Essa eu ganhei de "brinde" ao comprar uma Aria semi acústica, em 2004 ou antes. É daquelas ruins, com corpo laminado de folhas de maple e alder. Se tirar um parafuso, o local "esfarela" de tal maneira que não dá mais pra recolocá-lo. Uma piada.
Observe na foto abaixo, da cavidade do captador, o excesso de cola e as camadas da laminação:
Portanto, bonitinha mas ordinária. :)
Poderia jogá-la fora, mas gostei muito do braço de maple, surpreendentemente bem acabado, "gordinho" e com uma bela escala de rosewood/jacarandá (raio de 12"). Ela ficou largada aqui em casa até o ano passado, quando o luthier Cavalheiro, de Blumenau, me avisou que tinha um pouco de mogno disponível. Pedi pra ele fazer um corpo (idêntico ao original) de mogno e colar o braço.
O ideal seria antes aumentar a base posterior/trocular, do braço e fazer um encaixe mais profundo, porém ele achou que não havia necessidade. Até o momento, está bem estável e sólido :)
No detalhe da foto, o braço colado:
Obviamente ficou outra guitarra, muito, mas muito superior em timbre e ressonância. O peso final é de 4,2 kilos, portanto, o mogno é bem pesado (a minha LP 81, que ainda tem um top de maple por cima, pesa 4,3kg).
O acabamento, apenas com selador e óleo (limão e peroba). Coloquei os dois captadores originais (início da década de 80) da Aria, com imãs trocados para alnico (II no braço e V na ponte) e sonoridade bem na praia dos PAF, 7,8k.
Como os captadores estavam naturalmente envelhecidos, resolvi deixar as ferragens também com aspecto antigo e foi fácil: lixa (grão no mínimo 400, 600 é o ideal) pra retirar o brilho cromado já equilibra o aspecto "vintage".
Ela ainda ganhou tarraxas Gotoh, nova fiação e potenciômetros e um capacitor Mojotone "Dijon" .022uF.
Ficou melhor do que eu imaginava. Tô surpreso com a sonoridade dela.
Até pensei em refazer o headstock pra apagar o passado "Epiphônico Negro" dessa Special, mas resolvi deixá-lo intacto. :)
(Foto da guitarra em 06/2012, depois de refazer o acabamento - leia o update no final)
PS: O Lucas fez a pergunta óbvia e me toquei que também o óbvio seria aproveitar o novo corpo e transformá-la numa Les Paul Jr. Uma Les Paul Jr. Special, com dois P-90, como essa Gibson:
Mas acontece que o luthier Cavalheiro tinha um outro pedaço de mogno (antigo, de "demolição") e encomendei uma Junior Special - nesse caso, idêntica à Gibson, com braço de mogno, etc (mas acho que com os controles da Jr - não preciso de 4 pots). Atrasou porque tivemos dificuldade pra achar jacarandá pra escala. Mas o luthier Inaldo, de Florianópolis, muito gentilmente me cedeu uma bela peça. Em breve mostro a guitarra aqui.
Update 10/06/2012: Embora gostasse do visual rústico dela, achei que o mogno merecia uma "acendida". E é fácil - o mogno mais comum é esse marron, mas quando tingido de vermelho ou roxo e coberto com verniz, fica lindo. Como resolvi trocar o captador do braço, já que esse humbucker tava soando algo abafado e gordo, aproveitei e fiz o trabalho de embelezar o mogno. Usei corante anilina para madeiras da marca Salisil e da cor "Mogno", que na verdade é roxo. O roxo com o marrom natural do mogno resulta num tom avermelhado muito bonito.
Na posição do braço,adaptei um single (Rosar Fullerton) para que coubesse na moldura de humbucker . Aproveitei e coloquei um Rosar Mojo 13 na ponte - é um captador mais orgânico e natural que o próprio Gibson 57. Troquei ponte/stop tail e molduras para metal enegrecido.
Tone control apenas para o captador single (50's wiring), já que o pot de volume é de 500k.
O visual novo dela tá assim:
Antes que perguntem, para adaptar o single numa moldura de humbucker, recortei um pedaço de escudo de strato velho pra que coubesse por dentro da moldura do humbucker.
Nessa
demo (antes da troca de captadores em 6/2012) estou usando sempre o captador da ponte (um Gibson 57 Plus
modificado). Simulações do Amplitube: na direita, um JTM e na esquerda o
Blues Jr com o pedal Moller (saturação). O solo é um Tiny Terror no
talo. Como é uma guitarra de mogno com humbuckers, a sonoridade dela
lembra a da Gibson SG, então fiz um tema no estilo ACDC/Hard Rock:
Eu andava lendo várias coisas legais na internet sobre essa empresa californiana relativamente nova e a série "Badwater" me chamou a atenção pelo padrão "relic" de fábrica. Sabia que quase toda a produção é feita no oriente, as "USA" são montadas e envenenadas lá e os reviews invariavelmente positivos, ppte se considerarmos o preço.
Quando vi uma SRO à venda na Barra Music no RJ, por volta de 700 reais, comprei-a num impulso de GAS (Síndrome de Aquisição de Equipamento) do tipo "fiquei cego surdo e mudo" e só voltei à razão depois de ler "sua compra foi efetuada com sucesso" - hahahá :))
No mesmo dia vi no ML essa guitarra por 550 reais. Bem, coisas da vida.
A guitarra é realmente muito legal, padrão strato HSS, corpo de alder um pouco menor e mais fino e com um interessante processo artificial de envelhecimento, desenvolvido pela própria AXL.
Coisas de quem sofre de GAS: quando abri a caixa foi que caiu a ficha: "PUTZ! É uma strato HSS!"
Prá quem leu meu post sobre o "problema das guitarras HSS" sabe que eu tenho várias reservas em relação a essa configuração. Tenho duas HSS e tô de saco cheio delas. Se fosse uma strato padrão, era só trocar o escudo para SSS e beleza, mas o desenho do escudo e as cavidades dessa AXL são diferentes.
Tentei algumas configurações de captadores, mas no fundo eu já sabia que era perda de tempo e teria que enfiar uma mini chave pra colocar o Humbucker num pot de 500 e os singles num de 250.
Semana passada tomei uma decisão: vendê-la! Recolocaria os captadores originais (EMG designed, ou seja, feitos na china) e até os selos originais que havia guardado. Ela praticamente estava zerada...
Num último impulso, pra tentar manter meu status de "nunca ter vendido uma guitarra" (exceto uma Carvin há 20 anos, mas meu irmão que vendeu), peguei um escudo de strato branco single layer, recortei grosseiramente com uma tesoura de placa de metal, lixei com a Dremel pra fazer as curvas, reposicionei o corte da chave de 5 posições e depois, a parte mais difícil: transformar um plástico branco num que ficasse adequado para o "visual" dessa AXL. Tentei alguns truques, vários tipos de tingimento e finalmente consegui com uma mistura de anilina de madeira, café, mostarda e uísque (não me lembro as medidas!!).
