quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Entrevista LPG: Amplificadores Pedrone

Oscar Isaka Jr
          Recentemente tivemos o prazer de conhecer e conversar com ninguém menos que Augusto Pedrone, idealizador e proprietário da "Pedrone Amplifiers", que tenho certeza, todos já ouvimos falar.
O Pedrone nos contactou há uns dois meses com algumas perguntas sobre uma Strato que estava montando e depois de muitas conversas via FaceBook combinamos de gravar algo pro Blog. Fui até São Paulo e durante uma manhã de sábado batemos um papo bacana sobre quase tudo e o resultado vocês conferem aqui em mais uma Entrevista LPG: :-)


          Durante a visita eu pude testar e ver pessoalmente os modelos que estão no vídeo e posso dizer que fiquei abismado com a qualidade dos amps. Superou e muito a expectativa que eu tinha, bem como todo o conhecimento técnico e experiência do seu idealizador. O Pedrone além de um cara muito atencioso e gente fina, sabe muito de tudo o que faz e não dá ponto sem nó. A construção é impecável (a placa que vc`s podem ver no vídeo é do Pegasus) tanto na placa como no ponto a ponto e a sonoridade excepcional.


Overdone
É uma pena que não tivemos tempo para gravar áudios detalhados de todos os modelos, mas já adianto que o SuperClean é fenomenal. O timbre BlackFace que eu mencionei no post sobre o Deluxe Reverb está lá em todo seu esplendor com a vantagem de poder ser usado com pedaleira (tem um Return no power). O detalhe que ele faz o Super Clean também com as válvulas KT88 que tem um pouco mais de punch e graves que a 6L6 clássicas. Eu pude tocar com ambos e gostei muito.

 SUPERCLEAN



O Pegasus é um show também. Ele conseguiu unir o JCM800 com o PLEXI e o que temos é basicamente um amp com dois canais sendo que o PLEXI tem volume CLEAN suficiente e o JCM800 além do modo clássico tem o modo AFD, onde ele adiciona um estágio a mais de ganho de válvula pra dar ainda mais saturação. Detalhe que não há sobras de agudos como observamos em alguns Marshall e clones. Tudo muito bem tunado e pensado.
PEGASUS



O Buffalo é o novo modelo lançado na última ExpoMusic. Derivado do modelo SLO 3 Mod antigo, é o Soldano com mais opções de canais e timbres que vão desde o Clean (clean mesmo), passando pelo Crunch e toda a fúria do HighGain. O Pedrone basicamente pegou o timbre do Soldano SLO e adicionou mais funcionalidade.

 BUFFALO



O Overdone... Pootzz.. esse é um caso a parte! Sou suspeito pra falar de Dumble mas a cara dele diz tudo. Faço das minhas palavras as de Kleber Kashima que também testou o Overdone "Foi a primeira vez que ouvi a complexidade e riqueza do TwoRock em outro amp".

 OVERDONE


          Combinei com o Pedrone que faríamos alguns reviews dos Amps de linha aqui pra vocês caso haja interesse, com mais tempo para análise das possibilidades, testes com várias guitarras e situações.
Em todos os modelos que eu testei pude observar algo que eu não vejo/ouço com muita frequência na maioria dos amps por aí: a transparência nos médios e graves. Ouve-se tudo, os harmônicos, a dinâmica, sem sobras de agudos e sem aquele som meio entupido de agudos pálidos. E eu acredito que isso se deva a qualidade e cuidado com componentes, não só do circuito do amp, como Trafos. É a principal diferença que eu ouvi no meu Deluxe Reverb quando instalei os transformadores Mercury. Vale lembrar que o Pedrone usa trafos Smithers, fabricados pelo Leando aqui mesmo no nosso Brasil ! :-)




É realmente muito bom poder conhecer um cara como o Augusto Pedrone entregando produtos de tão boa qualidade. A preocupação em oferecer nada além do melhor fica muito clara em tudo sem se prender a nenhum tipo de paradigma.

Uma manhã de sábado em que o LPG não só ganhou mais um parceiro, mas também um grande amigo. Vida longa ao Pedrone e que ele possa continuar nos entregando esses produtos maravilhosos!
Contato:
Pedrone Amplificadores
Telefone (11) 3672-3783 (segunda a sexta, das 9:30 as 18:30)
Facebook - www.facebook.com/PedroneAmplificadores
Canal do Youtube - www.youtube.com/user/pedroneamps
Google + - www.google.com/+PedroneBr
Email - contato@pedrone.com.br 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Baixista e.... Político! Putz!

Paulo May
Esse aí de baixo, com pinta de político é baixista e meu irmão...


Vou começar com uma piada múltipla sobre baixistas só pra aliviar esse banner aí de cima:

Quantos baixistas são necessários para trocar uma lâmpada?

1. Um, mas o guitarrista tem que mostrar como se faz.
2. Não se preocupe. Deixe sem. Ninguém vai notar.
3. Seis: um para trocá-la e cinco para bater no guitarrista solo que está roubando a luz.
4. Nenhum. Eles deixam o tecladista fazê-lo com a mão esquerda.

Depois, uma explicação antecipada pelo post: já disse aqui inúmeras vezes que não fazemos propaganda injustificada. Quando apoiamos alguém ou algum produto é porque há sempre um mérito intrínseco confirmado pessoalmente por nós. Embora eu possa garantir, mais do que em qualquer outro post o mérito da questão, o assunto é "off topic", por isso peço a permissão (e consideração) de vocês para o que segue:

          Uma das melhores ideias que tive na vida foi aos 17 anos: ensinei meu irmão (André/Deka May) a tocar baixo! KKK!
Não que eu fosse bom o bastante pra ensinar alguém, mas ter um baixista disponível o tempo todo era (e ainda é) um luxo pra poucos... :)
Resumindo uma história igual a milhares de outras, montamos uma banda (Ratones e depois Tubarão) e durante mais de 15 anos tocamos juntos, fizemos centenas de shows e gravamos alguns discos.
Como a maioria dos irmãos, temos personalidades distintas. Ele é calmo, extremamente ponderado (libriano...), francamente otimista e solícito. Eu, ansioso, polarizado, pragmático e teimoso. Ele com o pé no chão e eu com a cabeça no ar.
Obviamente ele que passou a cuidar da estrutura da banda e o porra louca aqui ficou com a parte "artística". Não foram poucas as vezes que brigamos por causa dos direcionamentos que deveríamos seguir, mas o tempo mostrou que quase sempre ele tinha razão. Fosse por mim, no primeiro ano já estaríamos falidos - teria gasto tudo em equipamento! :)

Irmão é foda. Quem tem sabe disso. A gente às vezes até cai na porrada, mas irmão é irmão - sempre o primeiro a nos levantar quando caímos.

As duas fotos/colagens que seguem mostram nosso primeiro (1980?) e último (2003?) show oficialmente como banda, ambos na nossa cidade natal, Tubarão/SC. 



