segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Strato HSS - Ultimo sobre o assunto!

Oscar Isaka Jr


      Não sei quantas vezes já postamos sobre o infame "problema" de misturar Humbuckers e Singles na mesma guitarra dividindo o pot de volume. Já abordamos o assunto objetivamente em posts anteriores (Post 1 e Post 2) , mas volto ao assunto uma última vez pra abordar mais uma maneira de tentar minimizar o problema.

No meio de uma discussão sobre o assunto, o meu brother Reginaldo me contactou la do Rio e me mandou o diagrama oficial da Suhr para as guitarras HSS:



A solução é 95% parecida com a que comentamos nos posts anteriores, mas empregando o Super Switch. Com ele podemos usar os valores corretos de Volume e Tone tanto para humbuckers (500k), como para singles(250K) pois existem pads para cada posição da chave. Assim conseguimos de maneira efetiva eliminar o problema da posição 2 (humbucker ponte + Single do meio) relatado no post original, e de quebra ainda conseguimos direcionar os tones dos Singles para o Pot de 250k com capacitor de .047mf e o do Humbucker para um Tone de 500K e capacitor de .022mf.  Um resistor ligado em paralelo com o Potenciometro de 500k garante um valor bem mais proximo de 250K, apropriado para os Singles,  nas posições de 2 a 5 e saindo da jogada na posição 1 garantindo o pot de 500k pro Humbucker! TUDO 100% de acordo e ainda com um Treble Bleed(opcional) de brinde no diagrama :-)!

Simplesmente removendo o resistor, faz com que os singles enxerguem o pot como 500k novamente e ainda tenham o tone de 250k com capacitor de .047mf, que é muito usado no caso de singles mais fortes que possam se beneficiar de um pouco mais de agudos. Da pra brincar e experimentar muito com esse esquema! 

A guitarra que eu escolhi para implementar esse teste foi a primeira Strato que eu montei e que aparece em alguns vídeos que fiz para a JR na época, minha Strat Surf Green. Essa foto é antiga, mas vou detalhar ela num próximo post :-).



Já testei praticamente de tudo nessa guitarra com relação a captadores, e em todas esse esquema da Suhr funcionou muito bem(na foto acima eram Rosar Blues meio/braço e um Seymour Custom78 na ponte), mas atualmente ela esta com um Set de DiMarzio parecido com o que o Andy Timmons utiliza. Na ponte o AT-1 e no braço e meio dois Cruiser modelo Neck/Middle. A recomendação da DiMarzio para os Cruisers é de pois de 250k pois tem a extensão de singles mesmo, porem com zero ruído e um pco mais de corpo nos graves, então ficou show pra usar nessa fiação. O Andy Timmons usa tudo 500k, pois os Cruisers que ele usa no meio e braço são o modelo de Ponte que é mais forte e com mais médios. 

Resultado foi uma guitarra de ótima sonoridade e que pra mim coloca uma pá de cal definitiva sobre o dilema de Strato HSS com ótimos resultados! :-) 

SIM é possível usar Humbucker e singles(ou quase) na mesma guitarra tendo ambos os timbres em sua plenitude.



sexta-feira, 31 de julho de 2020

Testamos as novas Epiphone Std 50s - Inspired By Gibson

Oscar Isaka Jr.

                                                                             (obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)



      As Epiphone sempre são assunto em todo de papo de guitarra, e nós mesmo já falamos muito delas por aqui. Desde a reformulação da Gibson, havia muita especulação sobre a Epiphone e qual a direção  que a marca iria tomar com isso tudo. Após o anúncio da série "Inspired by Gibson" na NAMM do ano passado, fiquei bastante curioso para ver de perto as mudanças. Semana passada eu pude testa-las de perto graças aos meu amigos da Garagem Instrumentos aqui de Curitiba. Conheço o pessoal a anos e o Rafael e o Luciano sempre tem o que é de melhor com um atendimento fantástico. Eles tem sempre uma grande parte da linha a pronta entrega e é só chama-los no WhatsApp ou mesmo pelo Instagram e boa! :-D. Eu marquei os links de contato no nome acima.

Estética e Construção

Esteticamente da pra notar várias diferenças logo de cara. A cor era um Vintage Sunburst muito bonito e bem acabado, com o corpo em 3 peças e o tradicional "veneer" no back pra esconder as emendas. O top de maple é real e também tem uma folha de maple figurado. Tenho curiosidade pra saber se o corpo é solido ou se tem algum alivio de peso, mas não achei informação sobre. Até aqui o padrão foi mantido até onde eu pude ver. 

O Headstock foi alterado pro chamado modelo "Kalamazoo"e remete ao design usado pela Epiphone antes mesmo de ser adquirida pela Gibson lá nos anos 50. Eu particularmente adorei , pois sempre achei o head antigo da Epi um tanto esquisito, achei que ficou mais harmônico visualmente. 

A escala é de um material chamado "Indian Laurel" e parece com um Rosewood mais claro um pouco. Difícil dizer  o quanto isso afetou ou não a sonoridade geral, mas visual ficou "amigável" e familiar e o toque lembra mesmo o Rosewood das Epis anteriores. O acabamento de trastes esta muito melhor (pelo menos nessa que eu pude tocar) e foi possível deixar confortável só com leve ajuste de tensor e altura da ponte. Notei somente um traste (o 15) um pouco mais alto quando abaixei as cordas, mas uma leve retifica resolveria isso 100%. Definitivamente ouve uma melhora nesse ponto da regulagem de fabrica. 

Analisando o braço melhor, tem um shape de C bem parrudo como o modelo 50s pede, e lembra a pegada mais confortável das Gibson. As Epiphone tinham uma tendencia esquisita a ter um braço mais D qdo eram mais gordinhos que me incomodava um pouco e essa é bem na pegada das Gibson 50s mesmo. A construção do braço parece que agora é como nas Gibson americanas em uma única peça de mogno em corte radial (quarter-sawn), sem a presença de colagem do Headstock. Fiz questão de bater uma foto pra mostrar a ausência da "colagem espanhola". Até aparenta ter aquela outra colagem que a gente as vezes encontra nos violões, mas não vi nada na lateral do head. Parece mesmo ser 1 peça. Ponto pra a Epiphone!


