sábado, 25 de setembro de 2010

Tagima 735 Special (ou, como levar gato por lebre...)

Parece uma guitarra boa, não? Bem, vamos ver...

Rapaz, eu estava evitando tocar nesse assunto, mas esse comentário do Folli (na Strato Lipstick), praticamente me obrigou a fazê-lo. Leia o que ele escreveu:

Folli: "Eu tenho uma Tagima T 735 Special (made in china). Foi minha primeira guitarra depois que reatei com essa paixão. Não sabia nada sobre guitarras. A aparência é de uma guitarra bem construída, precisa, tem boa pintura e um acabamento que impressiona pelo preço, mas nunca me conformei com ela. Até tentei algumas coisas que andei pesquisando na internet... troquei os captadores por caps Cabrera Screaming Blues, regulei as oitavas, abaixei a ação das cordas, regulei o tensor, troquei as tarraxas, só ficou faltando mesmo trocar a ponte (talvez o mais importante). Essa foi a minha "cobaia", como vc disse aí em cima. Mas não teve jeito. Num dado momento até achei que ela ficaria razoável, até o dia que eu comprei uma Fender usada lá na Teodoro (rua de SP). A Fender precisou de algumas regulagens, tais como substituição dos saddles, regulagem de oitavas, e altura das cordas. Depois ficou excelente, como toda Fender deve ser. Bem... pra quem não sabia nada sobre guitarras, acabei aprendendo alguma coisa. Guardei a Tagima e nunca mais consegui tocar com ela. Ainda não desisti. Vou continuar tentando fazer dela uma boa guitarra. Será isso possível?"

Bem meu caro, POSSO TE GARANTIR QUE NÃO, não será possível. Espero que esse post te ajude e aos guitarristas que visitarem o blog.

      Quando comecei a me interessar, em 2006, pela parte "física" das guitarras - tudo por causa de uma strato de luthier caríssima e muito bonita mas que soava horrível (descobri depois que era graças ao corpo de Cedro), o primeiro passo, já que o meu problema inicial era com uma strato, era focar em um guitarra com corpo de Alder ou Ash, as madeiras clássicas da Fender. Como não queria investir muito, procurei pela internet e encontrei esse vídeo do Zaganin, na época diretor técnico da Tagima, falando do corpo de "Alder" da 735 Special :


video

Comprei-a no mesmo dia. Os captadores cerâmicos imediatamente foram trocados (escudo também) por caps Rosar, tarraxas, saddles com roller... Ela ficou assim:

Nessa foto, não dá para notar, mas ela era "transblack", a parte de cima ligeiramente transparente, e, pela transparência, a madeira realmente parecia ser alder.
Mas o som... que porcaria! Magro, desequilibrado e sem agudos, mesmo com os captadores Rosar. Não fazia sentido. Tudo que eu li sobre o Alder me dizia uma coisa e o som da Tagima outra - era ainda pior que o Cedro.
Decidi esclarecer de uma vez por todas e retirei (com removedor, muita sujeira, irritação no nariz e na pele) a pintura/verniz dela.
Como eu temia, a madeira do corpo era uma "lenha" qualquer disfarçada com uma plaquinha fina de alder. Veja as fotos:
Observe na última foto nitidamente a placa e a madeira por baixo. A placa de alder era tão fina que dez passadas de lixa 100 e ela ia embora.
E a picaretagem não acaba aí  - aquela coisa horrorosa que a Tagima diz ser alder ainda apresentava 5 colagens!!!
Para quem não conhece a textura do Alder, é só procurar na internet por fotos dessa madeira. Existe uma variação (que nem é usada em guitarras) até um pouco mais escura. Mas jamais esse "malhado" aí.
Uma foto de um corpo de alder à venda na StewMac:

Liguei para a Tagima... (editado). Ainda não consegui esclarecimento ou suporte adequado sobre esse problema.

PS: Folli, lamento muito, mas deves ter sido tão enganado quanto eu...
Porém, existe o lado positivo, e essa decepção foi uma das razões do blog existir. Tá bem mais difícil alguém me enganar com guitarras hoje em dia...