      1980                                  


2003

          O Deka é um ano mais novo que eu, portanto convivo com ele há exatos (ele nasceu em 30/9) 53 anos - tempo suficiente pra conhecer profundamente a sua essência, seu caráter. E garanto-lhes, seu caráter é irretocável, de alta magnitude. Provavelmente herdou do nosso pai, falecido há 3 anos, esse lado honesto, positivo e amável diante das pragas da vida. Deve ter herdado também - nesse caso infelizmente penso eu - a vocação política.
A política roubou alguns anos da vida do meu pai e já nos fez perder até a própria casa devido a dívidas de campanha. Além disso, via de regra não gosto de políticos, portanto considero o político "profissional" um estorvo absolutamente desnecessário.

Mas agora o Deka é candidato a deputado estadual (Santa Catarina) e, como eu disse, irmão é irmão, portanto tô com ele onde quer que ele vá, mesmo nesse esgoto que está a política no país. Ele tá convicto que precisa encarar esse desafio insalubre para tentar melhorar algumas coisas para as pessoas (e em especial, os músicos de SC).
Bem, talvez o estado esteja realmente precisando de um cara honesto, prático e otimista pra dar uma equilibrada geral.

Diferente do Deka, sou (não nego, me odeio por isso e tô batalhando pra melhorar) um cara orgulhoso. Detesto pedir algo para as pessoas, mesmo as mais íntimas, mas dessa vez me curvo, peço desculpas novamente pelo post "político" e se tu és de Santa Catarina, peço o teu voto, de coração e confiança, para o meu irmão Deka May.
O número é 11222 - mais fácil de lembrar que um acorde gavetão de dó maior :)

Abraço e muito obrigado!

Paulo May


PS: Ele é baixista... Ninguém é perfeito! KKK!





quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Amp Talk: Fender 65 Deluxe Reverb Reissue


Oscar Isaka Jr.

     Já faz algum tempo que queria escrever sobre esse amp aqui. Talvez um dos amps mais ouvidos em gravações de de Blues/Rock/Country desde os anos 60, o Deluxe Reverb virou um ícone do timbre Fender da era BlackFace. Sempre fui fascinado pelo timbre Fender BlackFace e o Deluxe Reverb sempre me soou a solução perfeita desse DNA em um combo com 22W. O post é um pouco longo, mas aqui vai ! :-)

O Deluxe Reverb é caro e difícil achar aqui no BR, mas dei sorte e o meu amigo Fernando da Musical World facilitou um bom negócio num reissue usado que pertenceu a um guitarrista de uma dupla sertaneja aqui de Ctba. Era dos modelos mais recentes que já vinham equipados com o falante Jensen C-12K (cerâmico) e nem pensei muito. Arrematei o bicho! O clean Fender estava todo lá, mas quando aumentei o volume pela primeira vez quase cai pra trás, soava maravilhoso no volume 6-7, com aquele "clean/crunch" Fender e uma dinâmica e explosão incríveis. Tocando mais com ele, percebi que essa era a única configuração que ele soava realmente bem. O clean puro era cristalino como deveria ser, porém as vezes meio magrelo e vítrico no canal "Vibrato" e sem sal nenhum no canal normal.

Novamente, em ambos quando plugada uma Strato e mandava ver no volume, o timbre e harmônicos estavam lá, mas comecei a notar que o "Super Clean Gordo" de Fender (a la Eric Johnson) não aparecia... Meu pensamento era de que eu conseguiria a riqueza do clean do Twin (quem já tocou num sabe que o timbre aparece com volume no 4 pra frente) mas com volumes bem mais moderados, considerando leves diferenças pelo POWER diferenciado. O que eu encontrei foi um crunch Fender ótimo e um clean bom mas meio magro. A grande verdade é que o DR sempre foi famoso em gravações de blues e country justamente por esse timbre "crunch" que ele atinge facilmente em volumes moderados. A 6V6 ajuda muito nesse ponto, pois é uma válvula que satura de maneira muito agradável. Então onde estava o clean cheio e bonito? Pensei até que minhas referências estavam erradas e que eu estava procurando algo no amp que ele não entregaria mesmo, tipo "como um clean de Twin reverb que tem 80W vai estar presente num amp de 22w?" Mas a resposta é que isso tudo estava lá, porém meio escondido... rsrsrs!


Claro que fui dar uma pesquisada na internet sobre as re-edições do Deluxe Reverb e de cara é possível achar opiniões similares às que eu tive, de que o timbre é meio anêmico e soa magrelo no clean e que encorpava e aparecia com bom volume. O legal dessas opiniões dos gringos (com os devidos filtros é claro) é que muitos deles comparam as re-edições com os amps reais da época, que ainda têm em bom número nos EUA, e desossam os modelos novos para replicar o timbre igual ao dos originais. Ainda bem que com amps isso é menos complicado, pois não tem nada de material orgânico (madeira) envelhecido/colado e quase tudo dá pra replicar com o que temos hoje.

O primeiro comentário geral lendo sobre o DRRI, é que a re-edição vem de fábrica com BIAS muito "frio", ou seja abaixo do ponto considerado "ideal" de operação das 6V6. Vale uma nota que o ponto "ideal" teórico pode variar de acordo com o gosto do freguês, mas via de regra o senso comum manda regular o BIAS em torno de 70% da dissipação total da válvula. A razão deduzida pelos gringos (nada oficial da Fender) para isso é que as 6V6 atuais não suportariam altas correntes como as antigas 6V6, e por isso a Fender teria alterado o transformador do DRRI e regulado o Bias mais frio, gerando esse som mais magro mesmo em baixos volumes. É tipo usar um Twin Reverb com volume no 1. O som não é RUIM, e tem bastante gente que usa o DRRI de fábrica feliz da vida e ama o bicho, mas não é o mesmo tipo de Clean que ouvimos na intro de "Manhatan" (exluindo aqui o Echoplex :-) ).

Pois fui eu me meter: o DRRI (Deluxe Reverb Reissue) tem um potenciômetro para fazer essa regulagem acessível pela parte inferior do chassis. O problema é que não tem um BIAS point pra espetar um multímetro e medir isso, por isso tive que comprar um BIAS Probe da EuroTubes. O meu é esse modelo da foto, simples para uso com um multímetro simples.



A leitura original estava em 14 mili-amperes. Experimentei algumas regulagens e realmente o comportamento do amp muda um pouco com alterações mais extremas. Levantando o BIAS para 28-30ma o som engorda bastante, talvez um pouco demais e notei que embolou um pouco o meio de campo. Interessante que com o BIAS muito quente, os médios ficam na cara e o amp realmente distorce mais cedo, mas o grave fica meio molenga também. Não curti muito. Com o BIAS perto do recomendado (consenso geral) 20-24ma o som ficou mais gordo que antes e sem embolar os médios como antes. Gostei e deixei assim.


Aqui um pequeno vídeo da EuroTubes, onde comprei o meu BiasProbe, de como proceder pra regular o BIAS. No vídeo ele usa um BiasProbe já com seu multímetro embutido, mas o principio é o mesmo. 

Com o ajuste de BIAS feito, já deu pra perceber uma melhora de uns 30-40% no som Clean que eu mencionei no começo. O Crunch continuava ótimo, mas o clean encorpou substancialmente os médio graves e os harmônicos Fender apareceram. Só com essa "mod" eu já havia conseguido o que eu buscava no começo, mas de tanto ler sobre TANTAS outras mods resolvi que ia experimentar mais algumas para ver no que dava.

Nota: Eu tenho um sério problema - não posso ler em algum lugar que uma MOD faz determinada coisa e aquilo fica muito melhor. Eu sempre acabo pagando pra ver e depois decidir se gosto ou não!! OCD, e não é o pedal... rsrsrs

Depois do ajuste do BIAS, a segunda mod mais popular era de cortar o capacitor de "Bright" no canal "Vibrato". Diferente do seu irmão maior (Twin Reverb) o Deluxe não tem uma chave "BRIGHT", então a Fender simplesmente implementou o BRIGHT no canal Vibrato do DR, e deixou o canal "Normal" sem nada. Isso é feito de maneira similar ao "Treble Bleed" na guitarra, com um capacitor retendo os agudos no pot de volume do amp, mas pra cortar isso eu teria que abri-lo e tirar o capacitor na unha.

Pois bem, resolvi que eu ia mesmo fazer a coisa (de novo OCD/TOK/DOIDERA...) peguei as informações, incomodei o Zeco (da Loja do Musico em Ctba que mexe nos tubos de muita gente aqui), me enchi de coragem e mandei ver - abri o amp e tirei o capacitor C10 (47pf), que de acordo com o esquemático, era o responsável pelo "Bright".

   

Aproveitei pra dar uma olhada geral na placa e construção do amp antes de fechar e ouvir o resultado. O pessoa estava certo, antes eu não conseguia passar de 3 no ajuste de agudos sem sobrar tudo e era difícil de ajustar o brilho "certo". Pensava que era o alto falante Jensen e sua fama, mas depois que removi o C10 tudo ficou bem mais controlável e agradável. Você ainda tem a opção de experimentar alguns valores menores se achar que a completa remoção foi demais, mas depois de experimentar um capacitor de 3.3pf e ainda achar que estava sobrando, a completa remoção foi o que mais me agradou.

Detalhe: Acesso ao pot de bias a diretia do chassis
Fiquei um tempo com ele assim feliz e contente, até que li um artigo da ToneQuestReport dizendo o quanto os transformadores da Mercury Magnetics transformaram o timbre de um Deluxe Reverb que eles restauraram, inclusive relatando como melhorara o som de um reissue que eles tinham. Como eu estava com uma viagem marcada aos EUA numa data próxima, era o que eu precisava pra me coçar de novo. Eu já sabia da fama dos Mercury, mas não são transformadores baratos (nenhum trafo é na verdade) então eu queria alguma certeza que isso seria um bom upgrade. Mesmo que efetivos, os mods que eu tinha feito até agora tinham custado nada além de trabalho e o ganho havia sido de certo modo marginal. O conjunto de trafos da Mercury para o DR, contendo Força, Reverb, Choke e Saída saia algo em torno de US500,00, mas o feedback geral (incluindo caras famosos como John Campilongo) era que a melhora era tanta que parecia outro amplificador depois da troca.



Troquei 3 e-mails com o Patrick da Mercury que me explicou atenciosamente a diferença das linhas , e depois de optar pelo ToneClone mandei vir os bichos. Pedi pro Zeco trocar e quando fui ouvir o amp, a diferença foi tanta que até me assustei. Parecia que a potência havia aumentado e a impressão era de que havia tirado o algodão de dentro do cone do falante. Tudo aparecia mais: mais agudos, mais graves, médios mais transparentes, reverb mais espacial enfim, tudo tinha melhorado. Não dava nem pra comparar as mesmas "settings" de antes, pois tudo mudou na resposta do amp. Eu ia gravar vídeos com o meu amp, mas não havia gravado nada antes das mods, então achei esses vídeos demostrando dois DRRI, um original e outro com os Mercury e ilustra realmente a diferença. É realmente outro amp, e as mesmas configurações já nem se aplicam mais :-)




Demorei umas 3 semanas pra entender e digerir a mudança. Nesse meio tempo procurei entender o pq de tanta diferença no som e acabei conhecendo a Smithers Audio e trocando uma ideia com o Leando, ele me esclareceu alguns pontos técnicos legais sobre trafos que de certa forma explicaram o por que notei tanta diferença dos Mercury pros Fender. Primeiro o lance de corte de custos, faz com que a Fender especifique os trafos pros seus amps no talo da tolerância, nem 1 pelinho a mais, fazendo com que tudo trabalhe sem folgas, ao passo que os Mercury são todos feitos com 50% além da especificação mínima. No caso do trafo de saída, o enrolamento, quantidade de ferro e tudo mais influencia no som e como o trafo interage com as valvulas de saída.

Agradeço publicamente ao Leandro da Smithers Audio pela atenção, e aqui transcrevo um pedaço do longo e esclarecedor papo que tivemos (ainda vou adquirir um trafo Smithers pro meu JCM 800 clone e conto pra vocês):


"...trafo de força você enrola o primário e depois o secundário por cima, pronto. No de saída se você fizer isso, o trafo não vai responder na faixa dos agudos, vai ter uma perda absurda de indutância entre enrolamentos, e uma alta capacitância esta que seria responsável pela perda de agudos. Quando você divide o primário/ secundário em várias camadas e intercala cada, você terá um melhor acoplamento indutivo entre camadas, reduzirá bastante a capacitância enfim a resposta melhora e muito! Para guitarras geralmente os fabricantes dizem que por a guitarra operar em uma faixa baixa de frequência, não há necessidade de várias camadas, o comum de se usar são 3 ou no máximo 5 camadas; (prim./sec/prim., este é exemplo de vários fabricantes inclusive da Heyboer, fornecedor da Fender hoje). O de 5 camadas (prim./ sec./ prim/ sec/ prim.) este é exemplo da Mercury. Os meus, eu faço no mínimo 7 camadas e o SM45 por exemplo, tem 9 camadas ( prim./ sec./ prim./ sec/ prim./ sec./ prim./ sec./ prim.) Eles ficam com a resposta de frequência bem similar aos trafos de Hi-Fi. Outra característica marcante na fabricação meus trafos (Smithers), cada camada de enrolamento, por exemplo, o primário terá 3 camadas seguidas, então cada camada tem o mesmo tamanho, com os fios juntos e com isolamento entre cada. São impregnados com um verniz próprio numa câmara a vácuo, isso proporciona um maior isolamento, o bobinado fica livre espaço vazio que poderia penetrar umidade facilmente, e também por ficar bem fixo, o trafo fica livre de entrar em ressonância com algum ruído, isto acontece quando a impregnação é ruim e o enrolamento começa a vibrar. O núcleo que uso também é de alta qualidade e G.O. sempre..."

