terça-feira, 23 de junho de 2015

1971: Rolling Stones, Deep Purple e Led Zeppelin

PauloMay

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)


Portão de entrada da Villa Nellcote, no sul da França, onde os Stones gravaram o Exille On Main Street.
   
         Em 1971 eu tinha 10 anos e não consigo me lembrar se alguma coisa diferente aconteceu nesse período. De fato, aconteceu não aqui no Brasil, mas na Europa (França, Suíça e Inglaterra): 3 discos que hoje são clássicos absolutos, venerados por roqueiros de todas as idades, foram gravados nesse ano.
O que havia em comum entre eles? Todos foram gravados com a "Unidade Móvel de Gravação dos Rolling Stones", um caminhão adaptado para conter um estúdio - top de linha na época.
 

Por volta de 1974/75, já entrando na adolescência, comprei esse 3 discos e até hoje os ouço com prazer, deslumbre e devoção. São eles:


        Alguma dúvida? Gravações lendárias, quase mágicas. Nenhuma feita em estúdio profissional. Todas de 1971, todas cercadas de mistérios e coincidências... Esses álbuns são referências, agora eternas, do rock clássico de extrema qualidade.

Sou fã de carteirinha dos Stones e o álbum "Exille" (com Sticky Fingers um pentelho atrás) sempre foi o meu preferido. Nesse disco (duplo), os Rolling Stones estão no auge, traduzindo à sua maneira, sem compromisso, as influências rock, blues, country e soul. Vários fatores, alguns fortuitos e outros nem tanto, contribuíram para a brutal honestidade e pureza desse disco. Não vou enumerá-los aqui pra não encher o saco do leitor que não é tão chegado nos Stones, mas um dos principais fatores foi a maneira e o local onde o disco foi gravado.

        Em 1971 os Stones abandonaram a Inglaterra para fugir dos absurdos impostos britânicos. Como tinham que gravar um disco e Keith Richards havia alugado uma antiga mansão chamada Villa Nellcote (em Villefranche-sur-Mer, no sul da França), optaram por gravá-lo lá.

Obs: Recentemente descobri que meu cunhado nasceu em Nice (bem perto de Villefranche) e viveu esse período na região. Ele me falou do clima, cultura e peculiaridades dessa parte do sul da França, refúgio de artistas, famosos e milionários há décadas... Tudo MUITO interessante.

Nellcote

         Sticky Fingers já havia sido parcialmente gravado, com sucesso, na casa de campo de Mick Jagger (Stargroves) na Inglaterra, utilizando a unidade móvel da banda. Aliás, muita gente gravou na mansão de Jagger naquele período: Who, Faces, Led Zeppelin (Houses Of The Holy, ppte), etc. Segundo o famoso engenheiro de áudio Eddie Kramer, o ambiente em Stargroves era maravilhoso e a acústica natural, fantástica.

 Stargroves (Inglaterra)


 Stargroves

 Fácil, fácil perder o foco aqui :) Eu estava em 1971, na França... Mas antes de ir para Nellcote, o caminhão dos Stones foi gravar o Led Zeppelin IV em outra casa antiga (1795) da Inglaterra, Headley Grange:

Headley Grange (Led Zeppelin III e IV)

O famoso som de bateria do John Bonham nasceu lá e foi gravado com 3 (talvez 2) microfones por Andy Johns perto daquela escadaria da foto. Em Headley Grange foram gravados o Led Zeppelin III e IV. Page, conhecido como "Led Wallet" estava economizando e não quis alugar Stargroves nessa época - Headley era mais barata... :)

Stairway To Heaven: Jimmy Page visita Headley Grange e a famosa escadaria.

        Finalmente voltamos para Nellcote, uma antiga mansão à beira de um penhasco, construída em 1890 por um banqueiro americano e quartel general da Gestapo durante a ocupação francesa na segunda guerra mundial. O local escolhido para gravar foi o porão (em 1971 ainda havia suásticas pintadas nas paredes), úmido e quase insuportavelmente quente (ouça "Ventilator Blues" pra ter uma ideia). O caminhão (ligado clandestinamente à rede elétrica) ficava do lado de fora e os cabos desciam até o porão:


         Para fãs dos Rolling Stones como eu, Nellcote (atualmente propriedade de um milionário russo) é um monumento, um ícone. Não apenas pelos Stones - ela representa um período no tempo que provavelmente nunca mais vai se repetir em termos musicais e culturais.
Já li vários livros, reportagens e artigos sobre a época, onde o conceito "Sex, Drugs and Rock and Roll" aplica-se literalmente. 1971 estava na ressaca do movimento hippie/flower power, expurgado pelos próprios Stones em Altamont.
As drogas, cada vez mais pesadas, já haviam levado Hendrix, Joplin e Morrison (sem falar no Brian Jones). Especificamente, a heroína, da qual Keith tanto dependia (para compor inclusive) era obtida de várias formas, inicialmente através do "personal drug dealer" de Keith, Tony Sanchez, depois com os próprios traficantes da região.