Pra finalizar as novas tarrachas são as Epiphone Vintage Deluxe  e lembram muito as Gibson Kluson dos modelos Std (diferente do modelo vintage das Historic) e funcionaram muito bem. O tempo e uso vão dizer sobre a durabilidade, mas não notei nada frouxo ou com folgas como as vezes a ate encontramos na própria Gibson que tem esse modelo de tarracha. A ponte e o cordal são os LockTone aparentemente não sofreram mudanças e são os mesmos das séries anteriores. 


        A elétrica e captadores também ganharam um upgrade com potenciômetros CTS, e os novos captadores ProBuckers da Epiphone, que segundo o site, agora tem covers de Nickel e magnetosfera de alnico II (segundo o site). Conjecturando antes de ouvi-los, so as novas covers já devem dar uma boa melhorada no som deles. Os antigos da Epi era de latão niquelado, e quem já teve Epiphone sabe da grande diferença que dá qdo removíamos. Eu que o Bonamassa deu uns pitacos qdo a Epiphone lançou os modelos pra ele então...

Blza, bla bla bla, mas e o som Oscar?

Eu e o Paulo sempre concordamos que melhor que ficar buscando palavras pra descrever timbre, é ouvi-lo em uma demo então gravei um video curto com ela aqui pra que possamos tirar conclusões.





Opinião do Oscar: Eu sempre fui meio desconfiado das Epiphone que não fossem as series especiais (como as Outfit, Assinaturas, etc) pois sempre estiveram aquém em vários aspectos mas gostei bastante da Std 50s. A pegada e o acabamento estão muito bons e a melhor qualidade de elétrica e captação fizeram com que o upgrade imediato deixasse de ser quase uma obrigação. Apesar de soarem mto melhores em relação aos anteriores da Epiphone, ainda considero que instalar um par de MOJOs por exemplo seria um bom upgrade, e eu adoraria ouvi-la com eles! Uma ponte mais perto da ABR-1 que inclusive a própria Epiphone usa em modelos como a Flying V e a Riviera também cairia como uma luva. A tradicional comparação com os modelos da Gibson Americana acredito nem caber nesse artigo, pois na minha opinião seria comparar laranjas e maçãs. Mas isso de nenhuma forma quer dizer que uma boa Epiphone com bons captadores não seja uma excelente guitarra, com custo bem menor . Eu não iria achar ruim de adicionar ela no arsenal :-)! 


Equipo de Gravação: Amplificador Pedrone Custom Friedman Mod (conto a historia desse amp num proximo post) e Universal Audio OX numa simulação de 4x12 com Greenbacks 30w. Um teco de reverb e compressão e só!


Obs...  Logo vai ter post da SG Muse... :-D


domingo, 22 de março de 2020

Gibson LesPaul Studio Ebony & Christian Bove Custom Hardware

Oscar Isaka Jr.

Desde o primeiro dia de existência (e muito antes de eu fazer parte dele) um dos principais temas sempre foi customização. Uma troca de captadores, um braço mais fino ou uma cor nova, por vezes queremos deixar aquele instrumento mais com a nossa cara, nosso estilo. Era exatamente isso ue essa LesPaul Studio Ebony estava precisando. 

Gibson LesPaul Studio Ebony 2004
 
Comprei essa Studio 2004 pois entrei para uma banda que faz tributo a Ronnie James Dio, ou seja Rainbow, Black Sabbath e DIO (carreira solo), então nada mais apropriado que uma guitarra preta. 





Como a idéia era uma guitarra Hard-Rock / Metal fiz algumas mods básicas:

              •  Instalei um par de Captadores Suhr Doug Aldrich (Apesar dos 498T/490R Gibson serem OK para esse som), 
              • Refiz a elétrica pra instalar pots de 500K( ao invés dos 300k originais), 
              • Instalei um jogo de Tarrachas Gotoh Blindadas e pronto, temos uma LesPaul tunado pra sonoridade Hard/Metal.






Dois shows depois e confirmada a sonoridade que eu queria, resolvi dar um up no visual e não teve jeito senão ligar pro Christian Bove.


Já falamos do Christian várias vezes aqui no Blog e os trabalhos da Custom Hardware (Facebook) nos lindos trabalhos que ele faz de pontes, neckplates e escudos de Strato e Tele, mas eu tinha visto uma postagem do mesmo tipo de customização aplicado a um escudo de LesPaul. Cairia como uma luva para o propósito visual que eu queria. 



Depois de umas mensagens trocadas, acordamos que as peças seriam de Aço INOX, e preto fosco. Seriam o escudo com esse detalhamento floral, o plate do Switch de captadores padrão da Custom Hardware e a capa do Tensor com a logo da Banda. 


O processo começa com o corte a laser das peças nas chapa de aço seguido da gravação dos detalhes onde a peça recebe uma tinta fotossensível e depois corrosão para que fique com esse nível de detalhe.  





O acabamento é todo artesanal e feito pelo próprio Christian Bove.  








O Resultado não poderia ter ficado melhor. :-)


E abaixo já instalado na guitarra. Achei que o visual com o humbuckers com cover ficou ainda mais legal! :-)




Para outras cores e modelos de plates, escudos e etc, só entrar em contato com o Christian via Facebook que tenho certeza que vai ficar show! 

sábado, 7 de março de 2020

Les Paul Kaiser 3



Paulo May

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)





          Depois de mais de 10 anos escrevendo esse blog, posso afirmar com certeza absoluta que a parte mais importante de uma guitarra é, definitivamente, o braço. Simples assim - é através do braço que o nosso corpo se comunica com a guitarra, portanto é fundamental que o mesmo encaixe na mão como se fosse uma luva, na medida do tamanho e extensão dela.