Fez todo o sentido pra mim. Vejo o trafo de saída como um tradutor da energia das válvulas para energia que o falante precisa para produzir o som. Como explicado pelo Leandro, o trafo com menos capacitância devido ao enrolamento tem melhor resposta de frequências (lembram dos nossos dilemas com capacitaria na fabricação de captadores? :-) ). A resposta da melhora do meu DRRI com a troca dos trafos está em: 1) - o fato do trafo de força operar com um pouco mais de folga, fornecendo energia suficiente para cada válvula trabalhar livremente com os picos e tudo mais, e 2) - no design do trafo de saída, especificado com o enrolamento correto e calculado para maior transparência dos timbres. Uma explicação simples, mas que faz sentido.

Capacitores Orange Drop não fizeram TANTA diferença quanto os trafos

Depois disso ainda fiz alguns outros experimentos na sessão de ToneStack do amp testando algumas mods que fui lendo a respeito mas no final das contas voltei as especificações originais e me dei por contente. As mods todas foram legais em algum ponto mas alteravam o DNA original do amp que eu tanto gostava. Experimentei MUITA coisa, até instalar capacitares Orange Drop dos mesmos valores que tantos dizem que faz diferença mas não notei tanto assim. Acho que os trafos foram realmente o upgrade mais efetivo na melhora do timbre do amp!

Vale ressaltar que não sou AMP TECH e não tenho muito conhecimento de causa nos "porques" de cada uma das partes do amp. Fui experimentando, consultando e ouvindo cada modificação. Vou tentar explicar os conceitos conforme meu entendimento e se por algum motivo eu falar/escrever alguma bobeira e tiver algum técnico lendo, peço por favor que me avise e eu faço a correção.
Esse foi o único amp até agora que meti a mão pra modificar e não conheço muito dos outros. É importante também salientar que amps valvulados merecem um cuidado especial antes de sair metendo a mão nas entranhas, com o risco de tomar um choque um tanto "forte" (425V no caso do Deluxe Reverb) e é preciso saber como descarregar os capacitores de filtro de fonte antes. É importante dar uma boa pesquisada antes, perguntar pra quem sabe até se sentir confortável com o que está pretendendo fazer. A internet está recheada de boa informação nesse assunto, mas se você por qualquer razão não se sente confortável, não faça!! Leve ao seu Amp-Tech mais próximo Ok?


domingo, 14 de setembro de 2014

Vai comprar uma Fender usada? Leia com atenção...

Paulo May

         Depois que descobrimos que a strato Fender/Roland CG-1 é uma excelente guitarra "Fender" (nem considerando o captador GK-1 embutido) e agora com quase 100% de certeza que corpo e braço são USA, muito provavelmente da linha da American Standard, me senti na obrigação de lembrar-lhes que ainda dá pra comprar uma GC-1 mais barato que uma Standard Mexicana.
Trocando os captadores e a ponte, uma GC-1 fica vários níveis acima de uma Standard MIM (Made In Mexico).

Também sinto a obrigação de revisar aqui alguns fatos sobre a qualidade das guitarras Fender que, como sabemos, sempre flutuou ao longo dos anos a partir de 1968-70. É de consenso geral que a qualidade caiu muito entre 1972 e 1984, mas há vários períodos pós 1984 que não são muito dignos.
Seguem as dicas de guitarras que "parecem mas não são":

1 - FENDER MADE IN JAPAN:
O primeiro mito que tem que cair é o de que as Fender Made In Japan (MIJ) são excelentes. Até 1984, no máximo 85, tudo bem. Daí em diante, apenas as séries especiais (que não vinham para o Brasil) são boas. Mais de 90% das Fender MIJ e CIJ (Crafted In Japan) têm corpo de basswood e captadores bem genéricos. Novamente, pra evitar outra leva de perguntas, não dá pra saber se o corpo é basswood ou alder exceto retirando a tinta. Mas pela lógica e fatos, aposte no basswood.





2 - FENDER USA 1983:
Estão entre as piores americanas de todos os tempos, principalmente as stratos com o tremolo freeflyte:
 Stratocaster Fender de 1983

 Leia mais sobre as MIJ e a strato 83 aqui (clique)




3 - FENDER USA (modelo standard, entre 1993-1998 aproximadamente):
Cavidade dos captadores do tipo piscinão (universal), captadores ruins. Fraca seleção de madeiras.

Corpo de uma stratocaster Fender de 1997




4 - FENDER SOUTHERN CROSS:
Entre 1993 e 1995, a Giannini fabricou, sob licença da própria Fender, cerca de 5.000 guitarras e baixos aqui no Brasil. A série recebeu o nome de "Southern Cross". Corpo de cedro, braço de marfim e hardware americano. O próprio Carlos Assale admite que as Southern Cross eram inferiores às americanas. Não dá pra ter um som clássico de strato ou tele com corpo de cedro e ponto final. Leia mais sobre isso nesse excelente post do Flávio Marcel.
Stratocaster Fender Southern Cross




5 - FENDER "AMERICAN TRADITIONAL" (1999-2001):
Essa série, produzida nos EUA (mas com peças mexicanas) entre 1999 e 2001 é a mais perigosa, principalmente em relação às stratos. A Fender não confirma (e nem nega), mas a maioria dos corpos era de Poplar. Captadores cerâmicos, hardware no limite da qualidade. Não era uma série de todo ruim, mas também não era boa e aqui no Brasil uma strato american traditional é facilmente confundida com uma american standard. Se for comprar, o preço deve ser pelo menos 30-50% mais barato que uma american standard de 2001 em diante. Atenção para o decalque "American Traditional" posicionado onde normalmente está o "Original Contour Body":

Stratocaster Fender American Traditional.




 6 - FENDER "CALIFORNIA":
A série "California", produzida apenas em 1997 e 1998 pode ser identificada pelo mesmo princípio da American Traditional: decalque "California Series" onde deveria estar o "Original Contour Body". O número de série obrigatoriamente contém o prefixo "AMXN" (American/Mexican/1990s) na parte posterior do headstock. Basicamente eram guitarras feitas nos EUA mas pintadas no México. O corpo tinha duas ou três peças de alder e o resto era quase no padrão de uma American Standard (criado em 1986, a Fender não utilizou - geralmente - o termo "American Standard" entre 2001 e 2007, apenas o "American"). Boas guitarras. A série California é a única desse post cuja má reputação é desmerecida e nem deveria estar na lista :)





7 - FENDER STANDARD MIM:
Toda a série "standard" feita no México é inferior. Madeiras, hardware, tudo de qualidade inferior quando comparada a qualquer série americana. Algumas séries mexicanas são muito boas, como as "Classic", Tele Baja, etc. Idem para as séries "Modern Player" feitas no oriente, geralmente Coréia.
Evitem perguntas sobre as MIM ou Squier, por favor. Somente a série standard é inferior (não necessariamente ruim, ok?)