AS GUITARRAS DE NELLCOTE

...E foram esses traficantes que provavelmente roubaram os 11 instrumentos que estavam em Nellcote. Imagine que facilidade: todo mundo drogado, os caras já frequentavam a casa... Era só entrar e pegar. Entre as famosas "Guitarras de Nellcote" estavam: Dan Armstrong de plexiglass, Gibson ES-355 de 1959, Gibson Flying V (58?), Gibson ES-330, Les Paul Custom 1959, Les Paul Bigsby 1959, 2 Gibson Hummingbirds and um Fender Jazz Bass. Um saxofone preto do Bobby Keys também foi roubado. Até hoje ninguém sabe com certeza quais guitarras foram roubadas e quais foram recuperadas algum tempo depois. Numa entrevista recente Keith diz que pegaram o "cara" e ele recuperou a maioria delas.
Dá pra ver algumas nessas fotos:


         Ainda se discute qual Les Paul 59 foi roubada - se a de Mick Taylor (aquela famosa com Bigsby que foi comprada do próprio Keith Richards) ou uma outra 59 que acabou caindo nas mãos de Taylor de qualquer forma. Essa segunda eu não acredito que seja porque há algumas fotos de Keith fazendo overdubs de Exille em Los Angeles com ela. Um flame bem evidente e característico ("Claw/garra") na região central superior, entre os dois captadores, a identifica:


         Conhecida como "The Claw" (existe outra The Claw famosa, SN 9-1953, que pertenceu a Tom Wittrock). Foi mais tocada por Keith Richards, mas acabou ficando com Mick Taylor. Aparentemente, ele a vendeu em Londres no início dos anos 80, provavelmente em 1982.
Atualmente é mais conhecida como "Exile Burst", mas é bom lembrar que ela provavelmente não foi roubada, embora tenha sido de fato usada nas sessões de Exile.
Abaixo, um vídeo da Exile Burst/The Claw em 2014, tocada por Phil Harris (colecionador, guitarrista, mas não o dono dela):

Exile Burst / The Claw em 2014


A Les Paul 59 com Bigsby, bem mais famosa, foi tocada por Keith, Taylor, Clapton e Page:
A KEITHBURST:

 Les Paul 59 com Bigsby: "KEITHBURST"

          Keith Richards comprou-a em 1962 ou 1963. Originalmente, foi comprada em 1961 na Farmers Music Store em Luton, no Reino Unido, por John Bowen  (guitarista da banda Mike Dean and the Kinsman). Em algum momento, Bowen instalou um vibrato  Bigsby (Selmer's Guitar Shop em Londres). Pouco depois, no final de 1962, ele trocou a Les Paul na Selmer's por uma Gretsch Country Gentleman.

Keith Richards a comprou lá, provavelmente em 1963. Ele a utilizou na maioria das gravações do período, inclusive em Satisfaction. Em 1967 Keith vendeu-a para Mick Taylor, que entrara no lugar de Peter Green (outro com burst famosa) na John Mayall & The Bluesbreakers. Pra quem já percebeu, John Mayall é referência indireta quando falamos de Les Paul clássica... Foram guitarristas de sua banda, em sequência: Eric Clapton (Les Paul Beano), Peter Green (Les Paul Grennie) e Mick Taylor (Les Paul Keithburst).

A Les Paul Bigsby acabou voltando de certa forma para Keith quando Mick Taylor passou a fazer parte dos Rolling Stones em 1969. Daí começa a saga da Keithburst: segundo alguns, ela foi roubada em 1971 durante um show no Marquee Club em Londres, ou, segundo outros, em Nellcote, na França. Independente disso, a keithburst reapareceu em 1972 nas mãos do guitarrista da banda The Heavy Metal Kids, Cosmo Verrico (ele relata que a recebeu de um representante dos Stones, via gravadora/Atlantic, após ter sua própria guitarra roubada... estranho).

Verrico a vendeu em 1974 para Bernie Marsden do (futuro) Whitesnake. Bernie a vendeu novamente (com um lucro de 50 libras...), apenas uma semana depois, para o colecionador/guitarrista Mike Jopp. Mike Jopp vendeu-a num leilão da Christie's em 2003. Em 2005/2006, foi vendida novamente, para um colecionador privado europeu (quem seria?) por, acredita-se, um milhão de dólares!! Foto recente (2005?) da Keithburst:

 Les Paul 59 com Bigsby: "KEITHBURST"


DEEP PURPLE:

          Bem, voltando à nossa unidade móvel de gravação... Assim que as gravações encerraram-se em Nellcote (ppte porque Richards estava pendurado com a polícia francesa e foi para os EUA), o caminhão partiu para Montreaux, na Suíça. Missão: gravar o novo disco do Deep Purple, Machine Head.