PS2: Atualmente tudo mudou no site da Tagima - o corpo agora é anunciado como Basswood e o vídeo não está mais lá, mas ainda existem as de "Alder" à venda por aí. Até no Submarino (clique em "saiba mais sobre esse produto"):
http://www.submarino.com.br/tagima735s


ADENDO 07/10/10: Até alguns dias atrás, todas as minhas pesquisas e as pessoas que questionei, luthiers incluidos, confirmaram a minha suspeita de que aquela madeira não é alder. Porém, um luthier, Fábio Seiji, através do fórum Cifra Club mencionou que "pode ser" Alder, independente do aspecto.
Já que não há mais unanimidade, e o luthier tem o respaldo técnico, eu não posso mais afirmar sem uma definitiva análise em laboratório.
Outra hipótese que deve ser mencionada aqui é que, caso não seja alder, a própria Tagima pode ter sido enganada pelo fabricante chinês, mas acredito que ela tem plena responsabilidade sobre o que anuncia e vende.
Então, deixo as fotos e o meu relato para cada um tirar sua própria conclusão.

ADENDO 18/04/2011: A "Audiência Conciliatória" foi hoje. Para saber a proposta da Tagima, siga o link:  http://guitarra99.blogspot.com/2011/04/tagima-parte-ii.html

ADENDO: 03/2013: Leia o final desse caso aqui (CLIQUE)

domingo, 12 de setembro de 2010

Stratocaster "Lipstick"



         Recentemente tive duas surpresas muito agradáveis com dois tipos de captadores nos quais não tinha muito interesse até então: singles "Lipstick" e P-90. A estória do P-90 fica para o próximo post, mas os "Lipstick" (Batom), que são singles desenvolvidos pela Danelectro nos anos 60 (o fio é enrolado direto numa barra de alnico e ambos cobertos por um tubo de metal - os primeiros tubos usados eram realmente sobras de tubos de batom), têm uma sonoridade única, como os singles de strato, mas com um pouco mais de corpo e menos estridência nos agudos. É um tipo de som que eu buscava nas stratos e que aparece facilmente com um captador lipstick. O interessante é que ele mantém aquele "quack" típico das stratos mas tem os médios com mais "mordida" (ou talvez, com menos agudos do que um single tradicional, os médios apareçam mais), lembrando a Telecaster. É uma sonoridade ao mesmo tempo familiar porém inédita. Muito legal.

O lipstick original da Danelectro usa barra de alnico VI e mede 8,1 cm. A versão da GFS (e o modelo SLS-1 do Seymour Duncan) é feita com 7 cm, para evitar mexer na cavidade dos captadores e escudo. No início hesitei em usá-los porque, via de regra, o tamanho da bobina é um dos fatores importantes da sonoridade de um captador. Além disso, os GFS usam alnico II. Mas após 2 minutos tocando essa guitarra, eu não pensaria em trocá-los nem por originais vintage... :)
Um esquema simples mostrando como o single Lipstick é construído:
Eu tinha ouvido e tocado uma strato com lipsticks Danelectro e resolvi montar uma: Corpo de basswood (bem suspeito, com 3 peças - postarei mais tarde) de uma strato Squier (a cor era um vinho horroroso - foi refeita) braço de uma SX... Coloquei o logo da Fender porque achei que ela possuia elementos "Fender" suficientes para tal, mas assinei também para ninguém achar que falsifico... :)
      Como sempre faço com minhas stratos, deixo apenas um pot de tonalidade para os 3 caps (nesse caso, liguei apenas os do meio e braço) e desloco o pot de volume para baixo. O local onde tradicionalmente fica o pot de volume é muito incômodo para a minha maneira de tocar - volta e meia a mão direita bate nele e inadvertidamente mexo no controle de volume.
Fiz alguns "relics" no corpo pra deixá-la com aspecto envelhecido. Tinha que fazer porque a pintura não ficou 100% perfeita (faltou capricho meu na hora de lixar hehehe). A relicagem equilibrou tudo :)



Não queria "cavar" o corpo por isso fui atrás desse set GFS com dimensões de single padrão. Podem falar mal à vontade da GFS, mas esses captadores são muito bem feitos e com material de primeira. E o som, que é o que importa, ficou melhor do que o da strato com os Danelectro.
O som, como falei, é muito legal no clean, as posições "2" e "4" mantém aquele som clássico da inversão magnética e o captador da ponte, que é um pouco mais forte, satura divinamente. Até acho que esses captadores brilham mesmo em situações de "crunch" ou leve saturação. Excelente a idéia da GFS de fazer valores diferentes de saída para cada captador.
(Juro que vou postar sons de todas as minhas guitarras, em breve.)...

Especificações
Corpo: Basswood, 3 peças, "Sherwood Green Metallic"
Braço: Maple, formato em "C", Fender.
Escala: 251/2", Rosewood, Raio: 9,5"
Tarraxas: Grover Mini Rotomatics.
Captador Ponte: GFS Lipstick 8K
Captador Meio:  GFS Lipstick 6K
Captador Braço: GFS Lipstick 4,9K
Ponte: Wilkinson WVP 2 pivôs (o bloco pesado faz toda a diferença...)
Pots e capacitor: Alpha 250K, 0.033uF



quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Tops de "Maple" - ilusão de ótica ou reais?

Postei no fórum da GP e achei relevante colocá-lo aqui também... Mais um post do tipo "utilidades de reconhecimento"... :)

       O famoso "top de maple" em guitarras sólidas surgiu durante a criação da Les Paul, em 1952. A resposta da Gibson ao sucesso da Fender Telecaster foi uma guitarra com corpo formado pela combinação de mogno (parte principal) e uma cobertura colada de maple.
Segundo Ted McCarty, o presidente da Gibson e principal responsável pelo design, eles tentaram inicialmente com um corpo de maple, mas o som ficou muito agudo. Depois, apenas mogno, mas faltavam os médios que eram a característica principal da "concorrente" (lembrando que a guitarra sólida na época estava sendo comprada principalmente por músicos de Country & Western e Blues). A lógica óbvia era unir as duas madeiras e essa combinação é hoje um dos arquétipos de corpo de guitarra.

A Gibson, orgulhosa, jamais faria uma guitarra que tivesse a mínima semelhança com a Telecaster, por isso evitou o Ash e o Alder. Ainda hoje, na Gibson, os braços "parafusados" do Leo Fender são motivo de desdém - mas nós sabemos que é pura birra... :)  O fato é que, entre 1950 e 1954, tivemos três fenômenos de genialidade que jamais foram repetidos: 1950: Telecaster, 1952: Les Paul, 1954: Stratocaster. Todas as guitarras sólidas, mesmo hoje em dia, são variações dessas três.

Bem...Voltando ao maple. O top de maple da Gibson Les Paul é escavado e grosso na parte central. Funciona como gerador de timbre e "bloco de inércia", contribuindo para o sustain. Veja uma Les Paul cortada ao meio (a camada superior, mais clara, é o maple e a inferior, o mogno):

        Hoje em dia, quando uma fábrica anuncia uma guitarra com "top de maple", não quer necessariamente dizer que é o padrão da Les Paul. Pode ser uma camada (figurada ou lisa) pequena de maple de alguns milímetros, chamada de "drop top", pode ser apenas um folha fininha (veneer) de maple figurado colado direto na madeira do corpo (com função apenas estética) ou à um top de maple mais grosso (daí o maple já funciona como elemento estrutural e sonoro) e pode ser um top de maple grosso e figurado (encontrado somente em guitarras top de linha e caras). Mas existem também aquelas que nem maple têm - é apenas uma película com a imagem impressa...
A minha PRS SE, por exemplo, tem um top de maple mais fino e flat e uma folha de flamed maple colada nele. A PRS original é escavada, portanto o centro tem mais maple. Por incrível que possa parecer, eu prefiro essa PRS com menos volume de maple - sempre achei as originais muito agudas.

 Já a LTD EC100, supostamente com um top de quilted maple, parece ter apenas uma película. veja a cavidade do suporte da ponte: aquela parte inicial branca com aspecto plástico... Pode até ser o verniz bicomponente muito grosso, mas, onde está a separação de tonalidades do maple e agathis?

Entretanto, a guitarra é linda, coloquei captadores EMG 81/85 que ficaram muito bem nela. Comprei-a após ler um teste na GP com o Michael Molenda falando maravilhas de uma guitarra tão barata. O braço é fantástico.


Continuando sobre o maple...
        A graduação (crescente) de qualidade/figuração/beleza do maple vai de "A" a "AAAAA" (É a usada pela Gibson. Outras fontes classificam apenas de A até AAAA). O nome da figuração (flamed, quilted, curly, wave, tiger, etc.) depende do corte, do desenho de suas estrias e da imagem que ele lembra:  traduzindo, respectivamente: chamas, colcha/acolchoado, cacheado, ondas, tigrado, etc. Após receber corante e verniz, algumas figurações chegam a ter aspecto tridimensional. Além de variarem de acordo com o ângulo que são observadas. Certas figurações são mais raras que outras, como o quilted em relação ao flamed, mais comum.
Veja alguns tipos de figuração do maple:

A maioria do maple não tem figuração, com estrias sem nenhum efeito visual bonito. Tipo o usado para braços de guitarra (ou no top das Les Paul "plain top"). O mais interessante é que na américa do norte, o maple figurado é considerado ruim para marcenaria e raramente usado para estrutura de móveis (ppte pela instabilidade). Segundo eles, vira "lenha".
Entretanto, folhas laminadas de maple são usadas em móveis, com um efeito visual interessante:


Antes de ser cortado, não dá pra saber se o maple será figurado ou não. As peças aparecem "por acaso" e são separadas para os tops. O aspecto é dado por uma montagem chamada de "book matched" - o maple é "fatiado" horizontalmente e as duas partes posicionadas como um "livro aberto". É nesse momento, de acordo com o aspecto final, que ele recebe a graduação. O maple book matched AAAAA é o de excepcional qualidade estética.

Veja esse top de quilted maple AAAAA, aberto (book matched) e em seguida já na guitarra:
(Observe como o uso de corante amarelo torna a figuração ainda mais viva e tridimensional)

























A propósito: "Quilted" traduz-se como "Colcha/Acolchoado/Edredon".... Parece mesmo, não? :)
  É quase impossível que uma guitarra de menos de 1.500 dólares tenha um top com grau maior que AA ou AAA. Quando tem, é folha fina (drop-top plate) de maple figurado por cima de um maple (top plate) sem figuração. Esse artifício é comum hoje em dia (vide os tops das Cort M-600 ou das PRS-SE), mas não é "picaretagem"... :) Sacanagem é vender como "top de maple" e não existe maple, apenas a folha ou uma imagem impressa... :)

Muitos luthiers juram que a figuração influencia no som. Será? Aparentemente sim, pois o "flame" é o resultado de fibras alternando-se em direções opostas... Um maple liso pode até soar melhor que um figurado AAAAA se for mais denso e rígido.

PS: já que escrevi um monte, vai mais curiosidade: depois de "book matched", se o top tiver que ser escavado (carved), existe a possibilidade do padrão sofrer alterações ou simplesmente desaparecer por completo à medida que a madeira vai sendo escavada. Nesse caso (Les Paul, PRS, etc.), a graduação só é dada APÓS a escavação.
Tem uma história de um fanático por Les Paul que guardou durante 10 anos uma peça de maple já pronta (aberta e colada), com o flame mais bonito que viu na vida. Enviou a peça para a Custom Shop da Gibson, escolheu o melhor mogno que tinham e colou o maple em cima. À medida que foi sendo escavado, o maple perdeu todo o figurado nas laterais, ficando só no centro (feio, portanto). Triste...

E depois perguntam porque guitarras perfeitas como as Les Paul Custom ou PRS Custom, com tops escavados AAAAA custam tão caro...
Madeira boa e bonita é cara - vale uma olhada nos preços (um top plate de quilted maple AAAA custa 377 dólares!):
http://www.lmii.com/carttwo/thirdproducts.asp?NameProdHeader=Figured+Maple

Mais algumas fotos, só para diversão:
Les Paul Custom Shop 59, envelhecida (o neologismo "relicada" fica mais legal) pelo Tom Murphy (flamed maple top):

Existe uma figuração que eu particularmente não acho bonita: é o "Spalted Maple". Geralmente o efeito visual é provocado pela presença de fungos na madeira:


E essa? Uma Cort M600 (boa guitarra) que custa 1.300 reais. Corpo de mogno com "top" de maple... Depois de ler todo o texto, aposto que tu já tens certeza que é um drop top (mais provável, a Cort geralmente é honesta) apenas uma folha ou, na pior das hipóteses, uma película impressa.
Os meus últimos posts levam a uma conclusão inevitável: não existe guitarra barata de mogno e maple realmente bons. Ou são cheias de artifícios ou formadas por inúmeras peças coladas...

E de saideira, um vídeo mostrando a impressionante transformação visual do maple quando realçado com um leve corante amarelado: