudo!) passada, só falta uma parte meio chatinha. Esfregar, esfregar e esfregar, até o brilho da cera aparecer. Eu uso bastante fricção para gerar uma boa quantidade de calor, que derrete bem a cera e aumenta sua penetração nos poros, criando uma certa impermeabilização.
Aqui, com a cera, ainda sem polimento, fosca:

E depois de meia hora, suando: (dica: use meias velhas, nas duas mãos, para polir - tem que sentir a madeira aquecendo! :) ). A minha avó, que era do tempo ainda sem enceradeira elétrica, deveria fazer isso bem melhor que eu. Mas ficou assim:

(Adendo 07/2014: não utilizo mais a cera, que não lida bem som calor/sol/suor. Tenho utilizado quase sempre uma fina camada (3 a 4 demãos) de verniz spray incolor.)

Daí, foi questão de colocar e ajustar o braço (é óbvio que tive que refazer os furos), captadores, parte elétrica (usei pots, chave de seleção e placa de controle da squier e acrescentei um capacitor à óleo de .047uF) e parafusar a ponte. O que mais me deu trabalho foi a ponte - os furos "through body" estão posicionados para uma ponte vintage (que eu detesto) e a maioria das modernas não se adapta. Tive que comprar uma Gotoh "Modern Tele Bridge". Era isso ou refazer os furos. Comprei a Gotoh...
Claro que poderia ter enviado para um luthier, mas todo esse tempo mexendo em guitarras me deixou relativamente apto para essa montagem. Tenho uma Dremel que é uma mão na roda para quase tudo.
Comprei um escudo branco e também uma moldura de metal (na GFS - clique). Decidi deixá-la sem o escudo e com a moldura.
A guitarra ficou fantástica, tocabilidade excelente, timbre lindo, 100% vintage na ponte e de strato no braço. Mas eu tinha 95% de certeza que chegaria a esse resultado. Essa é a grande recompensa do conhecimento :)

     Vamos então aos cálculos do custo:
Hardware - incluidos uma das melhores pontes (Gotoh) e tarraxas (Planet Waves) do mundo:
Parte importada da StewMac (tarraxas compradas aqui por 210 reais) - tive a sorte de não ter sido selecionado pela receita - e parte comprada no ML. Total: 200 reais aprox. (410 com as tarraxas)
Captadores: 180 reais! Como estou sempre de olho no ML, comprei, por essa bagatela, um par de Fender Custom Shop Nocaster 51 (normalmente 600 reais no Brasil) usados mas como novos.  O captador do braço estava morto e o vendedor não gostava do som vintage do single da ponte (que é um clone do primeiro captador de tele feito pelo Leo Fender, com alnico III). Rebobinei o captador do braço no Sérgio Rosar e o aproximamos do "Twisted Tele", que tem som de captador de strato.

Resumindo: 374 (corpo) + 250 (braço) + 180 (captadores) + 410 (hardware) = 1.214 Reais

Tá bom demais para uma guitarra dessas, não? :)


Abraço!
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Update 04/2012: No final de 2011, coloquei o braço das fotos acima (com escala de rosewood) na Tele de Alder e comprei um braço todo da maple (da Mighty Mite/Guitar Center) para colocar nessa tele de swamp. A idéia era deixá-la com um timbre ainda mais vintage. O braço é excelente, típico Fender modern "C".
 Ficou assim:




quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Guitarras Mágicas

       Ganhei de presente há pouco tempo do Oscar Isaka Jr., amigo meu (e outro louco por guitarras :) ) um poster muito legal com várias guitarras importantes (Guitar Heaven). Agora está pendurado na entrada do meu home studio.
Pois bem, eu tinha várias fotografias muito legais e de boa resolução e já que domino um pouco o Photoshop, resolvi fazer eu mesmo um outro poster e colocar aqui no blog. Afinal, todo "louco por guitarra" adora essas "centerfolds", hehehe :)
Como não envolve nada comercial, o poster pode mostrar as guitarras e os nomes originais.

       Primeiro o poster em miniatura com todas, depois individualmente. No final, lá embaixo, o poster em tamanho real, com 1,5 metros de altura. :)


A primeira: LP Standard "Pearly Gates". Mais informações no site da Gibson: Clique


Uma Les Paul 59 é fantástica, mas a Telecaster 52 não deixa por menos:


25/01/11: Já que o Maurício mencionou, abro uma exceção para a JEM, pela relevância do Vai. Particularmente, é linda, mas não gosto dela. Bem, vamos colocar assim e eu me pouparei das críticas: "Eu não tenho habilidade suficiente para tocar essa guitarra..."