PS: Obviamente refiro-me de forma genérica aos modelos citados. Há MIM standards muito boas e conheço gente que não vende sua Southern Cross por nada. Esse post é para dar uma orientação geral pra quem está querendo comprar uma Fender usada e não tem muito conhecimento técnico.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Rapidinha - PODCAST LPG no "Mundo RG"



 
Oscar Isaka Jr / Paulo May

Há mais ou menos 1 mes atrás o Gilmar (Maninho) nosso colega antigo do Fórum GP nos contactou perguntando se não gostaríamos de gravar um PodCast para o seu blog/canal Mundo RG onde ele aborda diversos assuntos de interesse geral. Combinamos com ele e tivemos um bate-papo informal mas super agradável sobre guitarras e música.
 
O resultado vcs podem conferir abaixo e aproveitar para conhecer o Blog do Gilmar que tem muita coisa bacana! Enjoy!

terça-feira, 22 de julho de 2014

Fender American Vintage 60th Anniversary 1954 Stratocaster

Oscar Isaka Jr

1954 e Leo Fender estava lançando talvez a guitarra que seria o modelo mais influente e usado de todos os tempos, a Stratocaster!

Pois bem, em 2014 a Stratocaster fez seu aniversário de 60 anos e claro que a Fender não poderia deixar passar essa data em branco e lançou uma série de guitarras comemorativas a data. Lançadas oficialmente na NAMM, temos modelos como a  Squier Classic Vibe mais acessível até modelos super caros como os Custom Shop Heavy Relic e todas com alguma característica única, seja na captação, ou pinturas limitadas etc. Todas tem algo bacana que me fariam tranquilamente querer uma de cada (Mr Obvious,.. rsrs)  mas uma me chamou muito a atenção, a American Vintage 1954. A proposta era seguir a risca as especificações do modelo lançado em 1954, como corpo de ASH, braço de maple, pintura em Nitrocelulose na cor "sunburst two-tone" e novos captadores 1954 desenvolvidos especialmente para o modelo. Eu lendo isso tudo e com viagem a trabalho para os EUA marcada. Nem preciso dizer que a GAS subiu-me pelas paredes e fiquei acompanhando as notícias. Precisava pelo menos testar uma dessas American Vintage 1954.


Já nos EUA depois de um dia pesado de reuniões de trabalho, estava na Guitar Center matando tempo tocando guitarras quando vi pendurada na parede a Squier Classic Vibe de aniversário. A guitarra era linda e tinha uma pegada e sonoridade realmente incríveis (especialmente com o preço de US$ 300,00), quando o vendedor  perguntou se eu precisava de alguma ajuda enquanto eu brincava com ela. Comentei como as guitarras comemorativas estavam excelentes e etc quando ele comentou que tinha alguns outros modelos e que iria me trazer. Achei que ele ia trazer o modelo mexicano e o Am Std mas a primeira foi a Am Vintage 54. Maldição, justamente a que eu queria testar e pela foto acima nem preciso dizer o que aconteceu. rsrs

Antes de falar da sonoridade, queria mostrar alguns detalhes particulares da 1954. Vou falar de novo a Fender REALMENTE acertou nesse modelo. O corpo feito de Hard Ash é mais pesado e tem veios mais próximos que o Swamp Ash. O braço é um Soft V de Plain Sawn Maple mais gordo que o normal muito próximo de um braço de LesPaul, mas ainda com pegada Fender. O escudo e o 1 ply branco de 8 parafusos, e a elétrica foi reproduzida nos mínimos detalhes, com pots CTS e até o capacitor "Paper in WAX" de .1 MFD reproduzido pela Fender.


Os captadores, segundo a própria Fender, foram redesenhados especialmente para esse modelo comemorativo, e diferentemente do já existente Custom Shop 54 (modelo preferido do Paulo), esses tem magneto de Alnico 3 e bobinamento mais leve medindo 5.7k no braço, 5.8k no meio e 5.9k na ponte. Não sei se esse equilíbrio foi proposital, mas foi o que medi nos meus.


Há também uma marcação SR referente a "Special Run" na cavidade do catador do braço e notem o detalhe nos saddles estampados com a inscrição "Fender Pat.Pend." até então só encontrados nos Saddles vintage originais ou em modelos Custom Shop específicos.

Nessas fotos é possível notar os veios do ASH do corpo, que recebeu uma pintura super fina de nitrocelulose. Tão fina que é possível sentir os veios do ASH em relevo na pintura.

  



Knobs, Tip e capas de baklelite
Os knobs da 54 (chamados de "Mini-skirt" ou mini-saia) também são levemente diferentes dos Top-Hat modernos, assim como o tip do seletor de captadores. Esses mesmo modelos de Knobs e seletor estão presentes na Am Vintage 1954 de maneira muito fiel a original (a direita). Notem que os knobs tem a parte dos números menor que o tradicional moderno e o tip da chave seletora tem um formato mais ovalado (conhecida como Football) ao invés do triangular mais pontudo moderno.



As capinhas dos captadores também são levemente diferentes, tendo as bordas mais arredondadas que as modernas com cantos mais vivos, detalhes esses novamente respeitados na Am Vint 54.


Todas essas peças era feitas na época de um plástico chamado de BakeLite que quebrava muito facilmente e que foi posteriormente alterado para um plástico menos quebradiço, que é usado até hoje. Não tenho certeza se os da Am Vint são BakeLite mas acredito que não.

1954 Reissue - Knobs, Tips e Capinhas "Vintage Correct"
                             
Ok, tudo muito bonito e Vintage Correct, mas e o som Oscar? Isso foi o que me fisgou nessa guitarra, o timbre dessa Am Vint 54 é algo meio diferente do que eu estava acostumado ultimamente. Sempre gostei e procurei o timbre anos 60, macio nos agudos e graves com médios redondinhos com aquela sonoridade Scooped tantos eternizaram, desde SRV até Jimmy Hendrix mas a 54 é o exato oposto disso tudo. Independente dos aspectos históricos e estéticos que adicionam ao total da guitarra, assim que pluguei no Bogner Lafayete ainda na Guitar Center e toquei a primeira nota o som veio como um soco no estômago. Nunca havia ouvido um ataque de médios tão seco e direto numa Strato e ao mesmo tempo rico e complexo. Agudos e graves estão presentes mas os médios percussivos e cheios com alta amplitude dinâmica e equilibrio me fizeram na hora pensar "então esse é o RICH TONE OF ASH que todos falam". Até então nenhuma Strato de ASH tinha me encantado, e pela primeira vez um timbre clássico de Strato que não o famoso "Bell-Like Tone" dos anos 60 havia me fisgado. Eu só havia ouvido esse DNA de Strato 50s de ASH + Maple em vídeos do Phill X nas Strato 54 vintage originais, mas nunca ao vivo.





Conclusão: Minha busca pelo timbre de Strato 50s terminou aqui.... :-)

Eu normalmente não sou 100% fã dos vídeos da Nstuff, mas nesse ele demonstra bem os timbres dela.. Esse som com drive... POOTZ!! 





PS: Além da American Vintage 54, a Fender também lancou outros modelos comemorativos (Clique aqui) e todos os que eu testei na loja, desde a Squier até a American Std são ótimas guitarras. A Fender tem acertado em cheio nos ultimos tempos com séries cada vez melhores e vemos menos da inconsistência que assombrou a marca nas últimas duas décadas. Vale a pena checar os modelos todos!! Segue um pequeno vídeo demonstrativo da linha.


quinta-feira, 17 de julho de 2014

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Vintage X Moderno (ou: a minha história com a Roland)

Paulo May

        Quando eu falei para o Oscar que estava pensando em postar sobre esse assunto, ele já chicoteou: "Cara.. Isso é polêmico e vai gerar uma enxurrada de perguntas e posicionamentos..."
Mas, diante da minha última experiência com a Roland (a primeira foi em 1986), fui obrigado a publicar o post, mesmo correndo o risco :)
         Eu não sou e nunca fui um daqueles guitarristas do tipo "solista técnico/virtuoso". Sempre gostei mais de bases e arranjos, da procura do groove perfeito entre guitarra base, bateria e baixo - e eventualmente piano. Durante a época (1983-1994) que tive banda e estúdio de gravação, onde compunha jingles e trilhas, sempre busquei maneiras de ampliar os limites dos sons de guitarra. Não foi à toa, portanto, que adquiri uma guitarra "midi", uma Roland GR 707 em 1986 (ou 87). A guitarra tinha um visual futurista e uma estranha barra de carbono numa segunda junção braço/corpo para minimizar as vibrações do braço e estabilizar a captação dos sinais pelo captador hexafônico. Ela era preta, mas igual a essa (de um anúncio dos anos 80):


O "tracking" das notas era complicado, tínhamos que tocar de forma bem diferente de uma guitarra normal, evitando bends, ruídos e slides desnecessários. Aquela barra realmente incomodava e pra completar, era um porre pra tocá-la sentado. Ela ficou largada até por volta de 2000, quando resolvi serrar a barra de estabilização e usá-la como guitarra normal (feita pela Ibanez, com corpo de alder). Quando perguntavam que guitarras eu tinha, ficava até engraçado: "duas teles vintage, uma 1968 e outra 1974 e uma Roland GR707!!" KKK!
Em 2004, joguei tudo dessa guitarra fora e só fiquei com a ponte (interessante - nunca vi outra igual) e o braço, que pode ser visto aqui em 2011, já desfigurado, numa telecaster:

Ainda tenho o braço solto por aqui:).
Bem, o fato é que "NÃO FUNCIONOU" pra mim e desde então, vinha mantendo distância de guitarras desse tipo. Nos últimos 10 anos entretanto, com o contínuo aumento da capacidade de processamento das CPUs, as empresas desenvolveram - e evoluíram - o conceito de "modelagem acústica". Vejam bem, isso não tem nada a ver com MIDI, sampler, sintetizadores, etc. "Modelagem Acústica" é a simulação digital da física que gera sons ao nosso redor. Alguém já disse que o universo pode ser traduzido em números e acho que estamos no alvorecer de uma revolução: a "Virtualização da Realidade". Cada nova geração de hardwares e/ou softwares simuladores ou modeladores está vindo melhor, mais real, orgânica e cada vez mais difícil de distinguir do equipamento original. Já postei sobre o Amplitube e a última versão está matadora...
Não se enganem comigo: quem acompanha o blog sabe que eu (e o Oscar também, garanto) sou fanático por timbres vintage, guitarras clássicas, válvulas, etc. Mas não sou um xiita radical: minha mente respeita, antes de tudo, meus ouvidos. Não interessa o que está gerando um som - se gosto dele, eu quero.

Mas vamos voltar à minha história com a Roland... :)
Eu conhecia o sistema "COSM" de virtualização da Roland (desde que foi lançado, há bem mais de uma década), sabia da guitarra "Synth Ready" GC-5 mas nem pensar em sequer testá-la já que o preço aqui no Brasil é absurdo.
Sem eu me dar conta, entretanto, a Roland lançou uma versão mais barata, a GC-1, que, ao invés de ter todo o sistema (captador GK3 + Processador) embutido (o que comprometia a GC-5 enquanto guitarra real, pela grande quantidade de madeira do corpo que era retirada), a GC-1 é uma stratocaster autêntica, apenas com um recesso da parte de cima para o GK3 e uma pequena cavidade extra na traseira - na verdade, uma extensão da cavidade do jack de saída.

Essa opinião que tenho em relação à GC-5 é compartilhada pelo meu amigo (e grande guitarrista/violonista) Zeca Petry, que passou algumas dicas essenciais para o meu update técnico em relação a esse sistema da Roland. 

Há uns 15 dias, entrei numa loja aqui de Floripa e vi essa guitarra Fender/Roland GC-1 à venda por 1.900 reais:




Nem pensei nela como "Synth Ready" - à princípio analisei objetivamente e o que vi foi uma ótima strato, com um excelente braço de maple "one piece" (braço e escala de uma peça), corpo de alder com 3 partes (a camada de PU é por sorte fina e dava pra ver os limites das colagens). Levei sem nem ao menos tocá-la. Mesmo que a utilizasse somente como uma strato normal, já valia. Em casa, fui checar as especificações e descobri que o braço e boa parte das ferragens (tarraxas incluídas) são feitos no EUA. O corpo de alder, captadores e ponte, são mexicanos.

Depois de tocá-la por cinco segundos, já tinha 95% de certeza que os captadores eram cerâmicos - e aí vai minha primeira pergunta pra Roland: Por que colocar captadores tão inapropriados (e ruins para uma strato) numa guitarra tão boa e bem acabada? Não faz sentido.
Por que manter aquele infame bloco de zinco das standards mexicanas? 3 captadores de alnico e um bloco de aço elevariam essa guitarra a um nível superior e os custos não seriam tão diferentes.
Acredito que esses dois detalhes perderam-se na logística entre a Fender e a Roland - faltou um pouco mais de visão, pois essa guitarra poderia facilmente ser anunciada também como um excelente instrumento clássico.

O braço é realmente muito, muito bom. Pode até não ser americano e/ou tive sorte nessa guitarra, mas os trastes estavam perfeitos, 100% alinhados (raro em qualquer guitarra) e super macios nas pontas, com "zero" de rebarba. Como provavelmente será a guitarra que usarei em eventuais performances ao vivo, garanti uma estabilidade extra trocando as tarraxas Fender comuns por Fender com trava, que eu já tinha por aqui.

ADENDO 16/8/14: O leitor Yyz me apontou a página da Roland onde há uma explicação para o qualidade que percebi nessa guitarra: " It’s mostly made from American Standard Strat parts: the alder body, 22-fret neck, frets, and tuning keys are the same ones found on every US Standard. The pickups and bridge are of the vintage type found on old Strats, and now used in Mexican standard Strats, so it’s a hybrid."... Então é isso mesmo: apenas os captadores e a ponte são da (ruim) strato Standard mexicana e o resto é da American Standard. A guitarra é montada no México - daí a confusão. Isso explica porque ela me chamou a atenção na loja - o corpo e braço são obviamente superiores.

Obviamente, tomei o cuidado de gravar uns licks com os cerâmicos e em seguida coloquei um set de captadores de alnico 5 e fio formvar, além de um bloco Manara e saddles de aço, meus preferidos.
A diferença da sonoridade entre os caps cerâmicos e alnico é brutal. Só quem não gosta ou não conhece o timbre de uma strato iria aprovar aquele lixo cerâmico. Ouça:


 Ouça a diferença entre os captadores cerâmicos e os de alnico.



Acima, uma foto com a prova do crime. Caps com duas barras cerâmicas/ferrite na base.



 O corpo foi bem feito - cavidades H-S-S, cobertas com tinta condutiva.

ATENÇÃO: muito cuidado ao movimentar o escudo - a fiação do GK3 limita o posicionamento do escudo para troca dos captadores. É necessário, com muito cuidado, abrir a tampa traseira do circuito, estender os fios que estão presos sob pressão às paredes da cavidade e só depois posicionar o escudo para trabalhar.

Bem, com os novos captadores, bloco Manara e saddles de aço, agora ela passou a soar como uma stratocaster de verdade, e das boas. Resolvi então - e só após isso: garantir que ficaria uma boa strato "per se", ouvir demos dela junto com o (essencial) módulo sintetizador GR-55. Entre as várias demos que encontrei, uma em especial me convenceu a comprar o GR-55: o inglês "James", funcionário da Roland, demonstrando a GC-1 e o GR-55 para uma loja na internet:


O James é muito legal - típico guitarrista "normal" fazendo uma demo "normal" e objetiva. As demos da própria Roland carregam o estigma de "guitarra para nerds" que infelizmente vemos desde os anos 80 - e mesmo o Steve Stevens não ajuda em nada. Essa demo, por exemplo (clique) é muito brega e na minha opinião espanta qualquer guitarrista curioso que vá até o site da Roland checar o GR-55. Mas esqueçam essas bobagens. Depois de sacar o sistema com o James, o resto é complementar:



Aqui a demo da empresa para o GR-55. O estilo "TV Globo" do locutor é inadequado e kitsch, pra variar:


         Então, se vocês acompanharam até agora, do meu ponto de vista, continuo sem muito interesse em utilizar a guitarra pra gerar sons de piano, sopros, sintetizadores, etc. O legal mesmo desse sistema são as modelações e afinações. De brinde, um multi efeitos de alta qualidade e o sintetizador.

Não a utilizaria muito em casa - os timbres que ela modela eu já tenho em outras guitarras e todos de alta qualidade. A mão na roda, a puta mão na roda disso tudo, é a extrema versatilidade para ensaios e shows ao vivo. Não há o que pague sair de uma strato em afinação padrão para uma tele em open G e depois passar para um violão Martin D28 (o GR-55 modela o corpo/ressonância de vários violões Gibson e esse Martin), tudo com apenas dois cliques... :)

Com os vídeos do youtube e o manual, em menos de dois dias já dominei relativamente bem o sistema e criei meus próprios patches. Já posso tocar Gimme All Your Lovin' (Les Paul com humbucker/Marshall/afinação padrão), Honk Tonk Women (Telecaster/Twin/Open G) e Shake Your Money Maker (Les Paul com P90/Twin Reverb/Open E com slide) com apenas uma guitarra e não três!

Dessa vez eu e a Roland nos entendemos :)

PS: Se alguém da Roland está lendo isso, novamente chamo a atenção para os detalhes dos captadores e bloco da ponte e, por favor, vocês vendem a guitarra sem o cabo de 13 pinos GK e o GR-55 também sem o cabo. Putz! No sense. As lojas nem sempre têm esse cabo disponível e temos que adquiri-lo separadamente - um banho de água fria justamente quando não precisamos.


segunda-feira, 16 de junho de 2014

Vai mais um PAF aí? - Malagoli Custom 55

Oscar Isaka Jr




          Sonoridade... Tá aí uma palavra extremamente subjetiva e perigosa. Se descrever sons através de palavras já é complicado, como então fazê-lo para sensações e emoções? Sempre tentamos (quase sempre sem sucesso) descrever aos amigos o que sentimos, seja numa mesa de bar - ou mesmo numa conversa informal em alguma loja - quando ouvimos aquele drive cremoso, a distorção definida, aquele clean cristalino, o delay orgânico, o tremolo pulsante, o timbre magrelo e "sem vida" até o "som gordo" e transparente.

Através dos anos, lendo, testando e principalmente escutando timbres e sonoridades de captadores, guitarras, amps e tudo mais que rodeia esse nosso mundo da guitarra elétrica, toda a subjetividade se torna comum quando ouvimos a palavra "P.A.F." Quando recebi o Malagoli Custom 55, entusiasmo foi a primeira palavra que me veio à mente... Ok.... Tenho que confessar que como "escritor" desse Blog, sou um ótimo analista de sistemas :-)

 

Quando o Érico nos contatou perguntando se não queríamos testar algum modelo da Malagoli, de pronto aceitamos e achamos uma ótima idéia. Nós do LPG sempre procuramos valorizar muito nossos cientistas do timbre brazuca, que mesmo com todas as dificuldades tributárias e etc, conseguem  entregar um produto de altíssima qualidade, mas que muitas vezes não recebem o devido valor  e reconhecimento. Sabemos da importância da Malagoli no mercado nacional e sempre tivemos pedidos de vocês sobre os captadores da marca, então a oportunidade veio muito bem a calhar e depois de alguns e-mails, claro que o modelo escolhido foi o Custom 55, um dos modelos P.A.F. oferecidos pela empresa. Antes de falarmos do modelo, aproveitamos e batemos um papo com o  Érico sobre a Malagoli.

LPG - Como e quando a Malagoli começou? Sempre foi no mercado de captadores?

     A historia é interessante. Nos anos 60 havia uma banda no bairro da Pompéia, chamada The Thicks. Por falta de condições, dois dos integrantes, Carlos e José Malagoli, começaram construindo seus próprios instrumentos. Em seguida, passaram a vender guitarras aos amigos, e por fim, a produzir os próprios captadores. Com a procura por estas peças, a produção de guitarras foi desativada e os captadores se tornaram então o principal produto da empresa.
      Nos anos 70 e 80 a empresa ficou muito conhecida também pelos pedais SOUND.

LPG - Qual a visão da Malagoli sobre o mercado nacional? Como a Malagoli (troquei pelo SOUND) se encaixa nisso?


     O mercado tem se desenvolvido bastante, isso é muito importante para todos que vivem dele, desde as fabricas até os músicos. É um ciclo, quando o músico brasileiro acredita em um BOM produto nacional, ele permite ao fabricante se desenvolver, crescer e investir mais, o que significa mais opções no mercado
     Hoje nosso site, dentre os especializados na venda de captadores, é um dos principais do mundo. E isso aconteceu aqui, no Brasil. Com um produto feito por brasileiros

LPG - Como nasceu a Malagoli Custom Shop, e qual o papel desse setor na empresa?

     A divisão Custom Shop é hoje a principal da empresa, pois é onde mais fazemos pesquisas, testes e lançamentos de produtos. Dedico a maior parte de meu tempo ao laboratório onde ficam somente eu, meu computador e centenas de peças e protótipos de captadores. Todos os captadores que fabricamos são de ótima qualidade, mas os da linha Custom Shop estão um patamar acima. 100% da matéria-prima vem dos EUA, dos mesmos fornecedores das grandes marcas de pickups.
     Confiamos tanto nestes captadores, que para eles a garantia é ETERNA. Fazem também parte desta linha os captadores signature HH777 e RL Legacy

LPG - Poderia comentar sobre o Custom 55 ? Como ele nasceu, materiais empregados na construção e etc?

     Curto muito captadores Vintage. Tenho e já destruí vários. Além disso conto com alguns  importantes colaboradores. O 55 surgiu da vontade de todos em fazer um P.A.F. respeitan-do suas características, mas não montar uma simples réplica e sim criar uma releitura do modelo clássico da Gibson. Como nós, da Malagoli, faríamos um P.A.F.. Ele usa fio Plain Enamel como os originais e imã alnico 2 "Rough Cast". E tudo isso em um visual moderno, bem montado. A produção é 100% artesanal e 100% feito no Brasil!

LPG - Perspectiva para o futuro? Novos produtos? Vintage? Moderno?

     Ano que vem é um ano de comemoração, pois completaremos 50 anos de atividade. Por isso, muitos lançamentos estão programados, para todos os gostos. Um lançamento que deve ocorrer em breve é o Little 55. Um Humbucker formato single, porém com alnico e fio Plain Enamel... Ops, falei! kkkkk


Alnico "Rough Cast"
     Ao abrir a caixinha do Custom 55 encontrei o nosso set encomendado, um belo par de Humbucker Zebra. Embora padrão nesse modelo, pedi ao Érico que não parafinasse o nosso set de testes para que pudéssemos avaliar o modelo em toda a sua plenitude. Como já discutimos antes e constatamos várias vezes nos nossos testes, a parafina minimiza a microfonia e realça o ataque, mas também tira um um pouco da complexidade harmônica proporcionada pela vibração natural das bobinas. Além do fio Plain Enamel (que dispensa comentários rsrs), o Alnico 2 Rough Cast completa a fórmula do Custom 55 mostrando o cuidado da Malagoli em usar as mesmas características dos PAFs originais. O Alnico Rough cast é assim chamado devido ao método pelo qual é feito, usando moldes de areia, o que atribui a ele um aspecto rústico ao invés do metal polido e brilhoso do alnico moderno. Quando falamos de PAF, todos os detalhes contam!!


     A guitarra teste foi a mesma que usamos nos outros posts sobre PAF do Blog (Parte 1 e Parte 2) - minha "R9" 2003 de guerra. Durante a instalação já aproveitei e medi a resistência das bobinas (ambos vieram com "4 fios" e notei uma assimetria de quase 1k entre as bobinas. Bobinas assimétricas é uma característica bastante conhecida (eu diria até padrão) dos PAFs, mas normalmente é menor que isso, com cerca de 0.3k nos demais modelos que testamos aqui. No total, cerca de 7,7k em cada um deles sendo ambos os modelos idênticos na resistência, diferindo apenas no espaçamento dos polos pois o da ponte tem 52mm ( F-Spaced, Trembucker, etc etc etc).

Ok, guitarra afinada, regulagem de altura feita e plugada no Deluxe Reverb Reissue, toquei as primeiras notas... Um PAF tem que ser ao mesmo tempo macio no ataque sem perder a definição com a nota abrindo harmoniosamente após a palhetada, o famosos "bloom", com sustentação e precisão nos graves e dose certa de agudos. Fácil né? rsrs. Pois vou dizer que o Custom 55 tem sim um bom pedaço de todas essas características. De cara é possível notar a característica da combinação do fio PE com o Alnico 2 com bobinamento manual sem muita pressão, gerando um ataque macio mas definido com o decaimento das notas de maneira muito bonita com bastante dinâmica.
O ataque é mais suave nos médios, com uma boa definição de agudos (olha a assimetria aí) e o grave cresce depois. Botei mais volume no amp até quase saturar o Deluxe e ele segurou numa boa somente acentuando as características que já mencionei e talvez apresentando um leve excesso de agudos que deu pra limar com o tone numa boa.
Mesmo com bastante volume não tive nenhum tipo de microfonia e até com drives leves e médios o Custom 55 mostrou um timbre muito bom e consistente. O captador da ponte tem um twang quase de tele enquanto que no braço é onde a magia realmente acontece e o PAF abre com tudo o que já sabemos.


         Pra mencionar algo,  talvez senti falta de um pouco mais de foco nos médios e percebi um leve excesso de agudos (mas lembrem-se que os do teste estão sem a capa metálica e sem parafina, duas características que soltam mais os agudos). Notei um pouco menos do timbre Double-Tone saxofônico mais presente em alguns outros modelos, mas no geral ele atende muito bem os requisitos de um bom PAF. Abaixo, gravei duas bites tentando replicar os riffs dos outros posts pra vocês terem uma referência. Não estão com as exatas settings, mas da pra ver e ouvir que o Custom 55 não deve nada aos outros modelos.



Conclusão, fiquei extremamente feliz e honrado de poder dizer que o Custom 55, feito aqui no Brasil,  tem sonoridade e personalidade de gente grande, com as qualidades que esperamos de um bom  catador PAF-like. Ainda quero testá-lo na minha SG, e numa Semi-acústica (acho que vai brilhar aqui), mas o Érico imprimiu sua sonoridade sem comprometer as boas qualidades que fazem a sonoridade do PAF talvez a mais misterioso e complexa do mundo elétrico das 6 cordas.

Com isso tudo, o Custom 55 é um forte candidato ao nosso selo de Ouro LPG! Vamos apenas aguardar mais alguns testes e opiniões pra confirmar.

Obrigado ao Érico e que ele continue a nos brindar com ótimos modelos.

Contato:
Malagoli Captadores


 

Edit: O Alex Frias também tem um Custom 55 instalado em sua Cort Source e gravou um sample demonstrando. O modelo que ele pediu tem a capinha de Nickel e uma leve parafinação. Veja:



EDIT: O Érico estava tentando publicar um comentário também, mas por algum motivo não estava conseguindo, então estou transcrevendo a vocês:

"Olá Amigos. Parabéns pelo Blog e pela matéria, ficou muito show!!! Nosso mercado precisa de ações informativas como essas do LPG, para ajudar o público na escolha! Isso é muito importante, um belo trabalho! Valeu pela ajuda! Abração! Érico Malagoli."

Nós que agradecemos Érico! :-)