quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Fender "Made In Japan" - a história...

       Nos meus antigos tempos de banda... :), eu tocava com as minhas Telecaster 1968 e Custom 1974, feliz da vida, achando que todas as guitarras tinham a mesma qualidade. Meu primo era o segundo guitarrista e em 1984 ele comprou uma Fender Stratocaster americana 1983 novinha.
Por incrível que pareça, sempre achei o som dela muito ruim  (talvez por isso só tenha decidido ter uma strato em 2004) e ela tinha duas peculiaridades que me deixaram curioso por anos: o "jack" de saída (onde ligamos o cabo) era colocado direto no escudo, sem aquela "canoa" de metal típica. A ponte era flutuante, mas não existia a abertura na parte de trás! Além disso, o braço de maple era muito grosso, bem inferior em qualidade e acabamento que os braços das minhas teles.
Veja uma dessas stratos made in USA de 1983:


Agora, depois de vários livros e artigos sobre a história da Fender, aprendi que 1983 foi um ano particularmente "negro" para as guitarras Fender. A CBS exigiu corte dos custos de produção e a saída foi essa strato aberrante, com uma ponte estranha, o "Freeflyte" tremolo:



Não é nem questão de funcionalidade do tremolo, mas a ausência de um bloco de inércia e a grande proximidade das molas e do prendedor delas (tremolo claw) dos captadores com certeza modifica o som deles. Quanto mais metal perto dos ímãs e bobinas de um captador, maior a indutância, que pode até elevar um pouco o nível de saída, mas abaixa a frequência de ressonância, ou seja, diminui os agudos. Duvido que eles tenham criado captadores especiais para compensar esse efeito...
Como se não bastasse, alguém da CBS veio com a brilhante idéia de "modernizar" as cores. Que tal essa strato made in USA 1983, com ponte freeflyte e pintura estilo mármore?


E tem gente que vende essas stratos como "raridades". Um dos truques usados é chamá-las de guitarras da "Era Dan Smith". Não quer dizer nada e imagino que o próprio Dan Smith não ficou satisfeito.

Bem vamos ver então o que aconteceu na Fender nesse período de 1981-1985, onde foi criada a "Fender Japan" e a CBS acabou vendendo a marca Fender para os seus próprios funcionários.
Cronologicamente:

1 - Anos 70: Gibson e Fender nas mãos de inescrupulosos capitalistas (Norlin e CBS, respectivamente) têm ambas uma grande queda na qualidade de seus produtos (mas não de preços).
Paralelamente, os japoneses (Tokai, Greco, etc.) evoluem em suas cópias e no início dos anos 80 o dólar valoriza-se demais. Prejuízo das americanas e queda da exportação.

2 - Em 81 a CBS contrata Bill Shultz e Dan Smith para administrarem a Fender, ambos ex-funcionários da Yamaha. A solução frente à competição japonesa e ao câmbio desfavorável foi criar a "Fender Japan" (março de 1982) com os 2 maiores distribuidores de lá (Yamano e Kanda Shokai). A empresa recém criada contratou a Fuji Gen-Gakki (IBANEZ) para fabricar as Fender. Com o dólar alto, a exportação era inviável - a idéia então era usar o Japão como exportador (exceto para os EUA - volto a esse detalhe depois). Nesse meio tempo, a Fender iniciou um processo de "volta às origens", para melhorar a qualidade de suas guitarras. Chegaram ao absurdo de comprar guitarras e baixos Fender vintage para reaprender o processo (gastaram US$ 5.600 para comprar um Precision Bass 1957, um Jazz Bass 1960 e uma Stratocaster 1961).



