terça-feira, 29 de abril de 2014

Guitarras e Carros (e cores...)

 Oscar Isaka Jr.
         Poucas coisas no mundo das guitarras são confusas como os nomes e padrões de cores dos instrumentos. Pra entender de onde vieram as cores que estampam nossos queridos instrumentos é preciso entender qual foi a influência da época e a resposta é simples e direta... CARROS. Os automóveis eram a peça de consumo mais influente nos Estados Unidos na década de 50, logo é fácil imaginar porque a utilização de suas cores nos instumentos.
As únicas cores que a Fender criou na época eram o Blonde e o Sunburst, todo o resto veio diretamente do catálogo de Custom Colors da indústria automobilística. Difícil de imaginar um carro Daphne Blue (ou azul calcinha) que não seja uma Kombi!! rsrsrs!!  É uma verdadeira salada: Surf Green, Sea Foam Green (geralmente confundidos entre si), Daphne Blue, Ice Blue Metalic, Dakota Red, Fiesta Red... E a lista continua. Tons pra armário feminino nenhum botar defeito....

Catálogo de cores

         Nos anos 50 (até 1956 pra ser mais exato), a GM só utilizava a Laca Nitrocelulose (ou "a" nitro, para os íntimos) para acabamento e pintura de seus veículos. Apesar de todas as outras fábricas usarem acabamentos com base esmaltada (Enamel), a GM gostava da "Nitro" pois era de rápida (para a época) secagem, fácil polimento e conserto além do lindo e fácil brilho. Entrando um pouco no aspecto técnico, a tinta é composta basicamente de 3 componentes: pigmento (que dá a cor), resina e solvente. O pigmento e a resina são dispersos no solvente, que controla a consistência da tinta e evapora com a aplicação, deixando somente os outros dois compoentes na superfície pintada. Sem ele, o composto de resina/pigmento seria muito espesso e não espalharia uniformemente pela superfície aplicada. A resina forma uma "película" que permite que o pigmento tenha adesão na superfície e crie uma camada protetora para a mesma, além do brilho inerente. Nitrocelulos usa uma resina à base de celuloide, e a acetona como solvente é uma das características que define o "Nitro" como Laca (Lacquer).

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Curiosidade:
Celuloide é o nome de uma classe de compostos criados a partir da nitrocelulose e de cânfora, a que se adicionam corantes e outros agentes. Os celuloides são considerados os primeiros materiais termoplásticos. Em 1862, o inglês Alexander Parkes registrou a Parkesina, primeiro celuloide e primeiro plástico fabricado. O termo celuloide só passou a ser utilizado em 1870. Moldado com facilidade, o celuloide foi produzido originalmente como substituição para o marfim.
Um de seus usos mais conhecidos é na indústria fotográfica e cinematográfica, na confecção das chamadas películas ou filmes. Historicamente, o primeiro celuloide utilizado em filmes foi o nitrato de celulose. No entanto, como este sofria combustão espontânea, a partir dos anos 1950 foi substituído pelo triacetato de celulose, menos inflamável, constituindo assim o chamado "filme de segurança" ("safety film" em inglês).
Os celuloides também são extensamente utilizados na manufatura de bolas de tênis de mesa, por sua rigidez e elasticidade.
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         O uso da Nitro(celulose), apesar da secagem rápida e ótimo brilho que propiciava, tinha um problema: o uso da resina à base de celuloide, material esse usado na fabricação de escudos (pickguards) do tipo tortoise de marcas como Gibson, Epiphone, DÁngelico entre outros, fazia com que o acabamento esfarelasse/quebrasse com o tempo. Era possível ver esse efeito no craquelado (checking). Além disso, havia também um desbotamento acentuado no pigmento/cor.
Para minimizar esses problemas, a Du Pont (fabricante das tintas) mudou a composição da resina e passou a utilizar um composto acrílico, que tinha mais resistência UV, elasticidade e minimizava um pouco os efeitos da nitro. Porém isso também tinha um lado negativo: não secava tão bem quanto a nitro e não tinha o mesmo brilho no polimento.



         Voltando aos instrumentos, o que a Fender fazia era usar o que quer que estivesse disponível com a Du Pont ("Duco" era a nitro da Du Pont) na época, fosse acrílico ou nitrocelulose. Como disse George Fullerton:"Leo gostava de coisas práticas e funcionais... Quando pensamos em técnicas e materiais de acabamento, nada mais lógico do que copiar a indústria automobilística e as tintas que estavam disponíveis para ela, fáceis de encontrar e baratas".

A Fender quase sempre utilizava verniz de acabamento transparente, que era à base de nitrocelulose. Todo esse processo de evolução das tintas automotivas gerou uma verdadeira salada nas cores dos intrumentos porque o verniz à base de nitro fica amarelado com tempo e interfere/modifica a visualização do pigmento real. Resultado? Algumas cores recebiam esse verniz e outras não, visando manter a aparência real da cor. Por isso é realmente difícil estabelecer um padrão de pintura para a época. Era usado o que funcionava e pronto e os mesmos problemas encontrados nos carros, como desbotamento das cores e o craquelado, que alguns de nós hoje gostamos, na época geravam um baita trabalho e incomodação para a Fender.


         Em meados de 1963 um novo produto começou a ser utilizado como base/selador para a pintura, o famoso "FullerPlast". Produzido por Fuller O'Brien, era uma espécie de composto plástico sintético para cobrir os poros da madeira de maneira uniforme com a finalidade de deixar a pintura mais uniforme também e embora a cor e verniz ainda fossem nitrocelulose, muitos concordam que o emprego do Fullerplast foi o fim da "era Nitro" da Fender e é motivo de muita discussão sobre aqueles que defendem que o Nitro é um dos responsáveis por Fenders antigas soarem tão bem, etc.

Há argumentos para ambos os lados, mas não vou entrar na discussão! :-) O emprego do FullerPlast melhorou muito a qualidade dos acabamentos e minimizou os problemas gerados pelo uso da nitro somente e estendeu-se até meados de 1968, quando Bob Gowan, diretor do departamento de pintura e acabamento da Fender/CBS, baniu de vez  a nitro e começou a empregar o Aliphatic Urethane conhecido hoje como "Poly/Poliuretano/PU". A decisão foi puramente baseada em mão de obra e tempo de produção, pois o PU requer menos camadas, tem secagem mais rápida, maior resistência e brilho mais fácil. Todas, qualidades desejáveis e veneráveis quando o assunto é produtividade.

Digno de nota, quando começou a utilizar o PU a partir de 1968, a Fender fez até propaganda da resistência e da "grossa camada/thick skin" que colocava em seus instrumentos. Hoje sabemos que isso "mata" a ressonância da madeira. O PU fornece um acabamento bonito, muito brilhante, duro e resistente, mas pode atrapalhar em termos de sonoridade.


O jargão "Poly/PU" é adotado até os dias de hoje para tintas e vernizes a base de Poliéster sintético, empregado em 90% de todos os instrumentos fabricados atualmente (inclusive a Fender), por causa das razões que descrevi acima. Instrumentos viajam de navio de e para todas as partes do mundo, sujeitos à variações térmicas (às vezes mais de 40 graus) e de humidade e chegam em seus destinos brilhantes e novinhos em folha. Urethane, Polyurethane, Poly, PU etc. é mais ou menos tudo farinha do mesmo saco, ou seja, compostos de verniz sintético de alta durabilidade.

A Nitrocelulose ainda é utilizada devido ao seu alto apelo junto ao público "vintage" (ao qual me incluo) e não só pelo visual, pois há vertentes e argumentos que alegam que, por ser mais fino e maleável que o PU, interfere menos na ressonância do corpo do instrumento.
Não quero entrar nessa discussão sem fim, mas sim apresentar um pouco da história e dos fatos.

Alguém aí se importa em ter um Cadilac Shell Pink? Ou quem sabe um Mustang Fiesta Red? :-)

25 comentários:

  1. Puxa! Que post bacana! Não sabia de todos esses detalhes. E olha que eu leio muito sobre guitarra. Parabéns.

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  2. Legal, sabia da opção da Fender pelas cores dos carros americanos nos anos 50, mas nunca pesquisei a fundo. As tradicionais cores pretas e sunburst são minhas paixões mas entre as citadas, minha preferida é a Sonic Blue.

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    1. Haviam cores que eu nunca imaginei que fosse de carros mesmo como "Burgundy Mist" por exemplo que eu jurava que era alguma invenção de moda da Custom Shop da Fender. Mas até que no banheirão ali ficou bonito! :-) Essas cores todas são muito legais.

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  3. Pô, muito legal mesmo este post. Dakota Red, Sherwood Green, Lake Placid Blue e Burgundy Mist são os meus preferidos dentre o que foi exibido, mas se for olhar a lista de opções de cores...., nossa, é de pirar o cabeção!!!! heheheheh

    Parabéns.

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    1. Obrigado Rommel. Eu sempre fui fã de Fiesta Red, mas o Daphne Blue tem ganhado espaço tbem.. Na verdade acho que eu acho todas essas cores legais.:-)

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  4. Cara, seu blog deveria dar origem a um livro, tipo: "Fender Ultimate Guide", ou algo assim. Leio tantas vezes que criei a expressão "blog de cabeceira". hauahu! Abraço.

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    1. Rsrs que bom Sérgio. Obrigado! :-)

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    2. Esse é um elogio e tanto, Sérgio. Coisas assim justificam todo o nosso trabalho. Obrigado!

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  5. Belo post Junior, parabéns.
    Sou fã assumido do brust mas confesso que essas cores sólidas da Fender são lindas.
    Parabéns!

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    1. Obrigado Rafael! E quem não gosta de uma bela Sunburst? :-)

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  6. olá gostaria de saber se posso pegar esse e outros artigos para fazer um trabalho dos 60 da stratocaster para o curso de produção fonografica da ucpel? grato

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    1. O conteúdo do blog é de livre acesso e utilização, desde que essa última seja sensata, Tiago. A grande maioria das fotos (e vídeos) são produzidas e/ou editadas por nós e podem também ser utilizadas livremente.
      Agradeceríamos se colocasses também o link para o blog :)

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  7. As duas coisas q eu acho mais legais em cada post do Louco por Guitarra são a capacidade de nos surpreender, e a profundidade exata dada a cada texto. Parabéns ao Paulo e ao Jr. pelo trabalho q têm pra compartilhar esse conhecimento com todos nós. E, sim, é o melhor blog de guitarra do Brasil - e me arrisco a dizer, em língua portuguesa! ;-)

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    1. Deus te ouça, Sid :)
      Se é o melhor em língua portuguesa, então vamos fazer uma versão em inglês pra competir com os gringos! :)

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    2. Valeu Sid! Sempre no apoio! :-)

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    3. Se vier uma versão em inglês, os gringos q se cuidem!!! Hehehehe...

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  8. Muto legal o post. Eu antigamente só gostava de guitarras com cores classicas, de preferencia sunburst. Hoje gosto de quase todas as cores, inclusive as "pinstripe" rsrsrs! Talvez isso seja uma forma de se enganar e ter mais GAS !!! Mas que é bom é!

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    1. Tudo é desculpa pra GAS Rodrigo! :-) Tudo! rsrsr

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  9. Oscar, tem um aspecto interessante que pode ser abordado em um post futuro, é sobre a interação entre os capacitores e os diferentes tipos de captadores. Vc comentou sobre os orange pancakes, sobre como eles fazem diferença no som e etc... creio que eles "casaram" muito bem com os teus Rolph, mas com os Fender 57/62, eu fiz vários testes e não ficaram legais. Por outro lado, combinaram muito com os antiquity seymour surf, ficou perfeito naquele set up. Quando o orange drop estava com os antiquity, ele amaciou demais, mas no fender ele resolveu aquele aspecto "crispy" e áspero dos agudos. A impressão que eu tenho, é q com os orange, eu consigo tocar nas 3 posições sem girar o tone para corrigir os agudos, e com o pancake eu precisava corrigir na ponte. Essa interação entre os diferentes tipos de capacitores com os captadores também gera muito pano pra manga, hehehe.

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    1. Cicero, é um assunto com muitas variáveis e difícil de ser abordado em termos de combinação com captadores pois variam muito de acordo também com a guitarra. Tudo gira em torno de você perceber o DNA da guitarra+captadores e entender como o capacitor vai agir nesse contexto. Por exemplo, vc já assimilou que o Orange Drop amacia o som e que o Prange Pancake ressalta o ataque e agudos, com base nisso tenho certeza que vc saberia aplicar isso numa "nova" guitarra por exemplo. Outro ponto é saber um pouco sobre os captadores com o qual se esta combinando. Os 57/62 tem um som menos redondo que o Antiquity e sabendo disso e da característica dos capacitores, já saberia como combiná-lo para obter o resultado que vc espera. Isso tudo sem contar com gosto pessoal e coisas do genero!! rsrs. O que eu sempre falo, é experimentar e chegar as suas próprias conclusões pois é um upgrade relativamente barato e fácil de fazer e testar e por ser a diferença entre vc gostar de um timbre de uma guitarra e vc ADORA-LO!! :-) Quando a gte começa a ouvir essas nuances é realmente divertido brincar!

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    2. Exato... bem por aí mesmo... desculpa a postagem no topico errado, eu só vi depois q tinha postado nas cores de guitarra, hehehe... eu tava vendo o vídeo da strato KNE do Jack, e é exatamente aquele high end agudo que ela tem q estava me incomodando na minha strato com os 57/62... eu não curti, mas outros gostam... isso comprova q pode ser questão de gosto pessoal.

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