Acabou dando certo! :) Gostei do resultado final, me livrei do botão próximo ao captador da ponte e aproveitei que tava desmontada e troquei o bloco da ponte por um mais pesado (o original é muito leve). Pots de 250k e capacitor .047uf, exatamente como uma boa strato!
Coloquei 3 excelentes singles Sérgio Rosar Fullerton (semelhantes aos Fender CS 54) e agora ela tá um brinco de ergonomia (pra mim). Gostosa de tocar, timbre de strato ligeiramente mais macio, mas bem ressonante, com twang e tudo de direito.
Mais uma que fica por aqui... :)
Demo: Solo com o Sérgio Rosar Fullerton do braço (Amplitube estéreo: Fender Pro Jr e Tiny Terror)
Ao retirar o verniz, descobri que a camada de maple era bem maior (e a de mogno menor) do que eu ingenuamente supunha...
Link para a aventura: clique aqui
(Não leu a Parte I - Conceitos Básicos? Clique aqui)
Os magnetos, ou imãs, são o coração do captador e suas características e materiais determinam grande parte da sonoridade deste. Quatro tipos de imãs industriais são mais comumente usados (em ordem crescente de potência): Alnico, Ferrite, Samarium Cobalt e Neodymium. Todos são bem resistentes ao calor e corrosão.
1) - ALNICO. É uma liga formada por Alumínio, Níquel e Cobalto ( e Ferro). O Alnico foi o primeiro tipo de liga magnética desenvolvida, portanto é o mais antigo da família dos magnetos. Foi desenvolvido para uso comercial por volta de 1940 e é composto por porcentagens específicas (mas que podem variar um pouco entre os produtores) de Alumínio, Níquel, Cobalto e Ferro (Ex: AlNiCo V: 15%Ni, 25%Co, 9%Al, e 48%Fe). A combinação dos componentes pode variar, gerando ligas de Alnico de diferentes potências, que são numeradas em algarismos romanos, com ordem crescente de potência: II, III, IV, V, etc. Ainda não encontrei uma informação exata, mas me parece que o Alnico III é mais fraco que o II. Os mais usados são o II e o V.
Todos os captadores de 1940 até início de 1960, com raras exceções, usavam ALNICO. Seu "timbre" é mais macio, ou pelo menos, sua resposta ao ataque da nota é mais natural, além de refletir bem as ressonâncias das cordas e madeiras.
O Alnico II, por ser mais fraco, tem menos ataque e mais médios que o V. Esse, por sua vez, apresenta graves e agudos mais definidos.
2) Ferrite (ou Cerâmico) - Strontium Ferrite - O imã de Ferrite é manufaturado desde 1954 e nasceu como uma alternativa de baixo custo para o Alnico. Resulta da combinação de Estrôncio e Ferro, inicialmente em pó, depois prensado e aquecido a altas temperaturas, adquirindo um aspecto "cerâmico".
Devido a sua estrutura, nos captadores é usado apenas em forma de barras.
O Ferrite soa mais agudo, seco, com mais ataque e realça menos as ressonâncias que o Alnico.
3) Samarium Cobalt - Assim como o Neodymium, é formado por minerais raros (Rare Earth Magnets) e é bem mais potente que o Alnico ou Ferrite. Usado em alguns captadores, como os Fender SCN (Samarium Cobalt Noiseless).
4) Neodymium - Magnetos de extrema potência, mas atualmente usados mais em alto-falantes
Essas ligas são magnetizadas em máquinas específicas através de pulsos eletromagnéticos. Por curiosidade, o Neodymium é tão potente que ele próprio pode magnetizar/desmagnetizar o Alnico.
A maioria dos produtores de captadores magnetiza o Alnico somente após o captador montado.
Mas o que interessa para o guitarrista?
Nos interessa tão somente o TIMBRE que diferentes tipos de magnetos podem nos proporcionar. E a influência no timbre não depende apenas do material e força magnética, mas também da posição do magneto em relação à(s) bobina(s).
Vamos dar uma geral:
Nos Singles clássicos, os pinos de alnico estão no centro da bobina. Isso gera um timbre mais seco, com mais ataque e brilhante.
Já nos Humbuckers, a barra de alnico localiza-se embaixo das bobinas, transferindo o magnetismo para os parafusos.
O P-90 é exatamente um meio termo entre eles, pois tem apenas uma bobina (é um single), mas duas barras de alnico (uma de cada lado, polaridades inversas) magnetizam os 6 parafusos centrais.
Claro que cada captador tem sua sonoridade não apenas pela estrutura magnética e sim pela estrutura global, mas eu diria que o imã contribui com pelo menos 50% disso...
Esses são os 3 tipos básicos de captadores que utilizam Alnico, mas outros excelentes, como os Gretsch DeArmond, Dynasonic e Filtertron devem ser mencionados (por favor, procure pelas especificações da guitarra do Malcom Young/ACDC :) ). Aliás, os DeArmond e Dynasonic são singles incríveis - veja os links de vídeos abaixo.
A partir dos anos 60, gradativamente o alnico foi sendo substituido, nos captadores mais baratos, pelo ferrite. Nos anos 80, com os humbuckers de alta potência, o ferrite passou a ser uma opção até para captadores mais caros porque o aumento do número de voltas/resistência diminui os agudos e o ferrite é um pouco mais agudo que o alnico. Em captadores de baixa saída (os clássicos), ele soa estridente, mas pode ficar muito bem nos outros.
Uma mutreta que não dá pra encarar é um single que, ao invés de usar pinos de alnico, tem uma barra de ferrite embaixo magnetizando pinos de metal. São os que abundam por aí nas guitarras chinesas baratas. Veja:
Aqui no blog eu fiz um tutorial sobre como transformar um single de ferrite em alnico: Clique Aqui
Alguns humbuckers de alta potência, mais de 17k geralmente, precisam utilizar 3 barras de ferrite (uma central maior e duas laterais menores), senão soariam abafados demais.
Se tens curiosidade de saber se o teu single coil é cerâmico, é só procurar pela barra. Ou observar o brilho dos pinos - geralmente o alnico é mais fosco e nunca é niquelado.
Os imãs de ferrite são escuros e os de alnico via de regra têm aspecto de aço escovado (embora hoje em dia, alguns captadores vintage e caros utilizem alnico não polido).
Pessoalmente, nunca ouvi um captador feito de ferrite, de baixa/média saída, que soasse natural ou bonito. Alnico na cabeça! :)
_________________________________
Pra ilustrar o post geral sobre captadores, vou colocar links para exemplos clássicos de captadores clássicos. Entre os caras, ninguém melhor do que o Phil X pra isso:
Um single DeArmond (Gretsch Duo Jet 1953):
Um single P-90 (Les Paul 1955) - ouça também a parte com saturação, por favor! :)
Um Humbucker PAF:
Stratocaster 1957 e seus singles (essa todos conhecem - ouça também Mark Knopfler, Eric Clapton, John Mayer, Hendrix e dezenas de outros mestres):
E pra finalizar esse post sobre captadores, um excelente vídeo com o Gary Moore (RIP) tocando só guitarras clássicas e captadores clássicos num Orange Tiny Terror (o pedal, ligado eventualmente, pode ser um Tube Screamer mas é mais provável um Digitech Bad Monkey).
A Telecaster dele é do mesmo ano da minha (1968)! :)
Captador é um assunto fascinante e inesgotável. Ficamos com o básico por aqui. Eventualmente voltarei com mais alguma coisa.
Abraço!
COMO TROCAR BARRA DE FERRITE POR ALNICO EM HUMBUCKERS
Ôps! voltei mais cedo do que eu imaginava! :)
Quando postei o tutorial para colocar pinos de alnico em singles cerâmicos, faltou explicar o processo num Humbucker, trocando a barra cerâmica/ferrite por uma de alnico. A barra de alnico custa por volta de 14 reais na captadores.com br. Geralmente o alnico II fica melhor em captadores mais fracos (até 8k), da posição do braço e o Alnico V na ponte, mas nada é definitivo aí.
Vamos lá: (Antes de tudo, deixo bem claro que, embora simples e rápido, esse é um procedimento que pode danificar o captador, pois existe a possibilidade de romper os finíssimos fios de cobre. Faça o processo com muita atenção e cuidado.)
Se o captador tiver a capa de metal, ela geralmente é soldada. Use um ferro de solda (mínimo de 40 watts nesse caso) para soltá-la.
Lembre-se que a maioria dos captadores são parafinados - é comum desprender alguns pedaços de parafina. A barra cerâmica raramente é colada, mas pode estar levemente presa pela parafina, portanto, pode ser necessário usar a ponta de uma chave de fenda como alavanca para desprendê-la. Sempre com muito cuidado para não romper os fios.
1). Inicie retirando os 4 pequenos parafusos que prendem as bobinas à placa de base:
2) - Vire a tampa da base com cuidado para expor a parte de baixo das bobinas e a barra de imã cerâmico:
Atenção para a região circulada - é onde estão as sensíveis ligações. Nunca estique ou puxe essa parte. Apenas afaste-a para o lado e no final recoloque-a no lugar.
3): Antes de retirar a barra, coloque uma bússola uns 3-5 cm sobre ela (ex: posicione o norte para os parafusos), veja para que lado a bússola aponta e anote. Retire com cuidado a barra cerâmica e coloque a barra de alnico no lugar dela, seguindo a mesma orientação da bússola.
Por último, é só recolocar os parafusos de fixação.
Não adianta muito colocar barra de alnico em captadores de alta saída, mais de 15k, por exemplo, pois o som pode até piorar, soando mais abafado. Em captadores de até 9k, vale a tentativa - o timbre deve ficar mais macio e dinâmico. Assim como nos singles, dificilmente a troca de imãs irá transformar um captador ruim num bom, mas pode melhorar bastante sua sonoridade.
Em relação aos posts (links no final) sobre a Tagima e os decorrentes contatos com o luthier Fábio Seiji, devo esclarecer:
Os comentários do Sr. Fábio Seiji são plenamente válidos, têm respaldo técnico e foram considerados por mim em relação às informações iniciais.
Em nenhum momento questionei ou tive a intenção de denegrir o profissional em questão. Suas intervenções técnicas não deveriam ser questionadas. Pelo contrário, foram cruciais para guiar meus posts posteriores. Desde então, tenho limitado mais ainda informações específicas de luthieria sem forte embasamento.
Quando mencionei que estava "questionando minhas motivações" em relação ao blog foi porque após o debate no fórum cifraclub, num primeiro momento não aceitei as críticas e por isso achei que tal stress não seria condizente com a proposta do blog, até então para mim instrumento de lazer e exercício de informações.
Enquanto no âmbito pessoal, de foro íntimo, tenha desgostado da forma como as colocações foram feitas, não posso de maneira alguma contestar o conteúdo das mesmas, que, repito, foi elaborado por um profissional do mais alto gabarito, o Sr. Fábio Seiji.
Se, de alguma maneira, a imagem profissional do Sr. Fábio Seiji foi questionada nesse blog, o foi de forma absolutamente involuntária e paradoxal.
(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)
Aviso aos incautos: O post que segue é extremamente básico e didático. É baseado no mesmo que postei no fórum da GP. Achei interessante colocá-lo no blog, mas admito que não tenho formação técnica ideal para vários conceitos aqui explicados. Na falta de um texto similar em português (se alguém achar um, me avise :) ), espero que esse ajude.
1 - O QUE É UM CAPTADOR DE GUITARRA?
Artefato formado basicamente por imã e fios de cobre (enrolados geralmente em uma bobina), de propriedades eletromagnéticas cuja função é transformar o som proveniente das vibrações das cordas e das madeiras em um sinal elétrico que possa ser amplificado.
Por uma lei da física, se um campo magnético que está envolto em uma bobina formada por fio de metal (cobre) enrolado (centenas a milhares de voltas) sofrer flutuação (a vibração da corda de metal da guitarra modifica o campo magnético), ocorrerá formação/indução de uma carga elétrica pelo fio da bobina.
Um exemplo prático: imagino que todos conheçam o famoso "dínamo" de bicicleta. Ele tem essa estrutura:
Quando o pneu gira, ele promove a rotação do imã dentro da bobina, que induz uma carga elétrica no fio de cobre enrolado em volta dele. Essa carga vai alimentar a lâmpada... Simples!
Mais simples ainda é essa experiência: o cara enrolou (cerca de 500 voltas) um fio de cobre e, ao girar um imã em volta dele, há indução elétrica (milésimos de volt), como podemos abservar no multímetro:
Ele poderia colocar o imã parado dentro do anel de fio de cobre e movimentar algum objeto metálico próximo ao imã. Também geraria uma corrente e esse é o princípio exato da relação captador/corda da guitarra.
Veja:
Depois a gente entra em detalhes sobre as diferenças entre single coil e humbucker, mas a imagem seguinte é pra percebermos as diferenças de estrutura e relação de posição entre imã e bobina: nos singles os magnetos são os próprios pinos e nos humbuckers é uma barra na base, que encosta e transfere o magnetismo para os parafusos.
A carga elétrica gerada é pequena, de 100 milivolts até mais de 1 volt nos captadores mais potentes, mas suficiente para ser interpretada e amplificada.
Um detalhe importantíssimo é que o fio de cobre não pode encostar nele mesmo - a corrente elétrica só é gerada se correr livremente AO LONGO do fio. Então, ele recebe uma cobertura/capa isolante. Quanto mais eficiente essa "capa" em termos de isolamento, volume, elasticidade e resistência ao calor, melhor.
Atualmente (na verdade, desde os anos 60) usamos uma camada de poliuretano (polysol), que é bem fina e transparente. A cor visualizada é a do cobre mesmo. Obs: fios de cobre com revestimento isolante são feitos basicamente para a indústria de transformadores. Captadores utilizam uma ínfima parte desse volume. O Polysol é um fio mais eficiente pelos padrões atuais de indústria de transformadores, mas pior quando usado em captadores. Justamente pela sua eficiência na condutividade e isolamento, ele tem uma certa aspereza, um brilho excessivo nos agudos.
Como as madeiras foram piorando com o passar dos anos, perdendo ressonância e brilho (basswood, por exemplo), e os captadores foram ficando mais potentes (perdendo agudos, portanto) ele acaba sendo útil e em alguns casos (captadores de alto ganho), ideal. Mas coloque-o numa strato com madeiras superiores, em busca de um timbre vintage autêntico, ele vai incomodar nos agudos. É sutil, mas perceptível.
Até os anos 50, usava-se muito o "ENAMEL" (fio esmaltado) que é um tipo de esmalte e deixava o fio com a cor entre marrom escuro e púrpura. Também o FORMVAR (fio fica dourado/amarelado), que seria um meio termo de modernidade entre o enamel e o polysol.
Existe sim diferença de timbre entre os tipos de isolamento, com o polysol tendendo a sobrar nos agudos. Mas é assunto pra adiante.
Vários fabricantes de captadores utilizam tanto o Enamel (geralmente para humbucker, P90, Telecaster e Texas Special) quanto o Formvar (single coils típicos de strato) para seus modelos "vintage". O Seymour Duncan utiliza Enamel na maioria dos humbuckers estilo vintage.
Eletricidade e magnetismo estão à nossa volta o tempo todo mas nosso cérebro insiste em processá-los (ou mesmo ignorá-los) subjetivamente, dificultando a compreensão porque não os enxergamos... :)
2 - PROPRIEDADES ELETROMAGNÉTICAS DOS CAPTADORES
Resistência, Indutância, Capacitância, Frequência de Ressonância, Fator “Q”.
Esses conceitos são difíceis de compreender plenamente, mas vou tentar simplificar (sem agredir a física... :) ). ------------------------------------------------------------------------------------------ Adendo: relendo todo o texto, percebi que é difícil, num primeiro momento, extrapolar as propriedades eletromagnéticas para a nossa visão leiga e "sonora" do captador. Então, mesmo correndo o risco de ser execrado por algum físico ou engenheiro eletricista, vamos nos guiar pelo seguinte:
a) Resistência e principalmente Indutância estão relacionados com a potência/volume do captador. Quanto mais elevados mais sinal é enviado para o amplificador. Não podemos esquecer que quanto maiores, geralmente teremos mais médios e menos agudos. Lembre-se: o aumento isolado da resistência (só enrolando mais fio) não vai aumentar tanto a potência e vai tirar muito agudo. b) Capacitância: vamos relacioná-la como responsável pela diminuição/atenuação de agudos do captador c) Frequência de Ressonância: define se o captador tem mais ou menos agudos, se é mais ou menos brilhante. Quanto maior, mas agudo é o captador. d) Fator "Q": a combinação dos valores acima deve ter um certo equilíbrio, por exemplo, não podemos enrolar muito fio e usar um imã fraco. O som vai ficar muito ruim e/ou estranho. O fator Q é o resultado de uma fórmula que mostra se os outros valores estão equilibrados entre si.
Então, pelo descrito acima, um captador com muita resistência, baixa/média indutância, alta capacitância e pico de ressonância de 4k (use de referência um captador Fender de strato, que está por volta de pelo menos 8-9k de ressonância) será com certeza um captador mais potente, porém "abafado" e desequilibrado. O fator Q dele certamente não estaria na faixa considerada ideal.
Importante: A força magnética (tipo, forma e volume do imã) também influencia no volume e é diretamente proporcional.
Antes, é importante ressaltar que essas propriedades sempre atuam em conjunto para o timbre final. Nunca devemos usar um valor isoladamente para “ler” o captador.
Resistência (expressa em Ohms): “Oposição à passagem da corrente elétrica relacionada com o comprimento e diâmetro do fio de cobre”. Ou seja, quanto mais longo e, surpresa,mais fino, maior a resistência. A resistência e a indutância geralmente indicam (existem outros fatores) a potência (volume) do captador. Os fios de cobre usados têm o diâmetro padronizado (AWG: American Wire Gauge) de 42 ou 43 AWG, raramente outro valor. Quanto maior o AWG, mais fino, quanto mais fino, mais resistência. Então, 1.000 voltas (espiras) de fio 43AWG terá mais resistência (e mais potência) do que 1.000 de 42AWG. Mas quanto mais alta a resistência, maior a perda de agudos.
Indutância (expressa em Henries): “A capacidade de uma bobina em criar o fluxo com determinada corrente que a percorre é denominada Indutância (símbolo L) medida em "henry" cujo símbolo é H.” Essa é difícil... :) Seria mais ou menos a “força bruta” do captador. A corrente elétrica gerada e correndo pela bobina cria também um campo magnético, que se opõe ao do imã. Mas ambos não se anulam, e sim geram ainda mais força. Pense assim: a corrente elétrica da bobina , devido à presença de metal no seu centro (o metal do próprio imã e dos parafusos no caso dos humbuckers) cria um campo eletromagnético que por sua vez interage com o campo magnético do próprio imã. Isso gera força bruta... Dá pra perceber a importância do imã - não só pelo seu magnetismo, mas pelo seu tamanho e estrutura metálica também.
Captadores geralmente têm indutâncias entre 2.5 a 10 Henries. Geralmente, quanto mais voltas do fio, maior a resistência E indutância, mas essa em menor grau, pois a indutância depende também da quantidade de metal e força do imã. Ou seja, se elevarmos a resistência aumentando o número de voltas do fio, teremos que aumentar a força magnética e geralmente a quantidade de metal no seu núcleo para haver um equilíbrio.
Então, pra gente não se perder, se eu pegar um single coil típico de strato com 6 k ohms de resistência (entre 7.500 – 8.000 voltas/espiras) e 2,4 henries, deverei “ler” da seguinte forma: os 6K estão diretamente relacionados às voltas e espessura do fio e é a resistência pura. Os 2,4 henries estão relacionados às voltas e espessura do fio e TAMBÉM à força dos pinos de imãs e quantidade total de metal (ppte dos pinos). Exercitando:
1 - Se eu aumentar o número de voltas/espiras apenas, terei um pequeno acréscimo de volume/ganho (pelo aumento da resistência e pequeno da indutância) mas começo a diminuir a resposta de agudos.
2 - Se eu aumentar o número de voltas/espiras mas diminuir a força e/ou o tamanho dos imãs, vou mudar muito o som do captador mas ele terá quase a mesma potência/volume.
3 - Entretanto, se eu aumentar as espiras E a força ou o tamanho do imã, aumentarei de fato a potência (e também a sonoridade) e força do captador.
Esses exemplos são apenas pra citar as possibilidades de tunagem do timbre. Cada pequena mudança gera uma sonoridade diferente. Obviamente já deu pra compreender que não se aumenta a potência de um captador apenas enrolando mais fio – vai chegar num ponto que ele ficará extremamente agressivo nos médios, pálido de agudos e com pouca dinâmica.