Quando chegaram aos EUA as primeiras guitarras Fender japonesas (as strato eram baseadas nas 57), segundo palavras do próprio Dan Smith, o pessoal da Fender quase chorou. A qualidade era excepcional. Tudo o que eles estavam tentando fazer estava ali na frente deles e... vinha do Japão! :)

Veja um exemplo da guitarra que impressionou a própria Fender:





3 - Então, a situação era essa: Fender USA continuava produzindo para os EUA e a Fender Japan para o resto do mundo (todas feitas pela mesma fábrica da Ibanez e com o "Made In Japan"). Mas mesmo nos EUA, o custo era alto e a CBS exigiu cortes, gerando guitarras muito ruins nesse período. As piores Fender USA jamais feitas são dessa época, ppte 1983. A CBS resolveu competir com os japoneses que estavam entrando com força nos EUA e passou a vender as Fender japonesas lá também, mas com a marca "Fender Squier" e headstock estilo anos 70, para não haver competição entre eles mesmos.
(Observe que, essas primeiras Squiers vendidas exclusivamente nos EUA e com headstock estilo anos 70 ainda eram guitarras muito boas - e geralmente o selo "Squier" era pequeno e o "Fender" grande - , diferente das Squier que em seguida passaram a ser exportadas para o resto do mundo)

4 - Em novembro de 1984 (em 1986 a Norlin também vendeu a Gibson), um grupo de investidores liderados por Bill Schultz comprou a Fender da CBS. Na verdade, comprou a marca "Fender", já que a fábrica não estava incluida. Sem fábrica nos EUA, a Fender passou a depender inteiramente da produção japonesa.

Entre o final de 1984 até meados de 1986, 80% das Fender vendidas nos EUA vinham do japão.
Convém observar que, a partir de 1984, com a necessidade do aumento da produção japonesa para suprir o mercado dos EUA e resto do mundo, houve uma certa queda da qualidade e grande parte das guitarras japonesas para "exportação" tinha corpo de basswood (atenção) e acabamento em poliuretano.

ATENÇÃO: "Nenhuma Fender foi produzida nos EUA entre janeiro e outubro de 1985".

Quando a Fender voltou a produzir normalmente - e isso foi muito gradual - o interesse na produção de alta qualidade do japão diminuiu e, ao mudar de fornecedor, por força de contrato, as novas guitarras não poderiam mais usar o "made in japan", apenas o "crafted in japan", ppte a partir de 1996/97.
Com o dólar já competitivo, em 1985 a Fender autoriza outros fabricantes (ppte Coréia) a produzirem uma segunda linha, sempre denominada "Squier". A exportação japonesa diminuiu muito mas manteve-se por um bom período sem o "Squier".

A competição cada vez mais acirrada obrigou uma queda de preços e qualidade. Portanto, a Squier hoje em dia é isso que vemos: feita na China e é uma guitarra "barata" sob todos os aspectos.

Concluindo: as Fender Made in Japan, principalmentete do período entre 1982 (ou antes) e 1984
(identificáveis com o "Made in Japan" seguido por JV + 5 números), estão entre as melhores Fender de todos os tempos (lembre-se: elas quase fizeram o Dan Smith chorar... :) ). Se conseguires uma dessas, teoricamente a única coisa que pode ser melhorada são os captadores (é de consenso geral que os captadores japoneses, mesmo das melhores guitarras, não eram superiores aos Fender americanos)
O oposto ocorre com as Americanas entre 1980 e 1984: são na maioria de qualidade inferior, principalmente as Standard 1983.

É possível encontrar excelentes Fender "Crafted In Japan" (e também "Made In Japan", porque a Fuji continuava produzindo uma parcela) mas provavelmente sem a mesma qualidade feitas pela Ibanez (Fuji Gen-Gakki).

A Fender Japan produz atualmente guitarras de alto padrão mas apenas para o mercado interno. Eventualmente, uma ou outra série especial é exportada. A Telecaster da Fender Japan TLR-RK (modelo Richie Kotzen) só é feita lá, por exemplo.

