domingo, 10 de junho de 2018

Timbre gordo, abafado, sem definição? Que tal um filtro de graves?


Paulo May

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)




        "Deus do céu - por que eu não sabia disso?" PQP, mais de 20 anos me incomodando com timbres gordos e sem definição e a resposta (pelo menos pra 90% deles) é um simples circuito com um capacitor e um resistor que custa menos que 5 reais... PQP!
Novamente, a culpa é do meu velho e horroroso mau hábito de generalizar minhas conclusões - como eu não gosto de equalização ativa, principalmente em guitarra, generalizei e passei a repudiar também a EQ passiva, que é outro universo.  

        O próprio controle de tonalidade nas guitarras é um circuito de EQ passiva, pois "filtra" os agudos, ou deixa passar os graves (low pass filter). Quanto maior o valor do capacitor, mais baixo inicia o corte de agudos, por isso singles, que são mais agudos, geralmente utilizam capacitores de 0,47 uF e humbuckers, 0,22 uF. Simples, mas nunca usei o corte de agudos nas minhas guitarras. O potenciômetro de tonalidade da minha telecaster 68 não é girado há mais de 20 anos, hehehe...
Sempre acreditei que guitarra boa e captadores bons não precisam de equalização porque a sonoridade essencial já é boa e um dos fundamentos desse blog é tentar entender como funciona esse processo que chamamos de "timbre". 

Assim, um dos maiores problemas que sempre enfrentei foi o de guitarras com timbre "gordo", "abafado", "embolado". Por que algumas guitarras soam assim? Seriam as madeiras, o circuito elétrico, captadores, hardware? Anos e anos nessa labuta e ainda sei muito pouco, infelizmente. Mas tenho 99% de certeza de que a estrutura da guitarra (madeiras + tipo de construção) determina a "alma" dela: gorda/grave, normal ou magra/aguda. Os captadores têm pouca influência nesse padrão, para pior ou melhor. Ou seja, se uma guitarra tem a alma grave, ela sempre soará grave. E acreditem, pelo menos 90% das guitarras abafadas não sofrem de falta de agudos, mas sim de excesso de graves, que entopem o input dos amps, pedais e obviamente, nossos ouvidos. 

Em relação às guitarras de alma gorda/grave, a minha abordagem estava completamente errada - durante anos eu tenho tentado artifícios para aumentar os agudos nessas guitarras, mas o pulo do gato aí é "CORTAR OS GRAVES". Simples e óbvio, mas o idiota aqui não viu isso... 

Bem, ao longo desses anos eu li vários artigos sobre circuitos passivos de corte de graves (high pass filter ou filtro de passa alta - deixa passar as frequências altas e filtra as baixas, a partir de um ponto de corte definido). A Fender Jaguar tem uma chave de high pass e o Leo Fender aprimorou esse conceito nas G&L com o sistema "PTB" (Passive Treble/Bass). Sim eu lia, mas infelizmente passava batido porque como falei, a ideia de "equalizar" o timbre me soava artificial demais. Já doei algumas guitarras por causa dessa "alma gorda/grave", mas hoje sei que facilmente resolveria esse problema com uma simples modificação no pot de tone, que transforma o filtro de agudos em filtro de graves.

Então é isso, quase todas as guitarras têm um filtro de passa baixas (low pass), que é o controle de tonalidade, mas pouquíssimas tem um filtro de passa altas (high pass). Que coisa louca - a não ser que você seja um cara muito fã do "woman tone" do Eric Clapton ou fanático por aquele timbre obeso, geralmente com fuzz, como às vezes o do Dan Auerbach, tipo "proto-modern-white-nerd-cool-blues", provavelmente um filtro de high pass/bass cut será muito mais útil. 

        Quando resolvi testar o circuito, na Roland Fishtail, um post no blog do americano Aaron Lum foi fundamental (clique). Os esquemas que estão aqui são dele e eu modifiquei o de Les Paul para colocar o bass cut em ambos os captadores. Como falei no post da fishtail, existe um site com uma calculadora automática dos valores do capacitor e resistor (sempre ligados em série) para se obter um corte de graves numa frequência específica. Já coloquei esse sistema em 4 guitarras e posso adiantar que um ponto de corte entre 60 e 110 Hz é o ideal (mais musical) para a maioria delas. O que percebemos na real é um aumento da clareza e definição do timbre - as notas embolam menos e sobra mais espaço para os médios e agudos no espectro da percepção sonora. Ainda não precisei utilizar o filtro em captadores singles comuns, de tele e strato, mas em humbuckers ou P90 de braço, o efeito é fantástico - limpa tudo. 
Especificamente, devo "travar" em duas combinações: 
1) Resistor 470 kohms (kilohms) + Capacitor de 4.7 nF (nanofarads), com ponto de corte de 72 Hz e 
2) Resistor 680 kohms (kilohms) + Capacitor de 2.2 nF (nanofarads), com ponto de corte de 106 Hz
O valor do capacitor é o que mais influencia aí - quanto menor, mais alto é o ponto de corte de graves. Atenção para os valores dos capacitores - quando for comprar especifique "NANO" farads (nF) ou faça a conversão para micro farads (uF).

O filtro pode ser colocado em vários pontos do circuito: através de uma chave liga/desliga, direto na saída do jack ou no hot do captador específico ou, se quisermos mais controle sobre a intensidade do filtro (ideal), acoplado ao pot de tonalidade. Em 3 guitarras coloquei no pot de tonalidade (obviamente desativando a função de corte de agudos) e recomendo pots 500k "B" lineares. Os "A" logarítmicos são chatos pra localizar o ponto. 





Em uma delas, direto no hot do captador do braço, logo antes de ligá-lo na chave:



A ligação básica é essa de baixo: o sinal que vem do captador entra por uma perna do capacitor que está ligada à uma das pernas do resistor - esse ponto é a saída do sinal já filtrado, é ali que ligamos ou no seletor ou direto no jack de saída. A outra perna do resistor é ligada no terra, kkk - é por ali que as gorduras sairão... :). Esse é o famoso "Circuito RC de Passa Altas", coisa básica pra quem conhece eletrônica mas complicada pra guitarristas.  


Seguem os esquemas para guitarras com fiação tipo Les Paul:

Estilo LP, com master tone para corte de agudos e outro master tone para corte de graves




Estilo LP, com ambos os pots para corte de graves, sem corte de agudos. Nessa opção podemos especificar valores diferentes e/ou a intensidade de corte para cada captador.

A única coisa que lamento é não ter aprendido/aplicado isso antes. Esse post deveria ser um dos primeiros do blog...


domingo, 18 de março de 2018

Mosca Branca

Paulo May

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)



          Quando estávamos combinando a gravação da demo da Les Paul Kaiser/LPG, o Jean me disse que, além da sua nova strato com captadores Fishman Fluence, traria uma guitarra muito interessante mas não mencionou qual - seria uma "surpresa"... :)

A segunda guitarra era uma stratocaster japonesa Tokai de 1984. Bem, qualquer um que já leu um pouco sobre a história da guitarra sabe sobre as cópias japonesas de marcas famosas, principalmente Gibson e Fender que proliferaram nos anos 70. Marcas como Ibanez, Greco e Tokai faziam cópias às vezes melhores que as americanas - talvez até porque nos anos 70 a qualidade das Fender e Gibson realmente estava baixa.  Em 1977 a Gibson entrou com uma ação judicial (Lawsuit) e conseguiu a proibição de cópias do seu headstock clássico (open-book-style).

          Por isso hoje em dia usamos o termo "pré lawsuit" para especificar o período anterior à proibição. A Fender só conseguiu proteger os seus headstocks (corpos não são protegidos, Fender ou Gibson) bem mais tarde, por isso em 1984 ainda havia cópias orientais exatas de stratos e teles vintage e essa Tokai é um belo exemplo.

          As cópias Tokai de strato, principalmente entre 1977 e 1987, geralmente são excelentes. Foi uma Tokai de 1981 que provocou pânico na Fender na época - eles não conseguiam fazer uma Fender tão boa quanto aquela Tokai!
Essa Tokai do Jean é o modelo "Goldstar Sound T60" e ele já pesquisou:

Jean Andrade: Essas Tokai de 1984 são cópias das Fender L Series de 1964 (inclusive vêm também com o serial number começando com a letra L)
A minha é uma TST60, com captadores em alnico "E stamped". A principal diferença:  a TST60 e superiores (até TST120) têm captadores de alnico "E stamped" (os melhores e mais caros feitos pela Dimarzio, réplica dos fullerton da Fender). A TST 40 tem captadores cerâmicos, enquanto a TST50 tem os captadores "U stamped", também de alnico, mas com saída um pouco mais alta.
A minha Tokai tem os originais "E stamped" no braço e meio, sendo que o captador da ponte foi substituído por outro dimarzio antigo. A única diferença da TST60 para a TST80 é que esta última tem finish em nitro.
"Most of the good Tokai pickups have grey bottoms with separate pole pieces. The early ones are stamped "U" and they are medium hot, about 6.2K ohms. There are grey bottoms stamped "E" and they are more vintage output, about 5.6K ohms and these were fitted to more expensive models. The top of the range Tokai strat copies were fitted with DiMarzio VS-1 pickups and they have black bottoms.
Se bobear, o da ponte da minha pode ser um desses VS-1...hehehe.



A tentativa de deixar a palavra Tokai semelhante à Fender é quase cômica, mas tive que rir do "Oldie But Goldies" no lugar do clássico "Contour Body", hehehe...

... Mas parei de rir e tive um calafrio na espinha depois de tocar apenas cinco notas no captador do braço... Foi um daqueles momentos raros, raríssimos, onde percebemos que estamos diante de alguma coisa definitivamente superior, única. Toquei mais alguns acordes e, confirmado: eu estava diante de uma "Mosca Branca". A segunda sensação que tive, depois da estupefação, foi de frustração - essa guitarra não era minha! PQP! Guitarra leve, super ressonante, extremamente bem feita, peças e madeiras de primeira. A minha melhor strato (Fender 97 modificada) é a única que pode ser comparada com ela (e não é melhor, só chega perto). Todas as outras perdem feio, independente dos captadores e madeiras...
E quando eu falo "mosca branca" não estou me referindo às Tokais Goldstar Sound de 1984, mas à essa guitarra especificamente. Pela minha própria experiência, sei que posso pegar 10 Tokais do mesmo modelo e ano e provavelmente nenhuma soará como essa.

O corpo é de alder muito, muito leve, braço de maple com uma camada fina, quase um veneer, de rosewood - e esse é um detalhe que é igual ao da minha telecaster: rosewood fino e curvado com a escala - não é "slab". Capacitor cerâmico grande, bons pots, ponte e tarraxas clássicas, bem no padrão Fender de 1964.
E por falar em Fender 1964, nesse vídeo abaixo, da Norman's Rare Guitars, o Mark Agnesi conta em detalhes a história das Fender "L" series - muito legal. Cheque o ícone "legendas" para entender melhor o inglês.



         Não vou perder tempo tentando explicar e descrever a razão do timbre dessa Tokai ser tão excepcional, mas ela tem a mesma mágica da minha Tele 68: a dinâmica ampla, complexa, multidimensional. A mesma nota tocada 10 vezes soará diferente 10 vezes, cada uma com sua cor e sabor. Impressionante.
E também não vou contar essa história agora, mas se eu fosse um pouquinho mais sociável e menos rabugento, poderia ter tido contato com essa guitarra ANTES do Jean colocar os olhos nela, hehehe...
Mas terei o consolo que ela estará por perto e poderei tocá-la de vez em quando :)




No próximo post vou convidar o Oscar e discutiremos mais profundamente essa questão das moscas brancas, com exemplos, fatos e declarações de grandes mestres da luthieria, mas por enquanto vocês ficam com o vídeo da Tokai do Jean em ação:


PS: E aquela outra strato do Jean, com os captadores Fishman Fluence? Excelente guitarra, gostei muito dos captadores. ultra silenciosos, timbre clássico, típicos de uma strato. Mas... do lado dessa Tokai, o timbre dos captadores Fluence soou linear demais, bonito demais, hi-fi demais... Ou seja, falta aquela sujeirinha mágica, imprevisível, que raramente ouvimos. E, só ouvindo para vislumbrar a dimensão da coisa...


PS1: Contribuição do leitor "unknow" - especificações dessas séries da Tokai:

ST-42 (1977 - 1979) – U-shaped neck, chrome hardware, non-Kluson type tuners, ceramic pickups, 3- or 4-piece sen ash body with poly finish
ST-45 (1980 - 1981) – U-shaped neck, chrome hardware, non-Kluson type tuners, ceramic pickups, 3- or 4-piece alder body with poly finish
ST-50 (1977 - 1984) – U-shaped neck, nickel hardware, Kluson-type tuners, alnico “E,” “U,” “V” or “VI” pickups, 3-piece alder or sen ash body with poly finish
ST-60 (1977 - 1984) – V shaped neck, nickel hardware, Kluson-type tuners, alnico “E,” “U,” “V” or “VI” pickups, 2-piece sen ash or alder body with poly finish
ST-70 (1982 - 1983) – U-shaped neck, nickel hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS-1 alnico pickups, 2-piece sen ash or alder body with poly finish
ST-80 (1979 - 1983) – V-shaped neck, nickel or gold hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS-1 alnico pickups, 2-piece sen ash or alder body with nitro finish
ST-100 (1979 - 1983) – V-shaped neck, gold hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS1 alnico pickups, 1- or 2-piece sen ash body with nitro finish
ST-120 (1982) – V-shaped neck, gold hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS-1 alnico pickups, 1-piece ash body with nitro finish





domingo, 25 de fevereiro de 2018

Projeto Les Paul - Final


Paulo May

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)


Obs: link para o primeiro post sobre a guitarra: CLIQUE AQUI


Finalmente!! :)


          No dia 13 de fevereiro o Copetti me ligou avisando que a guitarra estava pronta. Como de costume, peguei uma carona com o Faraco e fomos até lá. Só faltava o plástico/placa de suporte do jack (que eu havia esquecido em casa) mas improvisamos com uma fita crepe para poder ligar a guitarra. E por falar nisso, a primeira pessoa a tocar nela não fui eu, foi o Faraco. Assim como o Jean, ele também estranhou o braço no início (ninguém espera um soft V numa Gibson, hehehe), mas em menos de 5 minutos já ficou confortável -  e já lascou "Se um dia fores vender, eu sou o primeiro da fila", hehehe. Como a manezada de floripa costuma falar: "Mofas com a pomba na balaia, Faraco" KKKK!

Faraco e Copetti aplicando a tecnologia da "fita crepe" :)

        Então, depois dos impressionantes trabalhos do Kaiser e da finalização do Copetti, chamei o Jean pra conhecer pessoalmente a guitarra e daí já aproveitamos pra gravar a demo.

          Ter uma Les Paul boa é o sonho de boa parte dos guitarristas (até de strateiros como o Jean - sacaram a tatuagem no braço esquerdo dele? :). Eu tenho 2 Les Paul Gibson (1981 Standard e CSR9 2013) maravilhosas, mas os braços Gibson são um pouco desconfortáveis pra mim. Aliás, quanto mais guitarras eu tenho e mais aprendo sobre elas, mais chato eu fico em relação aos braços, hehehe. O braço da minha Telecaster 68 é, definitivamente, o mais confortável que já toquei.

Dito isso, e considerando que eu já tenho duas Gibsons, decidi fazer com o Kaiser um braço fora das especificações da Les Paul. Esse aí tem formato "soft V, quase V" - muito pouco volume nos ombros, volute e a angulação do headstock é menor, entre o padrão PRS  (11°?) e  Gibson (17º). Resultado prático: some esses detalhes à escala menor da Gibson (24,75 polegadas), essa Les Paul LPG/Kaiser é a guitarra mais fácil de tocar que eu tenho aqui. Cordas 0.10 parecem 0.09 e os bends exigem mínimo esforço. Pra mim, que pratico pouco, é uma mão na roda, mas o Jean teve problemas pra gravar as demos - acostumado com mais tensão nas cordas e braços mais gordos, levou uma boa meia hora pra controlar os bends - a maioria tava passando do ponto, kkkk!
Mas depois de acabar as gravações ele me disse: "já tô me acostumando com esse braço" :)
Ainda não tive coragem de fazer os furos pra colocar o escudo, mas acho que em breve... :)

          Gravar demos legais e que sejam realmente úteis para o discernimento dos leitores não é fácil... Achamos que teríamos tempo de gravar também as demos da Les Paul DeLuxe e da Roland-TB, mas bah!... Não deu...

Mesmo assim, utilizamos a última meia hora para gravar uma demo (ainda em edição) de uma strato TOKAI absolutamente fantástica que o Jean comprou recentemente. Um dos melhores, senão o melhor, sons de strato que já ouvi. Tokai de 1984, alder levíssimo, braço com escala curvada fininha (veneer) de jacarandá... mágica... E não é Fender! Postaremos em breve :)

Comentário do Jean sobre a guitarra:
"Fiquei impressionado com o resultado! O braço realmente não tem o formato mais adequado ao que eu, especificamente, estou acostumado... a minha impressão é que o formato ficou mais para um V pronunciado, que para um soft V.
Mas isso é justamente uma das coisas mais legais dessa guitarra, o Kaiser construiu praticamente sob as medidas e especificações solicitadas pelo Paulo, sendo que o braço ficou perfeito pra ele. Ainda assim, a guitarra é muito fácil de tocar (o braço mais fino dá melhor acesso ao final da escala), super confortável e macia, não é pesada, o timbre e o visual são matadores!!!!Parabéns ao Paulo pelo empreendimento e pelo acabamento, ao Kaiser pela construção e ao Copetti pela ajuda final!"



sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Guitarra LPG-Kaiser (ou, a Saga da Roland G707..hehehe)

Paulo May


(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)


Veja esse post antes: CLIQUE.

          A ponte e o braço da finada Roland G-707 pareciam ter encontrado o seu destino final, mas alguma coisa ainda estava errada... Talvez porque na verdade eu não goste muito de misturar padrões estéticos clássicos com modernos. É uma questão puramente visual, já que modificações ergonômicas e funcionais eu acho legal.
...Então, eu tive a G-707 nos anos 80 (1985) e como já falei, detestava aquele corpo estranho e absolutamente incômodo. Sempre gostei do visual "moderno retrô" dos anos 50/60 e também sempre achei o visual os anos 80 muito bizarro, pra dizer o mínimo... :). Como unir 50/60 e 80 num conceito? Complicado...

        Mas há uns dois meses fiz um desenho bem rudimentar num papel. No outro dia olhei e me pareceu interessante... Dei uma ajeitada no photoshop e enviei para o Kaiser... Discutimos alguns detalhes de viabilidade como local do jack, chanfro superior, tróculo... Daí ele passou para 3D, programou a CNC e em menos de 10 dias eu estava com o corpo em casa... Novamente, a eficiência e agilidade do alemão lá de Nova Petrópolis foram de cair o queixo! :)
Na foto abaixo, um resumo das duas semanas, da ideia até o corpo entregue:

Por incrível que pareça, a forma que mais me inspirou foi a daquela cadeira de balanço...:)

Mais uma semana e a guitarra tava pronta:


  O mais legal é que não precisei ajustar nada. Tudo se encaixou perfeitamente, desde a simetria do braço/captadores/ponte até o ângulo do braço - e olha que esse tipo de problema acontece até em montagem de peças originais da Fender, por exemplo.
Muito, muito legal!! O corpo está com o peso muito bem distribuído (equilíbrio/balanço horizontal), e leve: peso total de 3,4kg (corpo de mogno sólido!)


         Dá pra ver que o braço era todo preto e eu retirei a tinta... Tá muito irregular, mas isso foi bem no começo das minhas aventuras com guitarra, hehehe. Preferi deixar assim e como essa guitarra "deveria" ter 33 anos, fiz um leve relic (mais desgastes que machucados) no acabamento. O fato é que eu adoro a pegada desse braço - sempre foi extremamente confortável.

          O interessante é que, por um lapso de comunicação, acabamos fazendo cavidades de humbucker (a minha ideia era colocar Filtertrons Gretsch), mas, de vez em quando a sorte vem dobrada e esse é um caso - o timbre dessa guitarra com humbuckers tá o bicho. Lindo de morrer.


         O captador da ponte é um T-Top Gibson de 1981 rebobinado pelo Sérgio Rosar com as especificações do Rolph e o do braço é um Rosar Mojo. Pots de 500k - um de volume ou outro de corte de graves (bass roll off/high pass filter). Esse sistema de corte de graves é muito legal e não entendo por que não o utilizei antes - tinha o esquema guardado há pelo menos 3 anos.
Dessa vez, devido à minha história com mogno brasileiro (quase sempre gera um timbre fechado, gordo, meio sem graça - parece praga), eu já armei essa elétrica antes. E olha que a sorte com esse mogno foi grande - os graves dele já soam bem legais, sem muito excesso.
Sem corte de agudos (função clássica do pot de tonalidade) e com corte de graves... Esse deveria ser o padrão em boa parte das guitarras com humbuckers.
O corte de graves, na configuração que utilizei, com resistor de 1 mega + capacitor de 4,7 uF (o potenciômetro deveria ser de 1 mega, mas o que eu tenho tem haste muito curta) pega apenas os graves mais baixos, aqueles que a gente quase não houve mas os sente embolando o timbre. Como eu nunca havia utilizado o sistema, optei por um corte bem sutil. Mas ficou bem musical e mais perceptível no captador do braço. Ainda preciso aprender um pouco mais sobre isso - há uma fórmula para calcular a combinação capacitor/resistor/ponto de corte.
Vou testar amanhã com um corte um pouco mais alto (79 Hz), trocando o capacitor para 2,2 uF.
Enquanto escrevo isso, tô pensando em pelo menos umas 5 guitarras aqui que precisam urgente dessa mod :)

Mas esse esquema merece um post à parte. Nas próximas semanas o Alex prometeu que vem aqui pra gente gravar várias demos e vou incluir as duas LPs e essa LPG-Kaiser. Daí a gente mostra o corte de graves em ação e eu posto as ilustrações da mod - não é complicado, mas precisa ter alguma experiência com solda :)

Bem, é isso aí - a guitarra na minha opinião ficou linda (obviamente há gosto pra tudo e respeito quem achá-la feia, hehehe), tá com um timbre maravilhoso, é ergonômica (dá pra tocar sentado e no sofá numa boa) e resolveu o dilema do braço e ponte órfãos da G707.
Como é um protótipo, acho que precisamos mudar a posição do jack de saída (inicialmente era no final da curvatura posterior e talvez esse seja realmente o melhor local) e fazer um chanfro/rebaixamento extra no início do tróculo, pra deixar o acesso (já excelente) às casas mais altas 100%. Também imagino que o headstock ficaria mais harmônico esteticamente se fosse curvado para baixo... Mas antes ainda preciso decidir onde colocar os pinos da correia... :)

Lembrando, antes que perguntem: tróculo e escala estão no padrão Fender, ou seja, qualquer braço Fender cabe aí (atenção porque o de tele tem final reto e o de strato é curvado). Obviamente o Kaiser pode adaptar o projeto para um padrão Gibson, com escala mais curta (e até braço angulado e colado, se for o caso), mas a escala mais longa geralmente dá mais estalo e médios pela tensão extra - é a minha preferida :)

PS1: Estamos aceitando sugestões de nomes para esse modelo de corpo. Não vale "Fishtail" e nem "Shark", kkkk! Como o nome da minha banda (e da minha cidade natal) nos anos 80 era "Tubarão" (TB para os íntimos), por enquanto eu a tenho chamado de "TB-1" :)

PS2: Alguns dias depois de iniciarmos o projeto, procurando pelas palavras "Fishtail + Car" pra ver as cores dos carros, me deparei com essa guitarra na internet:

Essa é de fato uma "Fishtail" e o(s) cara(s) que fez isso realmente caprichou, bah... Eu não me lembro de tê-la visto ANTES do meu esboço mas, coincidências à parte, o importante é que a nossa guitarra ficou legal também :)



segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Projeto Les Paul - dessa vez vai dar certo!

Paulo May

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)


          Uma das coisas mais legais de lidar com esse blog é que por meio dele nós temos a dádiva de encontrar pessoas realmente excepcionais. São seres humanos com claro e profundo domínio da sua profissão. Habilidade, genialidade e via de regra perseverança, os colocam acima de qualquer média. 
Quem acompanha o blog sabe que estou falando de caras como o Sérgio Rosar, Kaiser, Pedrone, BoveCastelli, Copetti, Manara, Inaldo, etc. São muitos para citar, desde o luthier que faz o seu trabalho com absoluta dedicação e capricho, passando pelo cientista que perde dias num detalhe de projeto até finalmente o músico que sabe avaliar um bom timbre.
         E é gente de todo o Brasil - alguns de lugares que eu nunca ouvi falar, como o Eduardo Kaiser, de Nova Petrópolis na serra gaúcha. Quando eu cismei de fazer uma Les Paul aqui no Brasil, em 2010, não imaginei de forma alguma que o faria com o um gaúcho alemão de Nova Petrópolis!KKK! 

        Em junho de 2016, o "Projeto Les Paul" foi iniciado (clique aqui para o linkcom o Adriano, da RDC guitars de Minas Gerais. O Adriano trabalha como luthier quase que somente nas horas vagas, pois essa não é a sua principal atividade. Como ele queria fazer uma guitarra com o máximo de dedicação, foi adiando, adiando e depois de um ano e meio decidimos que seria melhor desistir da ideia. Como mencionei naquele post, a 1ª lei de Murphy é inexorável, hehehe.
Não postei essa triste notícia porque, como dizia a minha avó: "Há males que vêm pra bem" e nesse meio tempo conheci o Eduardo Kaiser. Eu havia feito uma Les Paul com ele (modelo "Deluxe" com câmaras de alívio de peso), além de outros trabalhos que estão aqui no blog (Teles e Stratos de madeiras diversas). A primeira Les Paul foi uma experiência muito boa e serviu para refinarmos as decisões em relação à segunda.

         Em outubro de 2017 o Adriano enviou as madeiras e materiais para o Kaiser, que iniciou a Les Paul no dia primeiro de novembro. No dia 29 do mesmo mês, ela foi enviada pra mim para a finalização (acabamento e colocação do hardware). Pra quem esperou 18 meses, 28 dias parecem um milagre, né? Só que não, pois alemão é assim mesmo - se é pra fazer ele faz e ponto final. Sem a intenção de parecer preconceituoso, pela minha experiência, se o cara tem sobrenome alemão ou italiano, já é meio caminho andado... :)
E por falar em italiano, quando me vi diante de um impasse perigoso na finalização da LP, apelei para o mago Copetti, excepcional luthier aqui de floripa que invariavelmente faz trabalhos perfeitos. O problema de ter pessoas como o Kaiser e o Copetti à disposição é que acabo evitando de fazer qualquer trabalho aqui em casa, já que eles fazem tudo BEM melhor do que eu :)

Bem, antes de irmos à sequência de fotos e vídeos do projeto Les Paul, um pouquinho de Nova Petrópolis - uma cidade linda, daquelas alemãs típicas da Baviera:


Material: quase todo o hardware e plásticos na Stewart-MacDonald (stewmac) uma das maiores lojas do mundo em suprimentos para luthiers. O top de maple consegui comprar aqui no Brasil, com o Miguel Cardone da Music Tools. Lindo flame, acredito que no mínimo, qualidade AAAA.
Mogno: Mozar Menezes, de Jandira/SP (via Mercado Livre). Bloco de mogno brasileiro, com cerca de 15 anos, medindo 50,5 x 35 x 4,4 cm e peso total de 4,8 kg.

Como sempre mencionei no blog, 95% do mogno "brasileiro" que tenho visto é pesado demais, mas esse bloco tinha um peso similar aos blocos de mogno hondurenho (de peso médio) que pesquisei na internet/ebay. Nessas medidas aproximadas, um bloco leve pesa cerca de 4 kg, um intermediário entre 4,2 e 5 kg e os pesados sempre mais que 5 kg.


INICIANDO  A LES PAUL

         Não conseguimos um bloco ideal de mogno para o braço - o padrão Gibson é com corte radial e sem emendas/colagens. De qualquer forma, e considerando que eu tenho sérios problemas com os braços gordos da Gibson (mesmo os "60's" têm muito ombro), pedi um braço semelhante ao da minha telecaster 68 - entre um "C" e "V", com poucos ombros (para saber mais sobre "ombros", clique aqui). 

O Kaiser já sabia da minha bronca com os ombros e sugeriu um formato "soft V" - que eu gosto bastante, veja os padrões:


         Com a perda de massa, optamos pelo "volute" na junção do headstock, inserção de duas tiras de fibra de carbono para reforçar e colagem espanhola. Braço fino de mogno tem menos rigidez e é muito frágil, principalmente na junção do headstock. Tenho firme convicção que essas alterações não interferem muito com o timbre (pelo contrário) e garantem a estabilidade e rigidez necessárias. Eu enviei um tensor vintage Gibson para o Kaiser, mas na última hora optamos por um tensor moderno, bem mais eficiente. 
Eu tenho duas Gibsons Les Paul e o que mais me incomoda nelas são os braços gordos - então é óbvio que eu não deixaria passar a chance de fazer um braço do meu gosto :)

1) Corte e retificação do bloco de mogno (uma peça)
2) Alívio de peso (Gibson clássico: 9 furos): calculamos que sem (pelo menos) esse padrão de alívio, a guitarra ficaria com mais de 4,5 kg - o meu limite máximo para peso de guitarra. Acima disso é sacanagem com os ombros de qualquer pessoa :).
3) Colando os dois blocos de flamed maple.


 4) Colagem do top de maple sobre o bloco de mogno. Importante detalhe: aquele canal curvado que sai da cavidade de controle é para passar o fio terra da ponte. Há muitas Gibsons antigas sem aterramento da ponte.
5) Corte/retificação do top de maple já colado.


O Kaiser filmou algumas partes do processo. Editamos nesse vídeo de 3 minutos:


6) Iniciando o "binding". Braço no estágio inicial, apenas com o headstock e "colagem espanhola"
7) Escala e binding do corpo prontos, braço já com tensor e os dois canaletes para as fibras de carbono para reforço.


          Essa etapa é uma das mais delicadas e importantes na manufatura de uma Les Paul (na verdade, em TODAS as guitarras) - a junção do braço com o corpo: Long tenon, para maior área de contato, angulação correta (entre 3 e 5 graus - geralmente 4) e bem apertado. Na foto 10, a junção está tão firme e precisa que o Kaiser levantou o corpo pelo braço, sem estarem colados!! :)



11,12,13) Processo de colagem da escala


14) Colando o braço no corpo. 15) Confirmando a correta angulação. 16) Finalizando os trastes (aço).


E... Voilà!! Uma Les Paul brasileira, feita em Nova Petrópolis! :)



ACABAMENTO E FINALIZAÇÃO

No dia 4 de dezembro recebi o pacote - meu presente de natal adiantado, hehehe:


 E já iniciei o processo de acabamento/finalização. Primeiro, decidir qual o padrão de cor do top: optei por um "teaburst" bem sutil. Depois, começar o tingimento (anilina em álcool puro - usei álcool 92,8%) pelo amarelo:

Até dá pra deixar assim, algo meio "Lemmon Burst", mas eu acho que a longo prazo, uma tonalidade mais âmbar é menos cansativa de se olhar :)
Preparei, utilizando anilinas amarela (ouro), laranja, vermelha (encarnado) e "imbuia" vários frascos com várias tonalidades, do amarelo puro ao quase marrom. Como eu mesmo iria colocar o verniz e o que eu utilizo já é meio âmbar, tive que ficar imaginando os tons finais... Difícil, mas deu pra chegar no que eu queria. Segue uma série de fotos do processo:

Já com as bordas um pouco mais escuras - sunburst sutil... :)

O overlay do headstock foi comprado na Crox Guitars, assim como o decalque Les Paul. Quando quero algo realmente top e profissional, compro lá. Normalmente envia por carta e a gente evita o arroxo absurdo dos impostos de importação.

Colocar e finalizar decalques é um trabalhinho que requer uma certa experiência e muita, muita paciência. Tem que preparar inicialmente a base com verniz, lixar, polir, colocar o decalque, passar várias camadas de verniz, sempre lixando, lixando, até não percebermos mais os limites do decalque. Depois polir até o ponto ideal - eu evito aquele brilho excessivo das guitarras modernas.

O mogno tem poros grandes e é recomendável que se utilize "filler" de madeira antes para não ter que usar muito verniz depois. Eu fujo de tudo isso apenas colocando 3-4 camadas de verniz e depois lixando. A superfície fica natural e dá pra sentir a textura do mogno. Esse tipo de acabamento obviamente não fica com brilho porque se usar massa de polir ela penetra nos poros - mas dá pra deixar um leve acetinado. Eu acho legal e, mais importante, isso deixa a madeira ressoar mais livremente.



         Eu poderia ter ido até o Copetti ou o Inaldo e finalizar tudo com eles, mas o objetivo do blog sempre foi a ideia do "faça você mesmo", então o que dá pra fazer em casa eu fiz. Utilizei verniz marítimo com rolinho no mogno e verniz spray em lata no top. Sempre tento colocar o mínimo possível de camadas mas às vezes quando vou lixar acabo chegando na madeira em alguns pontos... Aconteceu dessa vez e - coisa mais chata - tive que voltar, colocar mais 2 a 3 camadas de verniz e reiniciar as lixas.
Utilizo a sequência de lixas (todas com água): 320/360/400 - 600 - 1200 - 2000 - 2500. A 2500 já deixa quase no brilho - é só polir (com massa de polimento - dessas de automóveis) e deu pra bola.

Antes de iniciar a lixação. O verniz "acende" o flame do maple. 


Depois de polida (à mão, trabalho danado) e pronta para montagem do hardware

          Bem, quando eu ia partir para a colocação do harware, me deparei com um problema - como não enviei a chave seletora switchcraft para o Kaiser e ele não tinha uma lá, eu precisaria fazer um rebaixamento circular na cavidade da chave - isso é feito nas Gibsons - mas é um trabalho delicado porque o maple fica muito fino nesse ponto. Qualquer erro e não tem volta... Eu não tenho tupia e nem fresa longa pra isso.
Novamente, tive que apelar para o Copetti - assim como na outra Les Paul Kaiser (que eu não postei ainda - uma Deluxe), ele avalia tudo, vê coisas que eu não vi e dá o diagnóstico, invariavelmente correto :) Como eu já estava cansado de tanto lixar essa Les Paul, sucumbi à preguiça e pedi pra ele finalizar tudo - até o nut, que eu mexi demais e passei do ponto (pra variar, hehehe).

         A guitarra ainda está com o Copetti - devo pegá-la essa semana. Optei por um humbucker Rolph no braço e  Shaw na ponte. Classicamente, os Shaw foram tunados para pots de 300 e não 500k, mas deixei 500... Deveria postar no blog somente após pegar a guitarra, tocar e saber se está tudo ok, mas novamente ignorando Murphy, vou postar até aqui e complementar depois, se possível com uma demo em vídeo...

Pra saideira, uma foto da (outra) Les Paul Deluxe Kaiser (plain top):

ATENÇÃO (25/2/18): guitarra finalizada e com vídeo demo: CLIQUE AQUI



domingo, 6 de agosto de 2017

Entendendo e Tunando uma Gibson SG

Oscar Isaka


(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)

          Mais de 1 ano depois estou finalmente retornando a escrever no nosso querido LPG. A pausa foi muito mais longa do que eu planejei (casamento, reforma da casa etc) , mas antes que o Paulo venha até Curitiba para me dar um pito, vamos voltar as atividades rs.

Ao longo do tempo a medida que vamos testando instrumentos, nos ensaios, nas lojas ou em casas de amigos, vamos começado a entender o que agrada nossos ouvidos. Sempre brinco com o Paulo que isso é meio mutante, a coisa vai mudando a medida que você ouve novos sons, é exposto a novas experiências, enfim a medida que você vive a vida. Eu mesmo, até um tempo atrás não gostava de LedZeppelin e minha playlist se resumia a Dream Theater e Helloween o que obviamente influenciava diretamente no tipo de som que eu queria extrair da guitarra. O Paulo sempre comenta que se a fundamental estiver lá, o resto todo vai se tornando detalhe como captador ideal, ferragens etc são temperos adicionais numa boa guitarra, agora um bom captador não deixa uma guitarra ruim boa. Essa SG é um excelente exemplo disso pois quando peguei ela estava num estado bem esquisito, mas desde a primeira vez que pluguei eu sabia que ela tinha potencial e resolvi documentar o processo todo de avaliar e tunar essa guitarra pois daria um post bacana. 

Gibson SG Standard 2013
Quando toquei ela na loja, a primeira impressão foi boa. Gostei da pegada etc e o corpo tinha excelente ressonância acústica. Isso nunca é regra para bom timbre, mas geralmente é um bom indicativo. Observei algumas falhas de regulagem tbem, como o NUT e ponte com cortes muitos largos, onde a corda dançava nos bends, mas isso é resolvível. Quando pluguei o som estava meio gordo e sem definição, como se o tone estivesse fechado, mas ouvi o twang característico que sempre associo ao som de SG, que é muito evidente no som da guitarra do Angus por exemplo. É o meu tipo preferido de som de SG e que até hoje não havia achado. Pensei na hora, se eu substituir os pots de 300K por 500K nos volumes, o tone vai abrir e talvez essa guitarra tenha uma boa chance de viver. Como disse antes, regulagem e etc, é resolvível, mas a fundamental não se resolve. ;-)

Com a guitarra na bancada, o primeiro passo sempre é fazer uma regulagem geral, ajustando o tensor e avaliando a curvatura do braço e etc. O ajuste correto do tensor evita trastejamentos, ajuda na estabilidade do braço e da afinação além da tocabilidade e sonoridade final da guitarra. Um braço muito abaulado faz com que o ataque fique meio molenga e sem definição.

Ajuste de Tensor
Nessa etapa a regra é sempre ir com calma. Eu sempre meço apertado a corda no traste 1 e 19 e medindo a folga que fica na corda na altura da casa 12. Se estiver com folga maior que a espessura de um cartão de visitas dou uma apertadinha (nunca mais de 1/4 de volta de cada vez), e vou acertando a altura do tensor com a ponte até que fique do meu gosto. Quando terminei a diferença já era bem notável. O conjunto já estava mais macio e confortável. Já aproveitei e dei uma hidratada na escala que estava seca e bem suja. Óleo de Limão e o Hydrate da Planet Waves fizeram o trabalho perfeitamente. 


A segunda etapa é a parte elétrica. Soldas frias, aterramento , potenciômetros, caacitores, tipo de ligação, tudo é revisado e foi nessa parte que eu quase cai pra trás nessa SG. Eu já esperava trocar pots e refazer a ligação pois não gosto dos pots da Gibson e a não ser nas guitarras Custom Shop, o esquema 50s Wiring não vem de fábrica, mas o que achei aqui foi assustador...




  
O dono anterior tinha refeito a ligação toda usando fio com malha e a coisa toda ficou uma macarronada, com capacitores chineses genéricos e bolas de solda pra todos os lados. Tirei tudo e substitui os potenciômetros por outros novos CTS da Mojotone que eu tinha por aqui. Ainda precisava conferir os captadores, mas o resultado ficou como a foto abaixo. Note o terra vindo da ponte, ligado no pot de vol do captador do braço, e o fio interligando os pots todos. Não há necessidade de usar fio com malha para essa ligação, e correr risco de adicionar capacitância e ground-loops que vão degradar o sinal :-). 

Levantei o escudo para verificar os captadores esperando um par de 57 Classics, que seriam os originais da guitarra por ser uma SG Standard 2013 e encontrei as cavidades cobertas por blindagem de cobre. Eu entendo isso na cavidade de Strato, pois colocando também a folha no escudo realmente tem uma redução de ruídos dos singles, mas nunca entendi isso nas cavidades de humbuckers. Outro detalhe a observar nessa guitarra são os furinhos das molduras dos captadores, o que confirmei mais tarde. As SG de 2013 vinham com escudo tipo 61 (pequeno) e molduras e não com o escudo de "morcego" como esta. Até prefiro a estilo 61, mas nas SGs pretas o tradicional Standard não me incomoda, então deixei como esta, mas removi toda a "blindagem" de cobre das cavidades. 





Os captadores ambos eram Gibson, mas um deles tinha a estampa da "Gibson USA" no plate diferente do adesivo PAF dos Classic 57. Medindo ambos, constatei realmente que o do braço batia com as especificações do Classic 57 com 7,9k e o da ponte com perto de 14k o que bate com o 498T. 




Para confirmar a minha teoria da elétrica ser a principal causadora do "abafamento" do timbre da guitarra medi os potenciômetros de volume. Ambos teoricamente deveriam ser de 300K cada, o que por si só combinado om os captadores 57 Classic e 498T já deixaria tudo muito gordo e sem os agudos que eu gosto, mas o resultado do que eu meid foi bem longe disso. Um deles acusou o valor de 227k! Isso é pouco até para singles que pedem 250! Não é a toa que a guitarra estava soando abafada. Infelizmente isso é muito comum em potenciômetros da Gibson, por isso sempre prefiro pots CTS mas de marcas como Emerson ou MojoTone pois tem uma tolerância bem menor. 


Depois de re-fazer a elétrica toda, com potenciômetros novos (MojoTone), capacitores PIO Russos de .022 e ligação 50s Wiring e a nossa SG começa a respirar melhor! Sempre tenho cuidado em deixar os fios mais curtos possível e as soldas bem limpas e brilhantes. 

Elétrica pronta!

Ponte ABR-1(esquerda) e Nashville (Direita)
Depois do trabalhão da elétrica, coloquei cordas ajustei tudo e pluguei. Eu queria ouvir o timbre dela sem o cobertor e o resultado não poderia ser outro. Timbre aberto, bonito, com grande extensão dinâmica, agudos graves e o meu twang preferido estavam todos lá na fundamental exatamente como eu esperava. No entanto eu sentia que o ataque ainda podia ser melhor, e mais "sequinho". O único lugar que eu ainda podia ajustar algo era a ponte. Eu não gosto da sonoridade das pontes Nashville tradicionais da Gibson pois acho que o ataque fica meio fofo e amortecido em comparação com a ABR-1 tradicional.  Eu tinha aqui em casa uma ABR-1 Gotoh que eu tinha comprado na StewMac que não necessitava de adaptações, pois os buracos dos "posts" eram do tamanho dos da Nashville. Não é o ideal, mas já ia me dar uma boa ideia da diferença do timbre entre elas pra depois se eu gostasse poderia investir num kit de conversão da Faber ou da Callaham mesmo. Instalei a ponte e maravilha! O ataque ficou muito mais focado nos médios como eu gosto e com graves um pouco mais secos. 

Deu um baita trabalho (1 semana de diversão), mas consegui deixar essa SG com um timbre maravilhoso. Ainda pretendo colocar um par de captadores mais fraquinhos e instalar o kit de conversão da ponte, mas ela já esta excelente. É muito legal podermos enxergar esse potencial numa guitarra que numa primeira impressão soa "estranha", mas tunando e mexendo ela ganha vida. Se nas guitarras mais baratas funciona, por que não funcionaria numa Gibson? :-)