... Mas volto rapidamente para as clássicas: Fender Custom Shop Stratocaster Rory Gallagher Tribute:


Uma Zemaitis estonteante (Zemaitis S24-FR):


A Les Paul do Jeff Beck, antes de ele se decidir definitivamente pela strato:


Prefiro uma Les Paul, mas é impossível ignorar a PRS McCarty:


Uma verdadeira jóia: Gretsch White Falcon:


Uma guitarra que mudou todas as regras: EVH Frankenstrat:


Mais 3 Gibsons - e olha que eu ainda prefiro as Fender! :)
Explorer
 

SG Standard


Les Paul Júnior


Volto para uma das minhas preferidas (tenho uma 74) - Telecaster 72 Custom:


Não poderia faltar a ES-335, mas sou mais a do Alvin Lee:


E finalizo com a Strato doEric Johnson:


E finalmente, o poster em alta resolução. A qualidade da imagem jpeg é de "9" (3,8MB) e tem 1,5 metros de altura (quando impressa). Dá pra fazer um poster bacana... (É só clicar na imagem e após ela carregar, clique com o botão direito e escolha "salvar como"):

POSTER:



Abraço!
PS: A escolha das guitarras e dos guitarristas foi pessoal e também dependeu da disponibilidade e qualidade das imagens. Eu gostaria de colocar mais umas vinte guitarras e outros tantos guitarristas, mas...


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

"Alívio de Peso" - até onde podemos ir ?

          Vou aproveitar o antigo post sobre o sistema de alívio de peso (weight relief) da Gibson e acrescentar as imagens das radiografias de duas das minhas guitarras, feitas hoje.
A primeira, da Cort KX Custom: aparentemente, mogno sólido. As linhas horizontais acima da sexta e abaixo da primeira corda são das emendas do top de maple. A linha mais superior é provavelmente de outra emenda, mas do mogno.Veja:


Apenas a 1ª e 6ª cordas estão posicionadas. As outras foram puxadas para trás.
A guitarra é leve (3,6kg) para uma guitarra de mogno - por isso eu suspeitava que ela tinha furos, já que a percussão não revelava muita coisa. Dá pra observar também o braço de maple de 3 partes. Ambas estão sem alguns componentes, como os captadores do braço.

Mas boquiaberto fiquei mesmo quando vi isso na Les Paul chinesa (também postada aqui):


144 furos !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Que é isso, gente! Socorro! :) Essa sim é um verdadeiro "queijo suiço". E olha que ela pesa 4,4kg! Esse mogno deve ter mais mineral que uma pedra! :)
Além disso, existem cinco câmaras adicionais - ou coisa parecida - na parte posterior.

Conclusão: guitarra chinesa? Investigue, investigue, investigue. Quase sempre tem uma mutreta...

Segue a cópia do post original:

O mogno excepcional usado nas décadas de 50 e 60 começou a ficar escasso e durante a década de 70 as peças disponíveis tornaram-se cada vez mais pesadas (ppte em função da absorção de silica do solo - o melhor mogno é o antigo e de solo bem drenado). A solução encontrada pela Norlin/Gibson foi criar furos ou câmaras no mogno. Isso aliviaria o peso (weight relief) e seria imperceptível porque o mogno é coberto pelo top de maple. Toda e qualquer Les Paul Gibson USA produzida entre 1982 - 2007 é "weight-relieved". As únicas Les Paul atualmente com corpo sólido de mogno são as "Custom Shop Historic" e as réplicas de guitarras famosas (Jimmy Page, Billy Gibbons, etc.)
As duas técnicas usadas atualmente são:
Câmaras (chambered body):



ou buracos (9 holes - também conhecidos como "swiss chesse/queijo suiço"), uma série de nove buracos:


A regra é essa. Se tu tens uma Les Paul e queres realmente checar se ela é "weight relieved", podes fazer duas coisas: radiografá-la ou cortá-la ao meio... :)