Essa questão "Made" ou "Crafted" in Japan é algo controversa, assim como as Squiers (antigas e atuais). O meu texto baseou-se nos livros sobre a Fender e Strato do Tony Bacon e A. R. Duchossoir, além do excelente site: http://homepage.ntlworld.com/john.blackman4/index.htm
Link de datação da própria Fender: http://www.fender.com/en-BR/support/articles/japanese-instruments-product-dating
Fique à vontade para acrescentar e/ou corrigir.

PS: ATENÇÃO:  O pessoal tá fazendo muita pergunta sobre o tipo de madeira de suas MIJ ou CIJ ... No post, tá bem claro que é difícil saber. Geralmente as séries iniciais (JV  principalmente) de 82 a 84 eram de alder e algumas séries especiais (modelos "vintage") também. De resto, é quase tudo basswood.




domingo, 17 de outubro de 2010

Top Blog - quem disse que não existe voto certo?

 

Pessoal, o Blog da Paula Bifulco tá quase lá. Só falta o voto de vocês. É sem dúvida alguma o melhor blog da categoria e seria uma injustiça se não ganhasse. Nunca pedi voto para nenhum político, mas faço questão de pedir para a Paula. Sem o blog dela, o meu não existiria.
Abração e obrigado a quem puder ajudar!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Esse blog no Cifra Club...

Post temporário. São comentários sobre o blog que rolaram lá no fórum do Cifra Club
Se tiverem tempo para ler, agradeço.

http://forum.cifraclub.com.br/forum/3/243600/

O comentário (replicado por mim) do Luthier Fábio Seiji mostra talvez a razão desse blog existir. E dependendo das manifestações, já que é público, pode também ser a causa do fim dele.

Estranho...  Uma luthier, a Paula Bifulco, me inspirou. Agora, outro luthier me faz questionar minhas motivações.

Acho que tenho o direito de expressar a minha opinião pessoal sobre equipamentos. No meu texto sobre a Tagima, em nenhum momento disse: "Não compre essa guitarra". Apenas mostrei o que descobri e o que eu penso sobre ela. Idem quando menciono o Cedro. Se o fato de eu achar o Cedro ruim ofende as pessoas, tenho que repensar o blog.
Será que esse blog é realmente útil?

sábado, 2 de outubro de 2010

Aria Pro II (TS-300)


       Essa guitarra é um exemplo típico de "pechincha de loja". Depois que aprendi um pouco sobre guitarras, ficou muito mais fácil avaliá-las. Assim, sempre que passo nas lojas daqui, o primeiro lugar que vou é na seção de usados. Já comprei umas quatro guitarras excelentes por preços ridículos. Essa Aria Pro II TS-300 é uma delas - corpo com laterais de Nato (de início, achei que fosse mogno, mas é o melhor Nato que já ouvi), centro de maple com nato, braço de maple em 3 peças. 1981, feita na fábrica da Matsumoko (Aria) no japão. Tudo isso pela bagatela de 400 reais!
Originalmente ela é assim (do catálogo da Aria de 1981):

Ponte string through body fixa, braço parafusado (mas com um encaixe perfeito, típico das Arias) dois (horríveis) humbuckers cerâmicos (muito comuns na época) e, infelizmente, aquele headstock enorme e feio.
    A que eu comprei havia sido modificada com uma excelente ponte Kahler (também muito comum na época e agora voltando com força), mas para minha tristeza, o antigo dono cavou a madeira para colocá-la (é necessário). Eu queria colocar uma ponte "wraparound" mas a Kahler, após ser travada, acabou desempenhando bem esse papel.
De cara, troquei os captadores por humbuckers de alnico, refiz o headstock e troquei as tarrachas originais, do tipo "vintage" por Grovers.
(Uma observação: quanto aos captadores originais, que qualifiquei como "horríveis", devo mencionar que esse modelo (Aria Protomatic II) geralmente é bem criticado (procure pelos reviews da TS-300 no link da Harmony Central aqui no blog), mas os que vieram nessa, talvez pelo péssimo estado e oxidação, realmente estão entre os piores humbuckers cerâmicos que ouvi.)

