domingo, 18 de março de 2018

Mosca Branca

Paulo May

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)



          Quando estávamos combinando a gravação da demo da Les Paul Kaiser/LPG, o Jean me disse que, além da sua nova strato com captadores Fishman Fluence, traria uma guitarra muito interessante mas não mencionou qual - seria uma "surpresa"... :)

A segunda guitarra era uma stratocaster japonesa Tokai de 1984. Bem, qualquer um que já leu um pouco sobre a história da guitarra sabe sobre as cópias japonesas de marcas famosas, principalmente Gibson e Fender que proliferaram nos anos 70. Marcas como Ibanez, Greco e Tokai faziam cópias às vezes melhores que as americanas - talvez até porque nos anos 70 a qualidade das Fender e Gibson realmente estava baixa.  Em 1977 a Gibson entrou com uma ação judicial (Lawsuit) e conseguiu a proibição de cópias do seu headstock clássico (open-book-style).

          Por isso hoje em dia usamos o termo "pré lawsuit" para especificar o período anterior à proibição. A Fender só conseguiu proteger os seus headstocks (corpos não são protegidos, Fender ou Gibson) bem mais tarde, por isso em 1984 ainda havia cópias orientais exatas de stratos e teles vintage e essa Tokai é um belo exemplo.

          As cópias Tokai de strato, principalmente entre 1977 e 1987, geralmente são excelentes. Foi uma Tokai de 1981 que provocou pânico na Fender na época - eles não conseguiam fazer uma Fender tão boa quanto aquela Tokai!
Essa Tokai do Jean é o modelo "Goldstar Sound T60" e ele já pesquisou:

Jean Andrade: Essas Tokai de 1984 são cópias das Fender L Series de 1964 (inclusive vêm também com o serial number começando com a letra L)
A minha é uma TST60, com captadores em alnico "E stamped". A principal diferença:  a TST60 e superiores (até TST120) têm captadores de alnico "E stamped" (os melhores e mais caros feitos pela Dimarzio, réplica dos fullerton da Fender). A TST 40 tem captadores cerâmicos, enquanto a TST50 tem os captadores "U stamped", também de alnico, mas com saída um pouco mais alta.
A minha Tokai tem os originais "E stamped" no braço e meio, sendo que o captador da ponte foi substituído por outro dimarzio antigo. A única diferença da TST60 para a TST80 é que esta última tem finish em nitro.
"Most of the good Tokai pickups have grey bottoms with separate pole pieces. The early ones are stamped "U" and they are medium hot, about 6.2K ohms. There are grey bottoms stamped "E" and they are more vintage output, about 5.6K ohms and these were fitted to more expensive models. The top of the range Tokai strat copies were fitted with DiMarzio VS-1 pickups and they have black bottoms.
Se bobear, o da ponte da minha pode ser um desses VS-1...hehehe.



A tentativa de deixar a palavra Tokai semelhante à Fender é quase cômica, mas tive que rir do "Oldie But Goldies" no lugar do clássico "Contour Body", hehehe...

... Mas parei de rir e tive um calafrio na espinha depois de tocar apenas cinco notas no captador do braço... Foi um daqueles momentos raros, raríssimos, onde percebemos que estamos diante de alguma coisa definitivamente superior, única. Toquei mais alguns acordes e, confirmado: eu estava diante de uma "Mosca Branca". A segunda sensação que tive, depois da estupefação, foi de frustração - essa guitarra não era minha! PQP! Guitarra leve, super ressonante, extremamente bem feita, peças e madeiras de primeira. A minha melhor strato (Fender 97 modificada) é a única que pode ser comparada com ela (e não é melhor, só chega perto). Todas as outras perdem feio, independente dos captadores e madeiras...
E quando eu falo "mosca branca" não estou me referindo às Tokais Goldstar Sound de 1984, mas à essa guitarra especificamente. Pela minha própria experiência, sei que posso pegar 10 Tokais do mesmo modelo e ano e provavelmente nenhuma soará como essa.

O corpo é de alder muito, muito leve, braço de maple com uma camada fina, quase um veneer, de rosewood - e esse é um detalhe que é igual ao da minha telecaster: rosewood fino e curvado com a escala - não é "slab". Capacitor cerâmico grande, bons pots, ponte e tarraxas clássicas, bem no padrão Fender de 1964.
E por falar em Fender 1964, nesse vídeo abaixo, da Norman's Rare Guitars, o Mark Agnesi conta em detalhes a história das Fender "L" series - muito legal. Cheque o ícone "legendas" para entender melhor o inglês.