                                                _______ R7 com mogno sólido__________

ADENDO:
Como o pessoal tem perguntado muito, algumas dicas para conseguir a radiografia:
Ligue para qualquer clínica radiológica, peça para chamar o técnico (não o médico) em radiologia e explique que desejas radiografar (pagando, óbvio) uma guitarra para investigar a parte interna. Se o cara não for um tapado, vai dizer que é possível (e é, plenamente).
A maioria das clínicas hoje em dia usa um sistema digital, onde a imagem primeiro é gerada digitalmente (pergunte sobre isso) e depois eles a passam para o filme. Se o cara perguntar o tamanho, diga que é o corpo de uma guitarra e do tamanho exato de uma radiografia de tórax.
Uma radiografia de tórax com apenas 1 pose deve custar por volta de 30-50 reais. Quando fores discutir o preço, explique que não queres o filme e, obviamente, o laudo médico (hahahá - Doutor... minha guitarra vai sobreviver?), apenas fotografar a imagem na tela (use uma câmera digital comum no automático, sem flash). O custo de uma radiografia é quase todo do filme e laudo médico, justamente o que não queremos. Algumas atendentes podem não entender, mas o técnico sim. Claro que podes também pagar pelo filme e pendurar na parede do teu quarto... :)
Se o pessoal da clínica tiver sensibilidade, acredito que isso custará menos de 25 reais. O processo todo não demora mais do que 5 minutos.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O (grande) problema da guitarra com singles e humbuckers...

         ... E eis que um dia a gente percebe o que é um potenciômetro/pot (volume/tonalidade), vai ainda mais adiante e descobre que, dependendo do tipo de captador usado, seus valores mudam. E, por fim, ainda tem que decidir se vai usar um do tipo "linear" ou "logarítimico". Bah! Dá vontade de mandar a guitarra para o luthier e deixar o stress da escolha para ele...
O problema é que nem os luthiers podem resolver completamente o impasse de qual potênciometro/pot usar quando uma guitarra tem captadores single e humbucker.
Explico: os singles são por natureza, captadores mais agudos que os humbuckers. Portanto, já que os potenciômetros também funcionam como filtros de agudos (ahá! Muita gente não sabe disso :-) ), e, considerando que quanto maior o seu valor, mais agudos eles deixam passar (principalmente o de volume - o de tonalidade tem um capacitor acoplado que também filtra agudos, mas é assunto para mais adiante), o valor ideal de um potenciômetro para singles é de 250K. Como o humbucker tem menos agudos, um pot de 500K filtrará menos agudos que um de 250K. (Alguns captadores de altíssima saída/potentes são tão abafados que precisam de pots de 1Mega, que praticamente não filtram nada de agudos).

Aí começa o problema. Uma guitarra tipo strato, com um humbucker na ponte e dois singles no meio e no braço (H-S-S) só tem um pot de volume. Veja essa Fender HSS:
 

Se usarmos um de 250K, o humbucker fica abafado. Se usarmos um de 500K, os singles ficam sibilantes e com agudos ásperos. Existem os pots de 300K, mas geralmente não resolvem o problema e podem até piorar, com os 3 caps soando mal...
Nesse post antigo sobre a Cort G260 ( http://guitarra99.blogspot.com/2010/07/cort-g260.html ), descrevo o sufôco que foi equilibrar isso. Tive que usar um humbucker Rosar especial, com bastante agudo, para ligá-lo num pot de 250K e não prejudicar os singles. E, sobre essa excelente mas difícil Cort G260, aprendi mais tentando ajustá-la do que aprenderia num curso de regulagem de guitarras... :-)

*** 12/10/2012: ATENÇÃO:  há um procedimento mais simples e prático que esse aí de baixo - siga o link:
http://guitarra99.blogspot.com.br/2012/10/o-grande-problema-de-guitarras-com.html 

Bem, para não me estender demais:
Depois que li na GP a coluna do Jaques Molina onde ele revela uma ligação "ultra secreta" e especial, tive um estalo e agora, bem, agora eu tenho uma arma infalível para resolver esse terrível impasse dos potenciômetros numa guitarra com singles e humbuckers. Usar dois potenciômetros de volume, comutáveis por uma mini chave! Fica super bem numa strato, onde sempre achei um exagero dois controles de tonalidade.