      O som ficou legal e tal, mas não era melhor do que outras guitarras de mogno com tampo de maple. Tentei vários tipos de humbucker, Seymours, Rosar... Todos soaram bem, mas nada excepcional. Um dia, vi um P-90 Kent Armstrong na Mensageiro Musical por 55 reais. Por esse preço, pensei, "deve ter imã cerâmico..." Abri o captador e me surpreendi com a construção e um belo par de imãs de alnico! Como já havia me surpreendido com os Lipstick, imaginei que estava na hora de experimentar também um P-90. Se não gostasse, tudo bem, eram baratos mesmo.
A escolhida para recebê-los foi essa Aria, é óbvio - não tinha nada a perder e a minha idéia era usar P-90 em guitarra de mogno. Claro, ela é de Nato e sempre torci o nariz para o Nato e Agathis, mas, não sei se pela época ou pelo padrão de qualidade da fábrica (seleção das madeiras), ou o centro de maple, dando mais brilho, nessa guitarra em particular ele soa excelente, equilibrado como o mogno.

      Quando toquei a Aria com os P-90 pela primeira vez, quase caí para trás! Meu Deus! É uma mistura perfeita e impossível de Telecaster com Les Paul! O timbre tem o corpo e a densidade de uma Les Paul e a mordida e presença absurda de uma Telecaster (me lembrou muito a força e beleza dos médios da minha 68).Geralmente recomenda-se potenciômetros de 250K e capacitores de 0.047uf para os P-90, e não tenho certeza se o potenciômetro de volume é de 500K realmente. Como o capacitor é 0.047, imagino que pelo menos os pots de tonalidade sejam de 250K. Para instalar esses P-90, tive que pedir ao luthier para aumentar as cavidades dos humbuckers e ele mesmo fez as ligações, por isso não sei os valores exatos dos pots. Mas ficaram bons e não vou trocá-los.
O P-90 tem ainda mais ruído que um single comum, mas com um som desses, ruído é o que menos importa.
E são Kent Armstrong (Sky - chineses)... :) Quem diria... Os P-90 do Jason Lollar são considerados hoje os melhores do mundo. Sou capaz de comprar um só para ver (ouvir) até onde essa guitarra pode chegar... :)

Bem, fiquei tão satisfeito com esses Kent Armstrong  que até comprei mais dois, encomendei um corpo de tele de mogno e vou ter outra guitarra com P-90!
Como havia mencionado no post da "Strato Lipstick", esses dois tipos de captadores me serviram de lição. Tenho evitado ainda mais os conceitos teóricos. Havia lido (inúmeras vezes) que os P-90 têm o som semelhante ao single tradicional mas "mais gordo". Nada disso, seu som é único. P-90 tem som de P-90!. Idem para os Lipstick.
Agora, para dizer se gosto ou não, só após tocar e ouvir.

PS: Essas Arias da década de 70 e 80, todas feitas no Japão, são guitarras excelentes e geralmente confundidas com guitarras chinesas de baixa qualidade. Dessa linha, os modelos TS-400 (Sycamore e Maple) e TS-600 (Walnut e Maple) são ainda melhores e têm braços colados. Fique de olho nas pechinchas! :)

Especificações
Corpo: Nato com centro laminado de Maple/Nato
Braço: Maple, 3 peças, formato em "C".
Escala: 25", Rosewood, Raio: 12" (ou menor). 24 trastes.
Tarraxas: Grover Mini Rotomatics.
Captador Ponte: P-90 Kent Armstrong - 8,2K
Captador Braço: P-90 Kent Armstrong - 8,2K
Ponte: Kahler, travada.
Pots e capacitor: vol 500K (?), tone 250K, 0.047uf
Chave 2PDT - configurada para cortar o sinal.