         Não vou perder tempo tentando explicar e descrever a razão do timbre dessa Tokai ser tão excepcional, mas ela tem a mesma mágica da minha Tele 68: a dinâmica ampla, complexa, multidimensional. A mesma nota tocada 10 vezes soará diferente 10 vezes, cada uma com sua cor e sabor. Impressionante.
E também não vou contar essa história agora, mas se eu fosse um pouquinho mais sociável e menos rabugento, poderia ter tido contato com essa guitarra ANTES do Jean colocar os olhos nela, hehehe...
Mas terei o consolo que ela estará por perto e poderei tocá-la de vez em quando :)




No próximo post vou convidar o Oscar e discutiremos mais profundamente essa questão das moscas brancas, com exemplos, fatos e declarações de grandes mestres da luthieria, mas por enquanto vocês ficam com o vídeo da Tokai do Jean em ação:


PS: E aquela outra strato do Jean, com os captadores Fishman Fluence? Excelente guitarra, gostei muito dos captadores. ultra silenciosos, timbre clássico, típicos de uma strato. Mas... do lado dessa Tokai, o timbre dos captadores Fluence soou linear demais, bonito demais, hi-fi demais... Ou seja, falta aquela sujeirinha mágica, imprevisível, que raramente ouvimos. E, só ouvindo para vislumbrar a dimensão da coisa...


PS1: Contribuição do leitor "unknow" - especificações dessas séries da Tokai:

ST-42 (1977 - 1979) – U-shaped neck, chrome hardware, non-Kluson type tuners, ceramic pickups, 3- or 4-piece sen ash body with poly finish
ST-45 (1980 - 1981) – U-shaped neck, chrome hardware, non-Kluson type tuners, ceramic pickups, 3- or 4-piece alder body with poly finish
ST-50 (1977 - 1984) – U-shaped neck, nickel hardware, Kluson-type tuners, alnico “E,” “U,” “V” or “VI” pickups, 3-piece alder or sen ash body with poly finish
ST-60 (1977 - 1984) – V shaped neck, nickel hardware, Kluson-type tuners, alnico “E,” “U,” “V” or “VI” pickups, 2-piece sen ash or alder body with poly finish
ST-70 (1982 - 1983) – U-shaped neck, nickel hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS-1 alnico pickups, 2-piece sen ash or alder body with poly finish
ST-80 (1979 - 1983) – V-shaped neck, nickel or gold hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS-1 alnico pickups, 2-piece sen ash or alder body with nitro finish
ST-100 (1979 - 1983) – V-shaped neck, gold hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS1 alnico pickups, 1- or 2-piece sen ash body with nitro finish
ST-120 (1982) – V-shaped neck, gold hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS-1 alnico pickups, 1-piece ash body with nitro finish





17 comentários:

  1. Fala Paulo, tranquilo?!
    Bela Strato essa Tokai, toda vintage.
    Jean mandando bem nesse riff que na minha opinião, é o mais representativo do som Strato, em toda a história. E olha que não faltam bons exemplos.
    Percebeu se o raio da escala é 7,25 ou 9,5?
    Deve ter algo mesmo especial com essas especificações, especialmente em stratos e teles: escala veneer e captadores variando entre 5,8 e 6k.
    Normalmente soam muitíssimo bem.
    Abraço!

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    1. Obrigado, Marçal! Tô com vcs, também acho que o segredo tá no veneer + captadores com saída baixa. O raio da escala é 7,25, mas ela é tão confortável de tocar, que não parece...

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    2. Escala de veneer de rosewood com um sólido (e envelhecido) maple formam uma combinação matadora, Marçal, mas já tentamos reproduzir isso numa guitarra e ela só ficou boa... :)

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  2. Quando levei a guitarra para o Paulo ver, eu já sabia que ele ia curtir muito, já que eu também tinha me apaixonado por essa Tokai nos primeiros acordes. Sorte a minha que o Brian tá investindo em outros projetos e eu frisei dezenas de vezes que eu era o primeiro da fila, caso ele fosse vender...hehe.

    Além do timbre, o conforto também se destaca. Um cara (não lembro o nome) que tem um canal no youtube, onde mostra várias das suas Fender vintage, disse certa vez que depois que comprou uma Fender Strat 61, não consegue mais se acostumar com as Fender atuais, nem mesmo as reedições. Disse que as reedições parecem maiores, sobrando em tamanho, enquanto a 61 original parece mais compacta, ressonante e apertada (tight). Eu tenho a mesma impressão entre essa Tokai (compacta, tight e ressonante) em relação à minha reedição 62 Hot Rod, embora não haja diferença de tamanho do corpo e braço das guitarras (apenas o braço da 62 Hot Rod que é chunk C, mas não é o fator determinante para essa diferença de impressões).

    No mais, tá tudo dito aí no post, o Paulo como sempre com suas análises detalhadas! Feliz que essa mosca pousou aqui em casa, mas certamente ela vai de vez em quando passear no laboratório do blog...hehe.

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  3. Linda Strato! Essas Japas são muito bem feitas mesmo! Nunca toquei em uma Tokai, mas tive uma Fender '62 RI CIJ e hoje tenho um Clapton CIJ. A '62 era fantástica, mas não me acostumava com o raio de 7.25" e o braço num C bem forte. Hoje talvez eu teria insistido mais e não vendido. Ela tinha um rosewood lindo na escala.
    Ao vivo deve soar incrível, mas na gravação o estalado dessa Tokai tá absurdo! E o Jean toca muito bem, de forma que quando o piloto é bom e a máquina tb, não tem erro!

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    1. Obrigado, Alexandre! Eu tenho uma RI 62 americana, mas também sou fã das japas. Sem dúvida guitarras que vale a pena manter. Quanto à gravação, o Paulo é craque em captar da forma mais verdadeira e convincente possível... mas ainda assim, ao vivo e num bom valvulado é que fico realmente feliz em tocar essa guitarra.

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  4. Paulo e Jean,
    Depois que postei, vi que adicionaram outras informações importantes.
    Eu disse muitíssimo bom som resultante em stratos com algumas especificações vintage, mas o resultado final de apenas bom, como o Paulo citou, talvez seja o padrão para 90% das stratos, no mínimo.
    É como li sobre algum luthier ou músico gringo afirmar que quem tem uma strato com excelente sonoridade, não pode nunca vendê-la, pois não encontrará outra parecida.
    E essa sonoridade suja, rara e bonita que é quase impossível de achar, timbrar e que faz valer a pena todo esforço.
    A respeito dos captadores Fishman Fluence.
    Nem sei se vai rolar post com essa strato também, mas dias atrás estava pesquisando algo sobre os EMG 57/66 ativos e apareceu esses Fishman como alternativa.
    Com a dica do Paulo fui procurar e também achei o resultado impressionante: 2 tipos de timbre vintage fiéis sem nenhum ruído, no mesmo set !!
    No link abaixo, tem o Greg Koch, num workshop na Califórnia demonstrando esses caps em uma strato, (talvez swamp ash) e maple neck, plugada direto num Deluxe Reverb.
    https://www.youtube.com/watch?v=BJMYIkaIKTE
    Ele fala sobre o contato da Fishman para ele ajudar nos testes e desenvolvimento dos caps, o desprezo inicial dele com a ideia, as exigências que ele fez e o resultado.
    Tem outros dois vídeos do mesmo dia demonstrando os equivalentes para Les Paul e para violões.
    Acho que vale gastar um tempo, para quem tem interesse.

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    1. Marçal, sobre os Fishman Fluence, eu vi a primeira vez nos vídeos do Greg Koch, um cara que eu gosto de acompanhar no youtube, pelo jeito incrível de tocar. Ele explica muito bem e mostra várias aplicações, mas o vídeo que me convenceu a comprar esse set foi um bem mais simples, caseiro:

      https://www.youtube.com/watch?v=FC3Rk2FWQCc&t=25s

      Esses captadores realmente cumprem o que prometem: dois timbres clássicos de strato (54 e texas), sem nenhum ruído. Usei algumas vezes em shows com a minha banda e o resultado foi tudo o que eu poderia esperar de melhor! Na hora que precisei de mais corpo no som, só puxei o pot de tone e tava lá. Na instalação dos captadores, optei por ligar um filtro de agudos (já incluso), que filtra bem aqueles agudos hi-fi geralmente presentes em captadores ativos. Aproveitei para comprar o carregador de bateria também, muito prático.