Essa variação da "molina wiring"  só foi possível com a inestimável ajuda do Sérgio Rosar. Eu estava tentando com uma mini chave de 3 terminais mas não dava certo - levei até o Sérgio e em 10 minutos ele fez o diagnóstico e o esquema de ligação: a mini chave tem que ter 6 terminais para isolar completamente um potenciômetro do outro. A SX creme, que até então não se resolvia, agora tá falando muito...
A diferença não é gritante, mas claramente perceptível: os singles perdem aquela estridência chata (estão no pot de 250k) e o humbucker "clareia" (pot de 500k).
Tive o trabalho de fotografar e "photoshopar" o esquema. É bem fácil (clique na foto para ampliá-la):


Como eu não gosto da localização original do potenciômetro de volume (minha mão direita fica batendo nele), deixei essa guitarra sem controle de tonalidade (e um pouco mais aguda no geral, portanto), mas dá para colocar o pot de tonalidade (que passa a controlar os 3 captadores): ele deve ser ligado na saída da chave de 5 posições (soldado no mesmo ponto do fio verde claro que vai para a mini chave).
A Strato SX Creme ficou assim (a posição da mini chave ficou legal ali, mas pode ser colocada em outro lugar à sua escolha):


Os dois botões de "Tone", são na verdade de volume... Depois eu troco.
PS: Agradeço aos meus dois "gurus", Jaques Molina, pela inspiração e Sérgio Rosar, pela brilhante finalização.
PS2: Já comprei várias mini chaves dessas (on-off ou on-on) de 6 terminais. TODAS as minhas HSS terão essa ligação - A G260 é a próxima... :)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

"Sem Luthier" Parte 2: braços envernizados "grudentos"

Outra manobra simples, rápida e eficiente. Se tu és como eu, que por alguma razão orgânica ou química, tens as mãos que cismam em grudar nos braços envernizados, precisas de apenas 5 minutos para resolver esse problema.
Antes, uma foto dos tipos mais comuns de acabamento de braço:
1): Sem acabamento, observado principalmente em braços de maple. O maple fica extremamente liso após ser lixado com lixa de grão (aspereza da lixa: quanto maior o valor, mais fina/menos áspera) 400 ou 600 e é uma madeira de poros fechados, portanto bem resistente à umidade.
2): Envernizado, nota-se pelo brilho característico do verniz. Em teoria, é liso, mas basta uma leve umidade nas mãos para o verniz travar a pele. Incoveniente para guitarristas de pele fina ou com pregas mais frouxas na palma da mão.
3) Acetinado: imagino que venha do termo "cetim"... :) O acabamento sintético recebe menos polimento. "Gruda" bem menos.


Pois bem, a idéia é tirar o excesso de polimento do verniz, deixando-o com um aspecto mais fosco/acetinado e bem mais escorregadio. Em termos práticos, o braço fica mais "rápido".
Material: Bom-Bril (o mini é ideal - 1001 utilidades :) ) ou lixa de grão maior que 600 (1.200 seria ideal).
PS: o Ógner postou aqui que teve o mesmo efeito usando uma esponja Scotch Bright no lado áspero - mais uma possibilidade, então... :)

Procedimento: na internet existem vários vídeos mostrando - alguns usam uma fita adesiva para estabelecer os limites, mas eu faço no "olho" mesmo. Seguir os contornos do braço deixa-o com aspecto mais natural, sem a diferença abrupta entre o brilhante e o fosco:
Observe a diferença do brilho entre a base do braço e sua região posterior, já lixada com Bom-Bril. Para mim, esse procedimento deixa o braço 100% mais escorregadio.
Não use muita pressão (importante) e faça movimentos uniformes e linares. Atenção para não lixar a lateral da escala (normalmente ela não sofre muito com uma lixa fina/Bom-Bril, mas sempre é bom ter cuidado). A medida que vai lixando, forma-se um pó fino branco do verniz. Use um pano levemente umedecido para limpar, seque bem e teste seguidamente, até achar o seu ponto ideal.

Na foto, 3 braços lixados. O do meio (Cort KX Custom) foi o primeiro: ainda não tinha a manha dos limites e a separação brilho/fosco é mais abrupta.

Na dúvida, inicie esfregando bem levemente o Bom-Bril/Lixa e vá aumentando a pressão se achar necessário.
O legal é que é um processo reversível. Basta polir novamente o braço - nesse caso, eu uso cera automotiva "Grand Prix" e uma flanela macia. Moleza. :)

PS: Eu sabia que havia vídeos sobre isso mas nunca os tinha visto. Como o pessoal do fórum GP perguntou sobre eles, fui procurar e aqui estão 2 links:
Galeazzo Frudua - luthier italiano
How to Fix a Sticky Guitar Neck

ADENDO 5/2020: Minha querida amiga e luthier Paula Bifulco fez um vídeo:



sábado, 13 de novembro de 2010

Para os "Sem Luthier"...P1: Como alargar furos de tarraxas.