          Antes de me interessar pelos aspectos técnicos das guitarras, eu as toquei por mais de 20 anos e durante todo esse tempo, mesmo mal sabendo o que era um tensor, sempre fui atraído essencialmente pelos braços. Conforto e tocabilidade antes de timbre e estética - e a prova disso é bem clara na minha mente: em 1985 eu toquei uma Les Paul 58 original e detestei a guitarra. Timbre lindo, mas braço gordo demais, quase impossível de tocar. Na época eu estava plenamente adaptado ao braço da minha Fender Telecaster 74, um "C" perfeito, quase um "soft V", sem ombros, com largura no nut de 40 mm. E de repente peguei aquele braço enorme, 43 mm no nut, literalmente um "taco de baseball", como os americanos dizem... Mal conseguia fazer uma pestana... A Les Paul pertencia ao grande guitarrista e amigo Ivo de Carvalho, que a tocava com imensa facilidade e maestria. Ela tinha um timbre muito, muito bonito e essas duas impressões cristalizaram na minha mente: Timbre bonito e braço gordo. Portanto, até aprender mais sobre guitarras, nunca quis ter uma Les Paul.

       Porém... Depois de saber o que era de fato uma "Les Paul", descobrir as lendas e ser contaminado pelos vírus "Burst & PAF", decidi ter uma dessas. Quem acompanha o blog sabe de tudo que rolou com o aprendizado: da Les Paul 1981 (que ganhei de presente de aniversário) de 2010. Da aventura (com a ajuda do meu querido coautor do blog Oscar Isaka Jr) para adquirir a "Gibson CS 59 perfeita" em 2013 (digite "cálice sagrado" na pesquisa do blog, hehehe). Gibson Les Paul Jr. em 2014. De todas o braço mais legal é o da LP Jr, mas ainda um pouco cheio.
Se eu tocar durante 2 ou 3 dias com esses braços Gibson até consigo me acostumar, mas basta meia hora com o braço da minha Tele 68 ou 74 e novamente os Gibsons ficam desconfortáveis. Por isso então, à partir de 2017 iniciamos as tentativas de fazer uma Les Paul com braço na espessura "Fender" aqui no Brasil, com o mestre Eduardo Kaiser.

Em 2017, a primeira Les Paul. Madeiras, especificações, CNC, habilidade do Kaiser e principalmente, muita determinação:


Uma "Deluxe", com mini humbucker na ponte e P-90 no braço. Mogno/maple no corpo e braço de mogno em 3 peças. Mogno comprado em São Paulo, provavelmente brasileiro e pesado - tivemos que fazer cavidades de alívio de peso. Braço com 41 mm no nut, em "C", muito similar na pegada a um braço de strato. Nessa, erramos a angulação do braço, que foi compensada (pela genialidade do luthier Copetti de floripa) com um rebaixamento da ponte. Tocabilidade excelente, 4,0 kg.


A segunda tentativa, em 2018, dessa vez com um braço em "Soft V", ainda com 41 mm no nut:


Ficou linda, puta timbre (humbuckers Rolph, né...), braço muito legal, mas... Ainda não tinha a mesma pegada do braço da Telecaster 68. Mogno novamente brasileiro, pesado, mesmo com os 9 furos de alívio de peso, ficou com 4,3 kg. A essa altura, vi que o mogno conseguido por aqui seria muito provavelmente sempre mais pesado... E também tá legal, né? 3 Gibsons, uma delas CS59 e duas cópias... Pra quem prefere telecaster, tá legal de Gibson... :)

Daí, ano passado, dando uma volta pelo ebay, vi um anúncio de um corpo de Les Paul (feito na China mas de uma vendedor bom, que eu já conhecia):
Ôpa!! Perguntei o peso e se tinha algum tipo de alívio de peso: "entre 1,8 e 2,2 kg" e "não - bloco sólido". "Me envie a peça mais leve que tens aí - tô comprando agora"... :).
O corpo chegou, muito bem feito, espessura do mogno cerca de 3 mm mais fina que a Gibson (ótimo, mais leve e mais ergonômico e essa guitarra não é pra ser réplica). Fiz o tingimento (anilinas) e acabamento (truoil + finíssima camada de verniz spray) aqui, já com uma certa relicagem (pra aproveitar algumas borradas de cola do veneer que não coram corretamente):


"Long Tenon", 1,9 kg no total. Finalmente e pra não ter dúvida dessa vez, enviei o corpo para o Kaiser juntamente com os moldes do braço da minha Telecaster, feitos no meio da primeira, 7ª e 12ª casas. Largura do nut: 39 mm!!! Maravilha! Como gosto muito do timbre da minha Les Paul 81, com braço de maple 3 peças, resolvi fazer a mesma coisa nessa: braço de maple 3 peças (centro invertida) - e com volute para ser mais fiel à 81. Les Paul com braço de maple é outro bicho, outra espécie. Zakk Wylde que o diga! :)
Com os moldes, o Kaiser pode fazer um braço de Les Paul idêntico (largura e profundidade, é óbvio que o comprimento da escala é Gibson) ao da Tele 68:


Resultado: finalmente eu tenho uma Les Paul com a tocabilidade da minha telecaster preferida. Os braços têm a pegada idêntica. E, de brinde, ficou leve para uma Les Paul: 3,75kg!! Pensa aí num cara feliz... :)
Assim como ocorre entre todas as teles e stratos, todas as Les Paul que tenho soam diferentes entre si. Já tenho conhecimento e experiência para detectar uma boa guitarra e essa não é boa, é ótima. Está com um Gibson 57 Plus (que eu modifiquei retirando 230-250 espiras de uma das bobinas) na ponte e no braço um Gibson da minha LP 81 (originalmente horroroso) que o Sérgio Rosar rebobinou para mim nas especificações do Mojo 13 e com fio enamel.
Sinceramente? Entre ela e a Gibson CS59, 9 em 10 vezes pegaria ela pra tocar.
Quando o Jean veio aqui gravar as demos da strato de marupá aproveitamos para fazer uma demo dela também:




Agora eu acho que deu de Les Paul... Essa fechou o círculo com chave de ouro.
Tenho mais 3 novidades de telecaster pra mostrar pra vocês, mas fica pra próxima... :)




domingo, 2 de fevereiro de 2020

Stratocaster Marupá


Paulo May

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)



         Marupá é uma madeira tipicamente brasileira (América Central e do Sul), de baixa densidade e muito utilizada na fabricação de instrumentos musicais. É relativamente macia, cor clara a levemente amarelada, podendo apresentar estrias cinzas. Textura finamente irregular com poros abertos (geralmente exige nivelamento/filler antes da pintura). A densidade (cerca de 0,38g/cm³) é semelhante a algumas outras madeiras "musicais" estrangeiras, como Basswood, Poplar e Swamp Ash. Alder já é um pouco mais denso (o equivalente em densidade ao Alder no Brasil seria o Cedro-Rosa). Outras madeiras locais utilizadas em corpos de guitarra, como Tauari e Freijó geralmente apresentam uma densidade (e peso) maior, por isso o Marupá provavelmente é a madeira mais utilizada no país para corpos de guitarra tipo strato e tele: leve, de fácil manuseio e boa sonoridade. A Caroba (já postada, clique aqui), que gosto muito, é semelhante ao Marupá (pode até ser mais leve) mas acho que apresenta graves mais definidos. Infelizmente é uma madeira um pouco difícil de encontrar.

          Mas a questão é: "O Marupá pode realmente gerar um timbre "Fender"? A resposta é simples: sim, pode. Sua sonoridade é semelhante à do swamp ash e até alder, embora esse último varie muito de peso. Alder leve soa diferente de alder pesado, assim como o swamp ash soa BEM diferente do hard ash. Como regra geral, madeiras mais pesadas tendem a soar com mais médios e graves mais definidos e madeiras leves geralmente apresentam médios algo atenuados e graves mais redondos, eventualmente com leve perda de definição das frequências mais baixas.

          O captador do braço é o ideal para percebermos bem essas diferenças. Já toquei em várias stratos e teles de marupá e todas, sem exceção, soaram de bem a ótimas na ponte e meio porém apenas uma ou duas tinham boa definição de graves na posição do braço. Sempre lembro aqui que o meu gosto pessoal é um pouco fora da escala porque tenho alergia a "timbre gordo". Então provavelmente quando eu disser que o timbre do captador do braço é "um pouco gordo", para muitos pode soar perfeito, ok? :). O que eu acho que ninguém gosta é daquele timbre "gordo e sem definição", "embolado"...
Eu tenho uma guitarra muito singular, com corpo Fender/Jaguar de marupá, braço de maple/rosewood, ponte fixa e dois captadores P90. O timbre do captador da ponte é matador: uma parede de médios saborosos com graves e agudos na medida. Saturada, corta qualquer mix de rock, mesmo os mais densos. Foi com essa guitarra que aprendi a respeitar o Marupá (e também que deveria usar filler antes de pintar, hehehe).


          Meu amigo Jean Andrade, grande guitarrista e outro "louco por guitarra", recentemente montou uma strato de marupá, com direito a captadores Fender Custom Shop 54 no meio e braço e Rosar Hot 43 na ponte (meus preferidos, junto com os Rosar Fullerton). Colocou um braço Fender excelente e ponte com bloco Manara. Como a minha Stratocaster preferida é uma Fender de alder com captadores Fender CS 54 (meio e braço - o da ponte é um Seymour Duncan Alnico II Pro), resolvemos colocá-las lado a lado para uma avaliação mais precisa do Marupá - aí pela questão dos captadores, já que o alder da minha Fender é mais pesado. Também gravamos com a minha Strato de Ash (swamp, mas algo mais pesado) que tem captadores Rosar (Fullerton no meio, True Vintage no braço e Rosar CS Alnico II na ponte). O corpo de Marupá, feito em CNC 100% no padrão Fender, foi comprado na loja online "Toda Guita" do nosso amigo e grande luthier Copetti. Como o Jean gosta mais de tocar do que fazer guitarras, a pintura (linda, Fiesta Red) e acabamentos foram feitos pela equipe do Copetti - daí a garantia de ter uma guitarra com visual absolutamente impecável e profissional :)

         Gravamos uma demonstração comparativa entre essa stratocaster de marupá (captadores:Fender CS 54 e Rosar Hot 43 na ponte), uma strato Fender americana com corpo de alder (captadores: Fender CS 54 no meio e braço e Seymour Duncan Alnico II Pro na ponte) e uma strato partscaster com corpo KNE de Ash leve (pode ser swamp mais pesado ou hard mais leve, peso total da guitarra: 3,6kg), braço Mighty Mite autorizado Fender (captadores Sérgio Rosar: Fullerton no meio, True Vintage no braço e Rosar CS Alnico II na ponte). Áudio captado direto via pré Focusrite ISA One + MAudio M-Track C-Series. Amplitube 4.9 com simulação de Marshall JTM e Fender Princeton Reverb em estéreo.


         Os timbres da strato de marupá e alder são muito semelhantes, boa parte porque ambas estão com captadores Fender CS 54, exceto pelo captador da ponte da Fender - alnico II soa mais magro porém com agudos mais controlados. A strato de ash tem médios algo mais atenuados (scooped) portanto parece soar com mais pontas de graves e agudos. Mas essa é a minha opinião. Ouça e decida.
          Um detalhe interessante é que as 3 guitarras utilizam um artifício para contornar o (quase sempre) ligeiro excesso de agudos dos single coils de ponte de strato: Nas minhas, utilizo o alnico II (atenua as pontas de agudos e graves) e na de marupá o Jean optou pelo Rosar Hot 43 - esse captador é feito com fio mais fino (AWG 43), que também atenua os agudos excessivos. Os Fender CS 54 são perfeitos no meio e braço, mas eventualmente algo estridentes na ponte. Os Rosar da linha "43" e "44" são muito bons para posições de ponte, inclusive Telecaster e principalmente quando desejamos controlar os agudos e definir médios. Não recomendo fio mais fino que o AWG 42 na posição do braço (quanto maior o valor AWG, menor a espessura do fio).

         Pra quem gostou do marupá, gravamos uma demo adicional com músicas conhecidas e com timbres clássicos de stratocaster, pra fortalecer as referências. Só espero que o YouTube não tire do ar por causa de direitos autorais.


Ah! Ia esquecendo: os 3 braços são de maple/rosewood, um Fender original e dois autorizados da Fender. Marupá combina muito bem com maple. Quer avacalhar com o timbre do marupá? Coloque um braço de marfim (Pau Marfim)! :)

sábado, 20 de julho de 2019

Guitarra Kaiser TB-2

Paulo May

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)




         A primeira tentativa já tinha ficado ótima, mas o meu TOC ficou cutucando aquele detalhe do posicionamento dela quando tocando sentado - um pouco desconfortável. Bem, eu tinha dois captadores Gretsch sobrando por aqui e no final do ano passado resolvi ligar para o Kaiser sugerindo que tentássemos modificar um pouco o design do corpo. O Eduardo Kaiser adora um desafio e topou na hora - como já havíamos definido vários detalhes (escala, raio, posição dos controles, jack, etc) na primeira, essa foi mais fácil.

          Tive sorte de conseguir a madeira Caroba para o corpo. Infelizmente o bloco era um pouco menor e acabamos reduzindo a projeção da asa superior, mas a Caroba é tão legal (bem leve, timbre equilibrado com excelente ressonância e muito bonita) que valeu a pena. Para a madeira do braço, aceitei (e não me arrependi) a sugestão do Kaiser de experimentar a Cabreúva, madeira muito bonita e acusticamente viável. Excelente opção para braços. Eu queria um headstock que fosse ao mesmo tempo esteticamente pareado com o corpo e mantivesse as cordas retas, pois acho que aquela angulação pós nut típica das Gibsons não é desejável e favorece a desafinação. Conseguimos chegar numa excelente solução: as cordas estão retas por todo o percurso, do stoptail às tarraxas. Angulação do braço colado é a mesma da Gibson e a do headstock, um pouco menor. 

          Assim que abri o pacote com a guitarra, fiquei impressionado com a beleza das madeiras. A minha ideia era fazer um acabamento com cores clássicas dos carros "fishtail" da década de 60, mas num primeiro momento não tive coragem de pintá-la com cor sólida. Resolvi fazer um leve acabamento com TruOil e montá-la. Ficou assim (na foto, do lado do primeiro protótipo):



          Porém, esse acabamento natural não durou um mês, hehehe. Resolvi pintá-la de Sonic Blue mas aos 45 do segundo tempo o Jean Andrade apareceu aqui em casa e me convenceu que essa guitarra tinha um astral mais anos 80 que 60 e o preto seria a cor mais de acordo. O nome "TB" quer dizer "Tubarão", minha cidade natal e nome da banda que tive nos anos 80., então... Vamos de pretinho básico :).




          Quem acompanha o blog sabe que o nosso lema aqui é "faça você mesmo / DIY", e 90% das vezes eu mesmo faço o acabamento das minhas guitarras. Infelizmente só posso usar tinta em spray (eventualmente pincel/rolo) e conseguir um acabamento profissional com spray em lata é f.... O preto nunca foi muito problema - 2-3  demãos de preto e mais umas 4-6 de verniz incolor (lixando periodicamente) e no final dá pra enganar bem. Porém, mesmo fazendo isso há anos, nessa guitarra tive vários momentos de puro azar: tinta escorrendo, umidade do ar, enfim, a bruxa tava solta. 
Mas acabei e a guitarra ficou bem legal. Nesse design, é 100% anatômica e o eixo horizontal está equilibrado (o headstock não fica apontando pra baixo, coisa comum em algumas SGs). A Cabreúva é tão bonita que optei por deixar a parte traseira do braço crua (apenas umas duas demãos de Truoil):


          Até porque o braço sem tinta é bem mais liso e fácil de tocar - não gruda a mão :)

Não me canso de elogiar o Eduardo Kaiser aqui no blog. Além de tocar vários instrumentos, principalmente sax e guitarra, ele é um luthier fantástico. Evoluiu em poucos anos o que normalmente requer uma década ou mais. O nome disso? TALENTO. :)



         A sonoridade dela é 80% dependente dos captadores filtertron Gretsch. Baixa saída, claros e definidos. mas algo anêmicos Humm, já os havia instalado numa Cabronita e na minha opinião, acho que eles precisam de um pouco de força, principalmente se quisermos tocar algo mais pesado/saturado. Bem... Já que tô falando em "talento", talvez eu consiga convencer o Sérgio Rosar a rebobinar esses filtertron para deixá-los mais agressivos, tipo o que a Fender fez com os "Fidelitron" ou o TV Jones Classic Plus.

         Pretendo postar mais umas 2 ou 3 guitarras novas e sei que o pessoal vai pedir demos pra poder ouvir a sonoridade delas. Bah... Isso é uma das coisas que acabam atrasando posts, mas eu prometo (ixi...) que assim que acabar de postar essas guitarras, vou produzir uma demo dos timbres :)



segunda-feira, 3 de junho de 2019

3 Amps "Dumble-based" Brasucas


Oscar Isaka

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)

Dumble Overdrive Special

Mês passado tive a oportunidade de ter comigo 3 amps de distintos fabricantes nacionais porem com a proposta semelhante, entregar a famosa sonoridade dos amps fabricados por Alexander Howard Dumble (leia mais sobre ele aqui - clique). E mais uma vez eu to aqui pra postar sobre eles.. rs

Eu e o Mateus Leite (@mateusleite.insta) combinamos de ouvir os amps para constatar as diferenças das sonoridades. O Mateus é um baita guitarrista, e já que estávamos no estúdio, registramos uns takes com os mesmo riffs a fim de poder ouvir lado a lado. Tocamos bastante nos amps, entendemos bem a proposta, feel e sonoridade e tentamos extrair o melhor timbre de cada um deles. Eles são distintos o suficiente que não fazia sentido uma comparação com mesmas regulagens nem nada disso. 


T Miranda Overdrive 35s
Segundo o próprio Távio Miranda, ele é baseado no Overdrive Special clássico. O site mesmo não diz qual modelo, mas o mais notável desse modelo é o formato LunchBox(Sem reverb), sendo pequeno e portátil pra levar a qualquer lugar. Sendo o modelo testado aqui de 35W, tem um ligeira diferença na resposta pros outros maiores de 50W mas fala muito bem e entrega o DNA Dumble! Essa versão que testamos é umas das primeiras, e o próprio Távio Miranda recomendou testar a versão nova, já com 50W e visual ja atualizado e opção de Reverb, chamado de "Overdrive Special" (Link). A Versão que tem reverb disponível é o Head maior (Link).

T Miranda Overdrive Special (Versão Nova)
*Embora o vídeo mostre um Overdrive 50s no chassis, o Távio me confirmou que ele é um 35s mesmo. 

Pedrone Overdone Special V1
O Overdone é baseado no TwoRock Custom Reverb Signature, que por sua vez, também já é baseado no Overdrive Special. A diferença é que a TwoRock inseriu um loop de efeitos valvulado (Derivado do Dumbleator) e um circuito de reverb com tanque de mola também valvulado (reverb Fender Clássico). O que tocamos é a 1 versão do Overdone (Link) com 50W, que já sofreu algumas mudanças e hoje tem um design um pouco diferente, porém mantendo a mesma característica sonora segundo o próprio Pedrone. Já fizemos um review desse Amp aqui mesmo no blog. 

Pedrone Overdone (Versão Nova)

Explend Diamond Drive

Talvez o mais novo da gangue, o Explend Diamond Drive (Link) se diferencia um pouco dos anteriores. Isso por que ele se baseia no Dumble Overdrive Special #183 famoso por ter válvulas EL34 no Power. O Diamond Drive contém o loop passivo, não conta com reverb (nem como opcional) e 50W de potência, assim como o Overdone.

Explend Diamond Drive

Para a gravação, fomos ao estúdio 3x7 (Facebook)  aqui de Curitiba onde utilizamos o seguinte setup:


  • A guitarra foi uma Fender Custom Shop 57 Reissue Relic ano 2006 com captadores originais (Fender Custom Shop 50s).
  • Utilizamos 2 Caixas 1x12, uma clone de um Combo Fender Deluxe Reverb open back e outra Clone da TwoRock Open Oval Back ambas equipadas com Falantes Celestion G12-65. Interessante notar a diferença de resposta dos amps com caixas diferentes que ficou bem nítida no vídeo (ouça com fones). Ambas as caixas fabricadas pela RoxStage.
  • Um microfone Sunheiser 906e foi utilizado próximo ao falante (mais ou menos 4 dedos) e ligado a um preamp SSL Alpha VHD direto no ProTools. 
  • Para captar o som da Sala (excelente por sinal), utilizamos um Neumann U84 ligado a um preamp Chandler TG2500 direto no ProTools. 
  • Só foi utilizado um compressor leve para equilibrar os volumes no vídeo e mais nenhum tipo de EQ ou processamento.

O resultado ficou muito legal! As nuances sonoras de cada modelo ficaram bem presentes e claras (novamente, ouça com fones :-) ) de modo que uma comparação de melhor ou pior fica injusta. O mais adequado seria, qual melhor se encaixa ao meu gosto/timbre. Justamente como o Dumble fazia com seus amps :-). Obrigado mais uma vez ao Mateus por ter gravado os takes !




domingo, 10 de junho de 2018

Timbre gordo, abafado, sem definição? Que tal um filtro de graves?


Paulo May

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)




        "Deus do céu - por que eu não sabia disso?" PQP, mais de 20 anos me incomodando com timbres gordos e sem definição e a resposta (pelo menos pra 90% deles) é um simples circuito com um capacitor e um resistor que custa menos que 5 reais... PQP!
Novamente, a culpa é do meu velho e mau hábito de generalizar minhas conclusões - como eu não gosto de equalização ativa, principalmente em guitarra, generalizei e passei a repudiar também a EQ passiva, que é outro universo.  

        O próprio controle de tonalidade nas guitarras é um circuito de EQ passiva, pois "filtra" os agudos, ou deixa passar os graves (low pass filter). Quanto maior o valor do capacitor, mais baixo inicia o corte de agudos, por isso singles, que são mais agudos, geralmente utilizam capacitores de 0,47 uF e humbuckers, 0,22 uF. Simples, mas nunca usei o corte de agudos nas minhas guitarras. O potenciômetro de tonalidade da minha telecaster 68 não é girado há mais de 20 anos, hehehe...
Sempre acreditei que guitarra boa e captadores bons não precisam de equalização porque a sonoridade essencial já é boa e um dos fundamentos desse blog é tentar entender como funciona esse processo que chamamos de "timbre". 

Assim, um dos maiores problemas que sempre enfrentei foi o de guitarras com timbre "gordo", "abafado", "embolado". Por que algumas guitarras soam assim? Seriam as madeiras, o circuito elétrico, captadores, hardware? Anos e anos nessa labuta e ainda sei muito pouco, infelizmente. Mas tenho 99% de certeza de que a estrutura da guitarra (madeiras + tipo de construção) determina a "alma" dela: gorda/grave, normal ou magra/aguda. Os captadores têm pouca influência nesse padrão, para pior ou melhor. Ou seja, se uma guitarra tem a alma grave, ela sempre soará grave. E acreditem, pelo menos 90% das guitarras abafadas não sofrem de falta de agudos, mas sim de excesso de graves, que entopem o input dos amps, pedais e obviamente, nossos ouvidos. 

Em relação às guitarras de alma gorda/grave, a minha abordagem estava completamente errada - durante anos eu tenho tentado artifícios para aumentar os agudos nessas guitarras, mas o pulo do gato aí é "CORTAR OS GRAVES". Simples e óbvio, entretanto o idiota aqui não viu isso... 

Bem, ao longo desses anos eu li vários artigos sobre circuitos passivos de corte de graves (high pass filter ou filtro de passa alta - deixa passar as frequências altas e filtra as baixas, a partir de um ponto de corte definido). A Fender Jaguar tem uma chave de high pass e o Leo Fender aprimorou esse conceito nas G&L com o sistema "PTB" (Passive Treble/Bass). Sim eu lia, mas infelizmente passava batido porque como falei, a ideia de "equalizar" o timbre me soava artificial demais. Já doei algumas guitarras por causa dessa "alma gorda/grave", mas hoje sei que facilmente resolveria esse problema com uma simples modificação no pot de tone, que transforma o tradicional filtro de agudos em um filtro de graves.

Então é isso, quase todas as guitarras têm um filtro de passa baixas (low pass), que é o controle de tonalidade, mas pouquíssimas tem um filtro de passa altas (high pass). Que coisa louca - a não ser que você seja um cara muito fã do "woman tone" do Eric Clapton ou fanático por aquele timbre obeso, geralmente com fuzz, como às vezes o do Dan Auerbach, tipo "proto-modern-white-nerd-cool-blues", provavelmente um filtro de high pass/bass cut será muito mais útil. 

        Quando resolvi testar o circuito, na Roland Fishtail, um post no blog do americano Aaron Lum foi fundamental (clique). Os esquemas que estão aqui são dele e eu modifiquei o de Les Paul para colocar o bass cut em ambos os captadores. Como falei no post da fishtail, existe um site com uma calculadora automática dos valores do capacitor e resistor (sempre ligados em série) para se obter um corte de graves numa frequência específica. Já coloquei esse sistema em 4 guitarras e posso adiantar que um ponto de corte entre 60 e 110 Hz é o ideal (mais musical) para a maioria delas. O que percebemos na real é um aumento da clareza e definição do timbre - as notas embolam menos e sobra mais espaço para os médios e agudos no espectro da percepção sonora. Ainda não precisei utilizar o filtro em captadores singles comuns, de tele e strato, mas em humbuckers ou P90 de braço, o efeito é fantástico - limpa tudo. 
Especificamente, devo "travar" em duas combinações: 
1) Resistor 680 kohms (kilohms) + Capacitor de 2.2 nF (nanofarads), com ponto de corte de 106 Hz 
2) Resistor 470 kohms (kilohms) + Capacitor de 4.7 nF (nanofarads), com ponto de corte de 72 Hz e 
O valor do capacitor é o que mais influencia aí: quanto menor, mais alto é o ponto de corte de graves. Atenção para os valores dos capacitores - quando for comprar especifique "NANO" farads (nF) ou faça a conversão para micro farads (uF).

(OBS 26/10/18: depois de colocar esse circuito em mais de 10 guitarras, cheguei à conclusão que a combinação Resistor 680 kilohms + Capacitor 2.2 Nanofarads é a que mais funciona, a mais musical. Raramente preciso diminuir muito o nível de corte do potenciômetro - na maioria das vezes, deixando entre 6 e 9 os graves feios e obstrutivos são domados.)


O filtro pode ser colocado em vários pontos do circuito: através de uma chave liga/desliga, direto na saída do jack ou no hot do captador específico ou, se quisermos mais controle sobre a intensidade do filtro (ideal), acoplado ao pot de tonalidade (que obviamente perderá então a sua função clássica de corte de agudos). Em 3 guitarras coloquei no pot de tonalidade e recomendo pots 500k "B" (lineares). Os "A" (logarítmicos) são chatos para localizar o ponto. 


Obs: Nesse esquema coloquei um resistor de 1 mega ohm. O ideal seria o de 680 kilo ohms - um pouco menor.


Em uma delas, direto no hot do captador do braço, logo antes de ligá-lo na chave:



A ligação básica é essa de baixo: o sinal que vem do captador entra por uma perna do capacitor que está ligada à uma das pernas do resistor - esse ponto é a saída do sinal já filtrado, é ali que ligamos ou no seletor ou direto no jack de saída. A outra perna do resistor é ligada no terra, kkk - é por ali que as gorduras sairão... :). Esse é o famoso "Circuito RC de Passa Altas", coisa básica pra quem conhece eletrônica mas complicada pra guitarristas.  


Seguem os esquemas para guitarras com fiação tipo Les Paul:

Estilo LP, com master tone para corte de agudos e outro master tone para corte de graves




Estilo LP, com ambos os pots para corte de graves, sem corte de agudos. Nessa opção podemos especificar valores diferentes e/ou a intensidade de corte para cada captador.

          Quando o circuito é acionado, a diminuição dos graves gera uma percepção auditiva de "diminuição de volume",  que de fato ocorre já que há perda da energia das frequências baixas. Nada dramático e é só uma questão de aumentar o volume do amp se realmente necessário. O mais importante é que muitas guitarras que soam gordas e sem definição podem ter agudos e médios bonitos que não se manifestam devido ao excesso de graves. Se a guitarra não soar bem com essa manobra, é bem possível que ela seja ruim de fato, hehehe. 

         A única coisa que lamento é não ter aprendido/aplicado isso antes. Esse post deveria ser um dos primeiros do blog...


domingo, 18 de março de 2018

Mosca Branca

Paulo May

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)



          Quando estávamos combinando a gravação da demo da Les Paul Kaiser/LPG, o Jean me disse que, além da sua nova strato com captadores Fishman Fluence, traria uma guitarra muito interessante mas não mencionou qual - seria uma "surpresa"... :)

A segunda guitarra era uma stratocaster japonesa Tokai de 1984. Bem, qualquer um que já leu um pouco sobre a história da guitarra sabe sobre as cópias japonesas de marcas famosas, principalmente Gibson e Fender que proliferaram nos anos 70. Marcas como Ibanez, Greco e Tokai faziam cópias às vezes melhores que as americanas - talvez até porque nos anos 70 a qualidade das Fender e Gibson realmente estava baixa.  Em 1977 a Gibson entrou com uma ação judicial (Lawsuit) e conseguiu a proibição de cópias do seu headstock clássico (open-book-style).

          Por isso hoje em dia usamos o termo "pré lawsuit" para especificar o período anterior à proibição. A Fender só conseguiu proteger os seus headstocks (corpos não são protegidos, Fender ou Gibson) bem mais tarde, por isso em 1984 ainda havia cópias orientais exatas de stratos e teles vintage e essa Tokai é um belo exemplo.

          As cópias Tokai de strato, principalmente entre 1977 e 1987, geralmente são excelentes. Foi uma Tokai de 1981 que provocou pânico na Fender na época - eles não conseguiam fazer uma Fender tão boa quanto aquela Tokai!
Essa Tokai do Jean é o modelo "Goldstar Sound T60" e ele já pesquisou:

Jean Andrade: Essas Tokai de 1984 são cópias das Fender L Series de 1964 (inclusive vêm também com o serial number começando com a letra L)
A minha é uma TST60, com captadores em alnico "E stamped". A principal diferença:  a TST60 e superiores (até TST120) têm captadores de alnico "E stamped" (os melhores e mais caros feitos pela Dimarzio, réplica dos fullerton da Fender). A TST 40 tem captadores cerâmicos, enquanto a TST50 tem os captadores "U stamped", também de alnico, mas com saída um pouco mais alta.
A minha Tokai tem os originais "E stamped" no braço e meio, sendo que o captador da ponte foi substituído por outro dimarzio antigo. A única diferença da TST60 para a TST80 é que esta última tem finish em nitro.
"Most of the good Tokai pickups have grey bottoms with separate pole pieces. The early ones are stamped "U" and they are medium hot, about 6.2K ohms. There are grey bottoms stamped "E" and they are more vintage output, about 5.6K ohms and these were fitted to more expensive models. The top of the range Tokai strat copies were fitted with DiMarzio VS-1 pickups and they have black bottoms.
Se bobear, o da ponte da minha pode ser um desses VS-1...hehehe.



A tentativa de deixar a palavra Tokai semelhante à Fender é quase cômica, mas tive que rir do "Oldie But Goldies" no lugar do clássico "Contour Body", hehehe...

... Mas parei de rir e tive um calafrio na espinha depois de tocar apenas cinco notas no captador do braço... Foi um daqueles momentos raros, raríssimos, onde percebemos que estamos diante de alguma coisa definitivamente superior, única. Toquei mais alguns acordes e, confirmado: eu estava diante de uma "Mosca Branca". A segunda sensação que tive, depois da estupefação, foi de frustração - essa guitarra não era minha! PQP! Guitarra leve, super ressonante, extremamente bem feita, peças e madeiras de primeira. A minha melhor strato (Fender 97 modificada) é a única que pode ser comparada com ela (e não é melhor, só chega perto). Todas as outras perdem feio, independente dos captadores e madeiras...
E quando eu falo "mosca branca" não estou me referindo às Tokais Goldstar Sound de 1984, mas à essa guitarra especificamente. Pela minha própria experiência, sei que posso pegar 10 Tokais do mesmo modelo e ano e provavelmente nenhuma soará como essa.

O corpo é de alder muito, muito leve, braço de maple com uma camada fina, quase um veneer, de rosewood - e esse é um detalhe que é igual ao da minha telecaster: rosewood fino e curvado com a escala - não é "slab". Capacitor cerâmico grande, bons pots, ponte e tarraxas clássicas, bem no padrão Fender de 1964.
E por falar em Fender 1964, nesse vídeo abaixo, da Norman's Rare Guitars, o Mark Agnesi conta em detalhes a história das Fender "L" series - muito legal. Cheque o ícone "legendas" para entender melhor o inglês.



         Não vou perder tempo tentando explicar e descrever a razão do timbre dessa Tokai ser tão excepcional, mas ela tem a mesma mágica da minha Tele 68: a dinâmica ampla, complexa, multidimensional. A mesma nota tocada 10 vezes soará diferente 10 vezes, cada uma com sua cor e sabor. Impressionante.
E também não vou contar essa história agora, mas se eu fosse um pouquinho mais sociável e menos rabugento, poderia ter tido contato com essa guitarra ANTES do Jean colocar os olhos nela, hehehe...
Mas terei o consolo que ela estará por perto e poderei tocá-la de vez em quando :)




No próximo post vou convidar o Oscar e discutiremos mais profundamente essa questão das moscas brancas, com exemplos, fatos e declarações de grandes mestres da luthieria, mas por enquanto vocês ficam com o vídeo da Tokai do Jean em ação:


PS: E aquela outra strato do Jean, com os captadores Fishman Fluence? Excelente guitarra, gostei muito dos captadores. ultra silenciosos, timbre clássico, típicos de uma strato. Mas... do lado dessa Tokai, o timbre dos captadores Fluence soou linear demais, bonito demais, hi-fi demais... Ou seja, falta aquela sujeirinha mágica, imprevisível, que raramente ouvimos. E, só ouvindo para vislumbrar a dimensão da coisa...


PS1: Contribuição do leitor "unknow" - especificações dessas séries da Tokai:

ST-42 (1977 - 1979) – U-shaped neck, chrome hardware, non-Kluson type tuners, ceramic pickups, 3- or 4-piece sen ash body with poly finish
ST-45 (1980 - 1981) – U-shaped neck, chrome hardware, non-Kluson type tuners, ceramic pickups, 3- or 4-piece alder body with poly finish
ST-50 (1977 - 1984) – U-shaped neck, nickel hardware, Kluson-type tuners, alnico “E,” “U,” “V” or “VI” pickups, 3-piece alder or sen ash body with poly finish
ST-60 (1977 - 1984) – V shaped neck, nickel hardware, Kluson-type tuners, alnico “E,” “U,” “V” or “VI” pickups, 2-piece sen ash or alder body with poly finish
ST-70 (1982 - 1983) – U-shaped neck, nickel hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS-1 alnico pickups, 2-piece sen ash or alder body with poly finish
ST-80 (1979 - 1983) – V-shaped neck, nickel or gold hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS-1 alnico pickups, 2-piece sen ash or alder body with nitro finish
ST-100 (1979 - 1983) – V-shaped neck, gold hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS1 alnico pickups, 1- or 2-piece sen ash body with nitro finish
ST-120 (1982) – V-shaped neck, gold hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS-1 alnico pickups, 1-piece ash body with nitro finish