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  5. É interessante o mundo da guitarra... algumas coisas, pra você saber apreciar, tem que ter muita referência, tem que ter testado/provado muito pra saber. Parece um pouco como o vinho, é fácil diferenciar um vinho bom de um vinho ruim, o difícil é começar a classificar os bons, otimos, excelentes e excepcionais. Eu toquei nessa mosca branca e não achei nada especial, e, como o conforto do braço conta muito pra mim, peguei a minha strato na comparação e voltei pra ela sem olhar pra trás. Vocês do blog são os enólogos da guitarra, kkkk... Parabéns ao Jean e ao Blog (Paulo e Oscar), por tocar mais uma vez com maestria e demonstrar essa guitarra pra nós. abraços!

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  6. falta algo , tem um K a mais de quack , bell like tone a mais , as fender dos 70 costumam ser assim tb com braco de maple , belissima strato

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  7. Paulo, sei que aqui não é o adequado mas acho que no post original você ainda não viu

    Tu ainda ta com a guitarra com Lipsticks da GFS ? Comprei o set desses captadores e queria ouvir como ficou na sua pra comparar com a minha
    Teria como algum dia tu fazer um som com ela?

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    1. Não estão mais em stratos, Akilla. Um está guardado e os outros dois foram para a posição do braço em 2 telecasters. Gosto da sonoridade dos Lipsticks, mas não acho que seja superior a um bom single coil.

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    2. Queria um set com um ganho mais baixo pra tocar john mayer, jimi hendrix, rhcp e tal. Paguei 70 dolares no set, tu acha que nesse valor tem set melhor de single coils pra tocar esses estilos?

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  8. Paulo, eu acompanho seu blog há algum tempo e conheço sua opinião em relação ao Cedro. Realmente as guitarras com o corpo em Cedro puro soam horríveis, mas uma guitarra me surpreendeu pelo timbre . Uma Telecaster de Cedro com tampo e braço em Jacarandá da Bahia. Achei o resultado bem interessante, e achei válido mostrar um vídeo e conferir a sua opinião https://youtu.be/EhXMkWQldng

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  9. E ainda comprou em um repasse. Zero lucro. Mas como reclamou do preço! Aliás, o lucro foi a história que rendeu e ainda uma grande visita-aula. Afinal, um negócio para além do business. Abraço!

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  10. ST-42 (1977 - 1979) – U-shaped neck, chrome hardware, non-Kluson type tuners, ceramic pickups, 3- or 4-piece sen ash body with poly finish
    ST-45 (1980 - 1981) – U-shaped neck, chrome hardware, non-Kluson type tuners, ceramic pickups, 3- or 4-piece alder body with poly finish
    ST-50 (1977 - 1984) – U-shaped neck, nickel hardware, Kluson-type tuners, alnico “E,” “U,” “V” or “VI” pickups, 3-piece alder or sen ash body with poly finish
    ST-60 (1977 - 1984) – V shaped neck, nickel hardware, Kluson-type tuners, alnico “E,” “U,” “V” or “VI” pickups, 2-piece sen ash or alder body with poly finish
    ST-70 (1982 - 1983) – U-shaped neck, nickel hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS-1 alnico pickups, 2-piece sen ash or alder body with poly finish
    ST-80 (1979 - 1983) – V-shaped neck, nickel or gold hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS-1 alnico pickups, 2-piece sen ash or alder body with nitro finish
    ST-100 (1979 - 1983) – V-shaped neck, gold hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS1 alnico pickups, 1- or 2-piece sen ash body with nitro finish
    ST-120 (1982) – V-shaped neck, gold hardware, Kluson-type tuners, DiMarzio VS-1 alnico pickups, 1-piece ash body with nitro finish

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  11. Que matéria! Obrigado por compartilharem essa preciosidade. Resta agora a esperança de um dia topar com uma 'mosca branca' e ter condições de comprá-la, rs.

    Queria poder escutar o timbre em outras posições (braço principalmente), mas creio que vocês estejam preparando algo. Grande abraço!

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