A história de Machine Head e Smoke On The Water acho que todo mundo sabe: Frank Zappa, o incêndio, a opção final de gravar (em apenas 3 semanas) num hotel que estava fechado, etc.

Quase o mesmo padrão dos Stones: caminhão do lado de fora e um estúdio improvisado dentro do Grand Hotel.



esq: RS Mobile Unit do lado de fora do Grand Hotel, Montreaux.


Deep Purple - Suíça, 1971

1971 - Que ano!! :)


PS: (20/11/2016) - E não é que saiu um livro sobre 1971?  :)
Em 7 de abril de 2016 houve a primeira publicação do livro " Never a Dull Moment: 1971 The Year That Rock Exploded", do jornalista inglês David Hepworth.

http://neveradullmoment1971.com/


Não li ainda, mas vou, com certeza! :)





18 comentários:

  1. Que matéria fantástica! Parabéns pela qualidade irretocável dos posts!

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    1. Obrigado, Christian :)
      O post é um pouco fora do estilo do blog mas não deixa de ser interessante, né?

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  2. É um post bem pessoal, mas a graça é essa mesmo. Tem aquela pureza de quem não quer vender nada, apenas contar uma história sob o ângulo da época. Quanto mais dessas, melhor.
    Já pensou em pesquisar algo sobre Monkees e aqueles trimbres country/rockability daquela Gretechen que mais parecia um monumento? Seria algo realmente curioso.
    Abraço.

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    1. Se tivesse algum insight sobre os Monkees, faria, Sérgio. Mas o que eu sei sobre eles é o mesmo que todo mundo sabe. Era uma Gretsch de 12 cordas, não?

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  3. Esse tipo de post é ótimo, além da informação toda (cultura nunca é inútil) dá uma vontade de ter uma guitarra linda como essa "The Claw". E também ter um caminhão de som... Pensando bem, uma fazendola tipo Stargroves não caía mal não, rsrsrs...

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  4. Parabéns pela matéria, Paulo.
    Bom gosto nas imagens, mansões, guitarras e eu não sabia de boa parte disso que contou.
    Essa "The Claw" é maravilhosa, lembra um pouco uma LP 2012 Traditional novinha que vi na vitrine de uma loja lá na Teodoro Sampaio, ano passado. LP Burst é o que há!!

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    1. Obrigado, Marçal.
      Acrescentei um vídeo de 2014 da The Claw. Esse Phil Harris é um cara de sorte. Ele que demonstra e faz demos dessa, da do Paul Kossof e da Greenie :)

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  5. Parabéns pela matéria! Acho que assim como as guitarras têm seus anos "mágicos", os álbuns de rock também têm e 71 com certeza foi um deles. Além dos álbuns citados, nesse ano foram lançados Master of Reality do Sabbath (álbum seminal apontado com fundador de alguns estilos de metal), Aqualung do Jethro Tull (meu favorito deles) e o Yes Album (primeiro com Steve Howe, recheado de clássicos).
    Sobre o Machine Head, no DVD Classic Album do mesmo, contam que a banda gravava no andar de cima e para ouvir o resultados dos takes, eram obrigados a pular da varanda para o caminhão, o que dava muito trabalho, devido aos cabos, etc. Por isso, era essencial que não houvessem erros e o resultado disso é que o álbum quase todo foi gravado em "first take".

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    1. Bacana ter citado outras preciosidades do mesmo ano! Obrigado!

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    2. Xii... :) Deliberadamente deixei vários de fora. O post já é meio gauche no contexto do blog - se me aprofundasse... :) O Who's Next foi gravado parcialmente em Stargroves. E há vários outros gravados em 1971 que foram lançados em 72, como Demons and Wizards, do Uriah Heep, outra banda subestimada. Acho que o período de 5 anos entre 1969 e 1974 contém pelo menos uns 80% dos clássicos que veneramos hoje em dia

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  6. Wow, isso é rock'n roll, tentando ser blues negro americano, porém sendo branco inglês, felizmente rendeu tantas maravilhas que nos encantam até hoje! Obrigado por nos brindar com mais essa pérola! Grande abraço!

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    1. Típico post "age related" Alex. Só a turma (leia nós) com mais de quarenta vai captar :)
      Mas a ideia mesmo era mostrar o link em comum (caminhão) entre os 3 clássicos. Ian Stewart administrava a unidade móvel e era amigo de quase todas as bandas, ppte do Led. "Boogie With Stu" não foi coincidência :)

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  7. Parabéns por mais um post irretocável, Paulo! Como se não bastassem os fatos (interessantes por si só), a forma como vc escreveu fez parecer um daqueles ótimos papos de boteco. Valeu! ;-)

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    1. :) Valeu Sid!.
      Por coincidência, quando descobri que o apelido do Page era "Led Wallet", me lembrei de ti! KKK!

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    2. Por causa. da EWS? Kkkkkkkk

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    3. :) Isso... É difícil saber - exceto no caso do Page, se o cara é EWS ou LW! KKKK

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