Se estiveres lendo atentamente, podes pensar: e se fosse um Humbucker? Sou metaleiro e quero muita potência pra estourar o input do meu amp! Eu não poderia trocar o fio 42AWG por um 43 AWG, que é mais fino (cabem mais voltas nas bobinas) e tem mais resistência, aumentar as espiras e jogar a resistência para acima de 13K e trocar essa barra de AlNiCo fraquinha por uma barra de imã cerâmico/ferrite para aumentar também a indutância? Ele teria o dobro da potência de um PAF! Esse captador ficaria super power e o amp distorceria mais.... :)
...Pois foi exatamente essa a idéia do Larry DiMarzio quando criou em 1972 o lendário captador “Super Distortion”, que mudou pra sempre o conceito de captadores. Aqui está o monstro que matou o PAF - DiMarzio Super Distortion (DP 100). Cerca de 13k DC de resistência, fio polysol, imã cerâmico:
Capacitância (expressa em Farad ou Faradays): “Capacidade de um corpo de reter carga elétrica”. O nome já sugere tudo: metais absorvem/roubam/desviam eletricidade. E quando um sinal elétrico como o do captador, que está traduzindo um som, é desviado, as frequências mais altas/agudas vão primeiro...
O fio de cobre é um metal? Sim. Ele induz sua própria capacitância. Idem para o metal do imã. Idem para os parafusos, capinha, base plate. Até o material usado para a blindagem pode induzir capacitância e modificar os agudos e o timbre final da guitarra. Quando o Seth Lover quis usar a capa no humbucker para blindá-lo de ruídos externos, ele logo percebeu que ao colocar uma capa rica em cobre houve degradação dos agudos. Idem para as com acabamento dourado. Alumínio? Pouca capacitância mas alumínio (da época) não segurava solda... Optou finalmente por uma capa de níquel e zinco (Níckel Silver ou Prata Alemã ou a nossa “Alpaca”).
Já deves ter pensado: Por isso que quando aumentamos as espiras/resistência do fio de cobre, perdemos agudos... Sim, uma das razões é essa: mais fio, mais resistência, mas também MAIS CAPACITÂNCIA (e menos agudos)... :)
Frequência (pico) de Ressonância (expressa em Hertz): É a "impressão digital sonora" de um captador. A frequência dominante, a partir da qual ele reproduz as outras. O pico de ressonância revela mais de um captador do que sua resistência ou indutância.
Se um engenheiro elétrico analisar um captador ele dirá: “Os elementos ativos (bobina com fio de cobre + magneto(s)) formam um circuito elétrico que apresenta um indutor e um capacitor ligados em paralelo com um resistor em série... Isso é semelhante ao “tuner” dos rádios e cria uma frequência dominante que varia conforme os valores acima”.
Traduzindo, a combinação da resistência, indutância e capacitância gera uma frequência, que geralmente está entre 1 e 10 kHz. Quanto mais alta, mais agudo o captador (mas não necessariamente mais “limpo”). Singles têm pico de ressonância entre 5 e 9 kHz geralmente. Humbuckers, de 3 a 7 kHz.
Outro exercício: já sabemos que aumentando o número de espiras, aumentamos a resistência mas diminuimos os agudos. Portanto, quanto mais fio vamos colocando mais baixo (menos agudo) vai se posicionar o pico de ressonância.
Fator “Q”: Fator de qualidade/eficiência do captador. É uma medida criada pelos engenheiros e baseada numa fórmula que analisa a relação Resistência e Indutância numa frequência pré-determinada (geralmente 1 kHz). Um "Q Factor" muito alto ou baixo sugere um captador desequilibrado e provavelmente ruim, ou no mínimo, estranho. A maioria dos captadores têm “Q” entre 2 e 3,5.
Agora olhe para um humbucker e veja quantas coisas podem interferir e determinar sua sonoridade:
Por enquanto é isso... Essa é uma parte relativamente chata e teórica, mas depois que a gente absorve e começa a exercitar esses conceitos básicos, fica muito mais fácil “ler” um captador.
Observe nesse link: Fórum GP Brasil (clique) a maneira como o Oscar Isaka Jr. "lê" os captadores: ele está sempre considerando o pico de ressonância (além da estrutura de single com pinos de alnico V, etc.) e não apenas a resistência. Não é um método infalível, mas com certeza nos dá informações bem próximas da realidade sonora do captador.
Volto a dizer: todas essas propriedades, atuando em conjunto, é que determinam o som final de um captador, sua personalidade. Mude o tamanho de um simples parafuso e o que acontece? De cara, diminui a quantidade de metal, alterando a capacitância e indutância. Isso sem falar no campo magnético dos imãs (próximo capítulo)... Podes ter certeza que o timbre vai mudar... Ouvidos e mente atentos! :)
PS: com essas noções, já dá pra avaliar o "Tone Chart" do Seymour Duncan com mais propriedade... :)
Já no site do Sérgio Rosar são fornecidas a Resistência, Indutância e o tipo de imã. Falta o pico de ressonância, mas dá pra ter uma boa idéia...
Devido à queda nas vendas, no final de 1960 a Gibson decidiu não produzir mais o modelo Les Paul. Criou a SG, uma guitarra mais simples e fácil de construir, para substituí-la. Em meados dos anos 60, o inglês Eric Clapton (ppte no disco "Beano" dos Bluesbrakers) chamou novamente a atenção para ela e a Gibson reiniciou a produção em 68 (inicialmente igual à original, mas que foi piorando/degenerando com o tempo). Porém, antes que todo mundo percebesse, Jimi Hendrix apareceu com uma Stratocaster e a LP voltou para o limbo.
A década de 80 nasceu marcada por um guitarrista - Eddie Van Halen e uma guitarra - a Frankenstein. Todos e todas queriam ser como eles, e marcas como Ibanez, Kramer, Jackson estavam batendo feio na Gibson e Fender.
Mas o destino ainda tinha uma carta na manga para a Les Paul em 1987: Slash e o disco "Apettite For Destruction" do Guns n' Roses!
Era impossível ignorar aquela fantástica e reluzente Les Paul sunburst nos clipes da banda. De uma hora para outra, todo mundo queria uma guitarra igual a do Slash.
No headstock havia um "Gibson" e ela claramente era idêntica a uma original de 1959. Então, Slash e sua Les Paul sunburst 1959 iniciaram o renascimento dessa obra de arte. De uma hora para outra, as LP com acabamento sunburst (58, 59 e 60) quadruplicaram de preço. Em 1983 toquei numa 58 que valia cerca de 4.000 dólares (no Brasil). Depois de 1990, não se comprava uma dessas por menos de US$ 20.000.
A Gibson deve muito ao Slash e certamente na época foi uma das primeiras a perceber que aquela "59 Burst" era na verdade, uma cópia. Segundo consta nos livros, Slash não estava satisfeito com suas guitarras durante a gravação e o manager Alan Niven conseguiu uma réplica da 59 do Joe Perry feita pelo luthier (e cabeleleiro e fissurado por carros) Robert Kristin Derrig (1954-1987):
Os captadores eram Seymour Duncan Alnico II e foram usados por Kris porque eram os únicos disponíveis no momento na LA MusicWorks, onde ele trabalhava (e morava num trailler no estacionamento).
Antes dessa, Slash teve outra réplica, a "Hunter Burst", feita pelo não menos famoso, controverso e ainda vivo Peter "Max" Baranet (numa foto mais recente, com Slash):
Essa questão "underground" das réplicas das burst é destrinchada no livro "Million Dollar Les Paul". Hoje em dia com Les Pauls 59 valendo até mais de US$ 500.000, falsificar essas guitarras virou um grande negócio.
Mas a verdade é que a Les Paul 59 que trouxe a Gibson de volta para o centro do palco era, ironicamente, uma réplica. Até hoje, Slash só grava com ela:
A Gibson tentou várias vezes criar uma "Slash Signature" mas, orgulhosa como sempre, só no ano passado decidiu fazer uma "réplica da réplica" e lançou a LP "Apettite". É pra rir mesmo... :)
E Slash era chegado numa réplica. Aqui as suas 3 principais. Da esquerda para direita: Derrig 59 (adquirida em 1996 - braço trocado) Derrig 9 0607 (a do disco AFD) e uma 1960 MAX (Baranet)
Kris Derrig faleceu em 1987 (aparentemente, de leucemia) e não pode aproveitar a fama. Ele era fã dos Allman Brothers e em especial da "tobacco burst" do Duane. Suas réplicas foram todas baseadas na tobacco burst 59 do Joe Perry, que ele teve contato.
Por falar nela, Joe Perry a vendeu baratinho no início dos anos 80 porque estava falido. Ela passou por vários guitarristas, inclusive Eric Jonhson. Slash comprou-a no final dos anos 80 e acabou devolvendo-a para Joe.
Achei esse post (The Les Paul Forum) de um cara que já possuiu a guitarra. Muito interessante:
"Joe bought 9 0663 at George Gruhns in the mid 70's. Aerosmith sound engineer Nitebob and guitar tech Neil Thompson were with him at the time. I think Joe paid about $2,000.00 for it. I bought it off NMCINC at his shop in '81. Neil was repairing at NMCINC's shop and he told me that the wear mark was there before Joe had it. Nitebob, who I met a few years later at a session I was playing on that he was producing, told me the same thing. The wear mark was already there. BTW, I had the guitar with me at the session. Joe and his wife Billy came to a gig of my bands, and again I had the guitar, "yeah my rings did that". A little Billy Gibbons/show biz reality stretch. That mark looked many years old! It took a lot longer to make that than the time 4-5 years Joe had it. I was trying to sell it and I offered it back to him for the same amount ($4300) as I paid. But he wasn't interested and Aerosmiths big comeback hadn't happened yet, so money was still tight. I sold it in March of '87 in a trade deal. It took me 2.5 years to get rid of it. Within a week it had passed thru 2 dealers into Eric Johnsons possession thru Alan Wills. It was sold a short time after that because Eric didn't like it. Forum member Mr. Beano ended up with it for a few years. After MrBeano sold it, it went to Slash and finally full circle back to Joe."
Vou colocar a foto da Joe Perry 59 (do livro "The Beauty Of The Burst") só pra gente ver uma de verdade... :)
O assunto é muito amplo e o submundo das réplicas mais ainda. Recomendo o livro "Million Dollar Les Paul" e a própria internet para quem deseja aprofundar-se.
PS: Parece que o Slash não gosta de falar muito sobre sua Derrig 87/59, mas aqui ele entrega o jogo:
Eu sabia! :)
Quando conheci o Oscar Isaka Júnior, em pouco tempo percebi que havia finalmente encontrado alguém mais fanático por guitarras e afins do que eu! Hahahá!
Além de ser um cara excepcional, ele tem excelente bom gosto para timbres. Refinado, amplo e criterioso.
Quando o Sérgio Rosar se dispôs a desenvolver um single baseado no Fender Custom Shop 54 e um humbucker tipo "PAF", baseado no Jim Rolph 58, não tive dúvidas: o Júnior era o cara ideal para fazer um double check nos testes.
Juntos, desenvolvemos com o Sérgio os single "Fullerton" e os humbuckers "Mojo".
Em breve postarei toda essa história, mas o post agora é pra anunciar que o Jr., de tanto lidar com captadores, resolveu criar uma loja virtual, preenchendo um vácuo no mercado brasileiro:
A JR Guitar Parts (clique no logo para uma visita):
A princípio, a JR Guitar Parts venderá apenas captadores Sérgio Rosar (terá exclusividade esse ano nos Fullertons e Mojos) e geralmente a preços mais acessíveis que os de loja. Com o tempo, outros fabricantes e peças e componentes de guitarra.
Quando o Jr. me falou que pretendia montar essa loja virtual, achei que ele ia acabar incomodando-se, mas eu é que tenho aversão a negócios... :) Afinal, vai trabalhar com o que gosta e tem paixão - nada mais divertido e compensador!
O Jr. sabe tudo e mais um pouco sobre captadores (os Rosar, então, nem se fala): quais, como e em qual guitarra usar, estilos, variações, comparações... Enfim, até agora nenhuma loja fornecia tal qualidade de suporte e informação.
O site entrou no ar essa semana e ainda está parcialmente em construção. Detalhes mais específicos dos captadores, demos, etc. virão em breve.
"Por absoluta falta de tempo e dificuldades para administrar de forma produtiva a loja virtual, a JR Guitar Parts encerrou suas atividades no segundo trimestre de 2013".
Essa é a minha Cort KX Custom, excelente guitarra da Cort, de mogno com top (escavado) de maple, braço colado de maple, captadores Seymour Duncan JB/59, tarraxas com trava, ponte Tone Pros, enfim, uma guitarra com specs que me chamaram a atenção quando estava procurando uma com madeiras próximas da Les Paul. Comprei-a no início de 2009, por pouco menos de 2.000 reais.
Especificações direto do site da Cort:
CONSTRUCTION: Set-in
BODY: Mahogany with flame maple veneer & solid maple top
NECK: Maple, 3pc Modern "C" Shape
BINDING: Natural
FRETBOARD: Rosewood, 12" Radius(305mm)
FRETS: 24 / Large (2.7mm)
SCALE: 25 1/2" (648mm)
INLAY: V shape grey pearl
TUNERS: Locking
BRIDGE: Tone Pros Lic. Locking bridge (CAVR) with string-through body
PICKUPS: Seymour Duncan SH1('59) & SH4(JB) (H-H)
ELECTRONICS: 1 volume, 1 tone (w/push pull), 3way toggle
Pra quem tá curioso com o som original dela (com os Seymour) seguem dois vídeos que selecionei do you tube, um blues com o 59 e um solo com o JB:
De 1978 até 2008, 30 anos portanto, evitei as Les Paul - provavelmente porque as que eu ouvi nos anos 80 e 90 não me impressionaram. Mas foi só começar a estudar e pesquisar (e ouvir) mais atentamente pra perceber que a Les Paul é... Bem, essencial! :)
Tinha uma certa bronca com o braço gordo e o timbre do captador do braço, mas eram impressões primárias que não foram bem avaliadas. De fato, a arrogância, presunção, além do fabuloso timbre das minhas Telecaster me cegaram para essa divindade.
Novamente, a minha presunção me fez supor que eu não precisaria gastar tanto para comprar uma original e que uma guitarra com construção semelhante teria um timbre semelhante. Além disso, ainda estava evitando o braço da LP. Assim, caí nessa Cort depois de pesquisar várias guitarras. Era a mais óbvia, dentro daquele raciocínio obtuso da época...
Porém, desde a primeira nota que toquei nela, senti falta de alguma coisa. Subjetivo isso, mas basicamente ela sempre me soou algo "sem vida". Troquei várias vezes de captadores (tentei até a dupla EMG 81/85), mas a sensação persistia. Comecei a achar que era baixa ressonância e o "string-through body", paradoxalmente estava bloqueando. Nesse momento, deveria tê-la vendido, mas sou péssimo negociante e a minha curiosidade falou mais alto. O luthier Inaldo colocou uma ponte "wraparound" (sim, tive que mudar os furos dos pivôs). Ela ficou mais clara, um pouco mais dinâmica, mas à essa altura eu já estava com a minha fabulosa Les Paul 81 com os captadores Rolph e Tim Shaw e a Cort, mesmo soando melhor do que antes, não chegava nem perto da LP (claro que testei os Rolph nela, mas a diferença da qualidade do timbre persistiu).
Recentemente encontrei os captadores ideais para ela: Rosar Hot Mojo na ponte e Heartbreaker II no braço. Por coincidência, são versões mais vivas e dinâmicas que a dupla JB/59.
O problema é que, se a vocação dela é pra soar próxima de uma Les Paul, ainda falta um bocado. Se ao menos soasse "diferente", mas não, ela insiste em ser uma LP... :)
Resultado, é uma guitarra excelente, timbre muito bonito (agora), braço extremamente confortável pra mim, mas eu nunca toco com ela. Sempre pego a Les Paul... :)
É provavelmente a minha guitarra menos tocada e mais mexida.
Mas a razão desse post não é pra me lamentar. É pra saber se me arrisco a "cometer" o que anda pela minha cabeça: retirar todo o verniz dela!! Deixá-la peladinha, com as madeiras respirando. Não acredito que isso vá mudar tanto o timbre, mas pode dar aquele empurrãozinho que falta.
Retirar verniz é um trabalho sujo (uso a técnica de remoção química) e jurei que não faria mais, mas estou sinceramente tentado... :)
Até porque quero checar de perto esse "mogno". No RX (abaixo), dá pra ver as duas emendas do top de maple e, me parece, apenas uma emenda do mogno (a linha horizontal mais superior).
Também quero checar aquela "folha" de flamed maple do top. Talvez até retirá-la, ou tingi-la de outra cor. Deixar a guitarra meio "punk" - quem sabe ela tá é precisando de uma sacudida :)
Já que fui até aqui, e pelo jeito não vou vender essa Cort, talvez arrisque. Tudo pelo conhecimento! Hahahá! :)
Então, fazer ou não fazer, eis a questão... O que vocês acham?
Versátil? Moderna? Bons timbres? Sim pra tudo, mas ainda falta aquela coisinha... :)
___________________________________________
UPDATE 08-08-2011
Eis a KX Custom "peladinha" :)
Bem, depois de uma aventura que decididamente não vou repetir, retirei todo o verniz e pintura (e folha de maple) da KX. Já havia retirado com sucesso o verniz de outras duas guitarras com um removedor químico em pasta. No máximo duas passadas, limpeza e um pouco de lixa no final e tudo beleza, mas nessa aqui não foi bem assim. O verniz inicial até que saiu bem, mas parei quando percebi que não conseguiria retirar a cola folha de maple - teria que lixar (um bocado) e no apartamento, já vi que só lixação leve :) Além disso, havia uma camada extra de resina na parte posterior, do mogno, bem estranha. Graças a deus existem os luthiers nessas horas, hehehe... Enviei para o luthier Inaldo e ele me entregou a KX sem nenhum resquício de resina/PU ou o que quer que fosse aquilo. Ainda por cima, fez um belo top de pinus para o headstock (havia uma placa de plástico e ao retirá-la, ele ficou fino demais). Ele passou apenas um leve camada de nitrocelulose e assim vai ficar. A idéia era essa mesmo: deixar "na madeira" pra ver se o timbre mudava.
Retiramos por volta de 430 gramas (quase meio quilo!!!) de substâncias químicas... :)
Aqui, a etapa inicial:
Na foto de baixo, dá a impressão que já saiu todo o verniz de PU, pois o mogno aparece. Mas ainda havia mais uma camada - e bem grossa - de resina.
Aqui, a folha de maple (até achei que fosse uma folha de plástico, mas o Inaldo garantiu que era maple mesmo, bem fino). Parte se desprendeu, mas a que ficou, tava muito aderida ao top de maple.
O mais interessante é que a camada de maple era ainda mais grossa do que eu pensava. Eles usaram a tinta preta pra dar a impressão que tinha mais mogno, mas essa guitarra foi bem definida pelo meu amigo Oscar Isaka Jr.: "É uma guitarra de maple com base de mogno!" :)
Eu a comprei como uma guitarra com "corpo de mogno com top de maple", mas essa relação de madeiras está longe da Les Paul. Falta volume de mogno e é exatamente por isso o timbre característico: bonito, até que equilibrado, mas definitivamente com menos corpo, ressonância e "dinâmica" que uma LP.
Embora seja uma experiência subjetiva (nem tanto, porque eu tenho gravações de licks com e sem o verniz), eu diria que houve uma melhora perceptível na qualidade do timbre, mas pequena, no máximo 25%. Ela está falando um pouco mais "alto" e não me parece tão comprimida quanto antes, mas suas frequências básicas permanecem. Mesmo com um Rosar Mojo 13 no braço, ainda falta estalo (se bem que a posição do captador do braço nessa KX não é a ideal e é uma característica estrutural, por isso não gosto do som de humbuckers de braço em guitarras de 24 trastes...). Mas o Rosar Heartbreaker II na ponte tá tão bom que já vale todo o trabalho.
Pois vejam bem - como falei antes, essa guitarra foi seguidamente modificada, com inúmeras trocas de captadores, etc., porque eu não ouvia realmente uma guitarra de MOGNO + MAPLE nela. Se não tivesse retirado o verniz e descoberto que a camada de maple era tão grossa, alterando a relação mogno/maple que eu imaginava, não aprenderia nada... Vejam a primeira foto dela no post - eu imaginei que o mogno fosse toda aquela parte preta. Não era...
Bem, é isso. Coloquei um "selinho" pra não ficar sem nada no headstock... :)
(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)
Inevitavelmente, quando começamos a entender como funciona uma guitarra, chega um momento em que olhamos para aquela pequena e geralmente colorida "coisinha" ligada no botão de tonalidade, o capacitor, e pensamos: "Bem, ele atua na tonalidade e quanto maior o seu valor, maior a diminuição dos agudos". Isso já bastaria para uma compreensão básica, mas quando vamos adiante e desejamos maior domínio sobre o timbre, somos obrigados a conhecê-lo mais profundamente.
Em linguagem de guitarrista, obrigatória nesse blog, o capacitor é basicamente um filtro de agudos. Observe que ele recebe o sinal/som do captador de um lado e no outro, ele está ligado ao terra. Assim, ele joga fora/deixa escapar (para o terra) apenas as frequências mais altas do sinal. Quanto maior o valor do capacitor, mais baixo é o seu ponto de corte de frequências, ou seja, maior a amplitude de frequências agudas que ele filtra.
O potenciômetro de tonalidade tem a função de controlar o quanto do sinal vai para o capacitor. No "10", ele não envia nada (teoricamente) e o capacitor não filtra nada (teoricamente), no "0", ele envia 100% do sinal e o capacitor desvia para o terra (joga fora, retira do sinal que vai para o jack de saída) todos os agudos a partir do seu ponto de corte. Mas não deixa o restante das frequências "escoarem" pelo terra. Essas permanecem intactas e seguem seu caminho pelo cabo até o amplificador.
Falei antes "teoricamente" porque alguns guitarristas (me incluo) afirmam que mesmo no "10" o conjunto potenciômetro + capacitor atua sobre o timbre. Há de fato uma diferença, com aumento dos agudos, quando deixamos a guitarra sem os controles de tonalidade.
O potenciômetro de volume tem uma ação parecida, também desviando para o "lixo" (terra) o sinal, na medida que vai sendo diminuído.
Então, antes de tudo, temos que estar cientes que o sistema de aterramento de uma guitarra não serve só para eliminar o ruído inerente das estruturas. Ele também é usado para "desviar/atenuar" o sinal do captador (pot de volume) ou frequências que são filtradas dele (pot de tonalidade + capacitor).
Em linguagem técnica, capacitor (ou condensador) é uma estrutura que armazena energia num campo elétrico, mas eu sou péssimo em física e o que me interessa de fato é que, acoplado a um pot de tonalidade, ele filtra agudos.
TIPOS DE CAPACITORES PARA GUITARRA
Existem vários tipos de capacitores, de estrutura e materiais distintos, mas todos basicamente com a mesma função.
Para guitarras, os capacitores mais comumente usados são:
Cerâmicos,
Poliéster (inclui Mylar),
Polipropileno,
PIO (paper in oil - à óleo).
Os famosos "Orange Drop" 715p são de polipropileno, os 225p são de Poliéster. Já os lendários "Bumble Bees" das Gibson vintage, são PIO (papel em óleo/á óleo). A maioria das guitarras chinesas tem capacitores de Poliéster (geralmente verdes ou azuis) e várias Gibson atuais usam capacitores Cerâmicos. As Fender geralmente têm capacitores de poliéster ou às vezes cerâmicos.
Com exceção de alguns PIO feitos exclusivamente para guitarras ( A Gibson vende uma reedição dos Bumble Bee por 113 dólares o par!!), capacitores são muito baratos, coisa de centavos às vezes.
Bumble Bees originais em bom estado chegam a custar até 500 dólares!
O tipo de material e o valor (capacitância) é que vão caracterizar um capacitor e a maneira como ele atua sobre o timbre. Os "PIO" são conhecidos por serem suaves e "musicais". Já os de poliéster costumam atuar de forma mais efetiva e rápida sobre os agudos, eles realmente "fecham" o timbre.
Os valores são importantíssimos. A medida de valor usada é "Farad - ou Faraday" e pra nós é geralmente confusa por causa da nomenclatura: micro/nano/pico faraday. O Farad é uma unidade muito alta para aplicações comuns. Usa-se então sub múltiplos. Geralmente a escala é "Microfaraday/ uF" e podemos usar essa regra (ex): 0.022uF = 22nF = 22.000pF (ou 22K, como às vezes aparece)
(Daqui pra frente, só usaremos microFarad/uF).
COMO SABER QUAL CAPACITOR USAR?
Captadores single coil do tipo Fender por sua natureza mais aguda, geralmente requerem capacitores de .047 uF (Leia: "ponto zero 47 microFarads" ou só "zero 47"), mas ultimamente a própria Fender padronizou em .022uF, provavelmente porque o gosto geral está mais para o agudo, sei lá. Eu prefiro .047 ou no mínimo .033 para strato e pelo menos .047 para Teles. Nos anos 50, o valor comum era bem mais alto: .100
Já os Humbuckers, naturalmente com menos agudos, pedem capacitores de menor valor, portanto, que filtram menos agudos. A Gibson costuma usar .022uF em ambos ou .022 no captador da ponte e .015 no captador do braço, às vezes .010. Cerâmicos na linha comum e PIO nas custom shop.
Particularmente, prefiro os capacitores à óleo/PIO para Tele, Les Paul/SG e eventualmente, Strato. Na Stratocaster, os Orange Drop costumam soar muito bem. Os capacitores à óleo e cera, muito usados nas décadas de 40 e 50, são raros hoje em dia, pois existem modelos mais eficientes. O problema é o timbre com agudos macios que às vezes só conseguimos com os PIO. Vá à caça. O Brasil já fabricou esses capacitores e ainda existem muitos por aí. Há alguns meses comprei uns 10 que estavam estocados há décadas em uma loja de eletrônica (marca Cherry, nacional). É o famoso "New Old Stock/NOS" ou "Estoque antigo, sem uso" :)
Vai que de repente tu achas um "Bumble Bee" perdido em algum rádio de válvula antigo :)
Bumble Bee
OUVINDO AS DIFERENÇAS
Aqui, um interessante vídeo onde o cara montou um sistema pra testar as diferenças entre os diversos tipos de material/capacitores (o valor de todos é o mesmo: .022uF). Tem que ouvir com atenção, mas dá pra perceber as diferenças de timbre entre eles, com certeza!
(adendo 05/2013) Outro teste muito legal:
Devo ter esquecido de alguma coisa... Depois eu reviso e acrescento se necessário.
Adendo 1: a voltagem do capacitor (a maioria suporta mais de 50 volts) é sua capacidade de suportar determinada carga elétrica. A maioria dos capacitores de guitarra são feitos geralmente para uso em amplificadores, que normalmente trabalham com altas voltagens.
Como a voltagem gerada pelos captadores é ínfima (coisa de milésimos de volt), a voltagem do capacitor não influencia em nada nesse caso.
Adendo 2: Por sugestão do Rogério vou colocar um link para uma calculadora de códigos de capacitores (é realmente muito difícil de entender aquela numeração).
É a página da Toni Eletrônica que tem a calculadora. Tentei inserir aqui no blog, mas aparentemente não posso colocar nada em Java. Segue o link (quando solicitado, abra-o em outra página ou aba): Calculadora de Capacitores
Adendo 3: No site do luthier Billy Penn há uma útil tabela de referência de valores: Tabela de Capacitores
Adendo 4: Os capacitores usados em guitarra não têm "polaridades", ou seja, tanto faz o lado que ligamos. Porém, num artigo de 2010 na revista Premier Guitar, o alemão Dirk Wacker jura que há uma diferença de sonoridade dependendo do lado que soldamos, ppte nas stratos e com os Orange Drop. No seu blog, o Oscar Isaka Jr. fez a "contraprova" e postou as demos mostrando que de fato há uma diferença. Siga o link: http://jrguitarblog.blogspot.com/2011/11/mais-sobre-capacitores-de-tone.html