            Atualmente a luthieria é bem conhecida e já existem até cursos especializados (como a B&H em São Paulo), mas há 20, 30 anos, luthier era coisa rara. Somente nos grandes centros e olhe lá...
Porém, mesmo com a realidade atual, muitas cidades do Brasil ainda não têm luthier e os guitarristas têm que apelar para a internet e o sistema do "faça você mesmo", na marra.
Esse grande contingente de orfãos bem que poderia ser chamado de "MSL", ou "Movimento Dos Sem Luthier", parafraseando o MST (Movimento dos Sem Terra)... :)
Como tenho muitas guitarras, aprendi a fazer algumas coisas básicas de luthieria: troca de captadores e peças, regulagens e ajustes gerais. De vez em quando me deparo com alguma coisa mais complicada e ligo para o meu luthier (cuja oficina está a 30 km de distância) para saber se arrisco-me ao trabalho ou não. 
Vou destacar aqui um desses casos:


"Sem Luthier" Parte 1:  Como alargar furos de tarraxas.

      Durante a troca de tarraxas daquela Aria com P-90 postada anteriormente, percebi que a furação era do tipo "vintage/antiga" onde o diâmetro da parte posterior é menor do que o padrão usado atualmente. Tenho uma furadeira, mas fui informado a tempo pelo meu luthier que se tentasse simplesmente ampliar o furo com uma broca comum, iria "espanar" a madeira em volta podendo até arrancar lascas. Era tarde da noite e a minha ansiedade para resolver esse dilema levou-me a uma solução bem prática, usando - imagine - uma tesoura!!
(Antes de começar, quero lembrar que é um método rudimentar e não deve ser empregado em guitarras caras. O acabamento não é perfeito e mesmo com a tesoura e tomando cuidado, podemos arrancar lascas de madeira e/ou verniz, comprometendo completamente o visual da guitarra.)

Veja as medidas de uma tarraxa vintage/antiga (modelo Kluson) com uma moderna (Grover Mini Rotomatic):

A Kluson tem haste de 6.35mm e porca de fixação (bushing) de 8.79mm. Portanto a cavidade feita na madeira geralmente tem pouco mais 8.79mm na parte de cima/frente e pouco mais de 6.35mm na parte de baixo/trás (guitarras mais baratas têm toda a extensão da cavidade na medida da porca).
Já as modernas têm 11.2mm para a porca e 9.91mm para a base da haste.
A Aria tinha tarraxas antigas e era uma guitarra bastante judiada... Achei que ela não se importaria com o risco... :) Como já havia tentado o procedimento antes com sucesso numa SX, dessa vez fotografei:

Tente deixar a tesoura o mais reta possível (num ângulo de 90 graus em relação ao headstock) e faça movimentos de rotação bem lineares, com pressão para baixo. A questão aí é saber até que profundidade vamos, e isso dependerá da tarraxa e de suas respectivas larguras (porca e base da haste). Tenha sempre a tarraxa na mão e vá testando de vez em quando, principalmente no primeiro furo. Assim que a tarraxa encaixar perfeitamente, recoloque a tesoura e use uma caneta (de transparência) ou faça uma marca qualquer no nível:

Observe que os dois primeiros furos de cima e o primeiro de baixo já estão prontos (sim, iniciei pelo segundo de cima e fiz a marca logo que a tarraxa encaixou).
Com a marca, podemos trabalhar mais rápido nos outros furos, sem a preocupação de passar do ponto. Todo esse trabalho levou uns 45 minutos na SX e apenas 25 na Aria. As pequenas irregularidades nas bordas ficam escondidas pela nova tarraxa,  mas eu uso uma lima redonda para deixar a cavidade mais bonita e bem justa:


Claro que não é igual à da StewMac:
Mas dá para o gasto... :)

Aqui uma foto com mais zoom. Apenas os dois primeiros de baixo foram alargados. Comparando o acabamento, até que não fica ruim, não? :)


PS: Esse post foi inspirado pelo meu amigo Ruy, guitarrista que mora em Palmas, no estado do Tocantins. O luthier mais próximo está longe demais! :)

PS2: Outro grande amigo e guitarrista (e em breve, luthier... :) ) o  Tanaka, postou no seu blog o procedimento técnico correto, usando uma furadeira de bancada e a broca adequada (da StewMac, é claro), com limitador/guia para manter o escalonamento da cavidade. A rotação é baixa e a broca tem mais função de "lixa" do que propriamente furadora. Repito: não use uma furadeira de mão e broca comuns, por mais simples que possa parecer... Não é.
Clique na foto para seguir o link: