quinta-feira, 15 de maio de 2014

Conserto do HeadStock Quebrado numa Gibson LesPaul - Por Tom Castelli

          Oscar Isaka Jr.

         Continuando um pouco os posts sobre os nossos Luthiers que tanto nos salvam de enrascadas, escolhi um assunto meio assustador para os amantes de Gibson... rsrs!

Talvez a maior "falha" (entre aspas pois é uma característica na verdade) da Gibson é o ângulo no headstock de seus modelos. Praticamente todas as guitarras da Gibson têm o headstock angulado em 17 graus em relação ao braço numa peça única de madeira o que torna o ponto bastante sensível a qualquer batida um pouco mais forte (mais de 90% das quebras é nesse local).

Durante sua história a Gibson tentou de diversas maneiras remediar esse problema mudando a construção dos seus braços e especialmente na era Norlin (1968 a 1986) é possível notar isso com a redução do ângulo e o uso do "Volute"(volume/dobra) e a construção do braço de maple com 3 partes. O maple é muito mais forte que o mogno, e o volute servia de reforço na região mais sensível do braço, reduzindo assim o número de quebras de headstock na época...

Típico headstock "Norlin" com volute.


Enfim, mas quem já não sofreu com um Strap que não prendeu direito e de repente a sua guitarra maravilhosa está indo ao chão.... e acontece isso.....



A razão pra isso é relativamente simples de descrever, observem, nesse corte no centro/longitudinal, a quantidade de madeira que sobra no headstock....



         O Tom Castelli é um conhecido especialista em fazer esse tipo de reparo e fez uma série de fotos para descrever como é possível consertar esse desastre de maneira quase perfeita e de quebra aumentar a resistência do local. É um conserto complexo e que requer muita experiência e precisão por parte do Luthier, mas quem conhece o trabalho do Tom sabe que isso não é problema.


O estrago: assustador...



Depois de juntar os cacos do desastre o primeiro e mais lógico passo é a colagem das peças que restaram. É importante que todas as trincas e farpas sejam devidamente cobertas e coladas. O Tom usa a Titebond 50, que é a mesma cola que a Gibson usa na fabricação de suas guitarras para a colagens dos tampos, braços, etc.






Montado o quebra cabeça, as partes são todas devidamente coladas e ficam nos grampos por alguns dias (normalmente 72 horas) para a completa colagem e secagem. 

Retirados os grampos, o resultado fica assim:




Só a cola no entanto não é suficiente para aguentar o tranco no braço e aí é que o trabalho do mestre Castelli entra em cena. Ele coloca duas "travas" de uma madeira bem dura (jacarandá, imbuía, pau ferro, todas servem) para reforçar a região:



Nesse caso em específico, a quebra ocorreu do começo do ângulo do headstock em direção ao começo do buraco das primeiras tarraxas e o Tom preferiu também reforçar essa parte, fazendo um TOP de jacarandá no headstock. Isso garante mais resistência mecânica em ambos os lados do braço afetado:



Aqui já colado, tupiado e furado. Nem preciso dizer pra notar o capricho... :-)



Depois disso a guitarra vai para a pintura para receber uma nova camada no braço e headstock e ganhar vida novamente. Nesse caso, ganhou tarraxas Gotoh também:


É importante frisar que depois do conserto o headstock fica mais forte que anteriormente. Há inclusive relatos de clientes que "infelizmente" tiveram que submeter suas Gibsons a esse procedimento, que notaram mudança na resposta da guitarra pra melhor. Tecnicamente faz sentido. Com o reforço, o headstock passa a absorver menos as vibrações das cordas e transferindo mais vibrações para o conjunto braço/corpo. 


         Quem acompanha o Blog sabe que o Tom é quem mexe em todas as minhas guitarras e tenho 4 guitarras feitas por ele. Isso por si só mostra a grande confiança e admiração que eu tenho pelo seu trabalho, além de ser um grande amigo pessoal. 

 Tom Castelli

www.dicastellis.com.br
Fone: 41 3342.5154
Fone/fax: 41 3082.7015
Rua Pedro Collere, 220 . Vila Izabel . 80320-320 . Curitiba . PR


33 comentários:

  1. No início desse post deveria ter um aviso do tipo: CENAS FORTES!!!

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    1. Rsrs!! Censurado para menores Vauto, mas no final tudo acaba bem! :-)

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  2. Muito bacana o trabalho do Castelli! Que Deus sempre livre minha SG de precisar de um reparo desses! Hahaha
    Parabéns pelo blog e continuem esse espaço excelente!
    Abraços!

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    1. Alexandre, na SG o problema além do Headstock esta na junção do braço com o corpo que também é sensível. rsrs. É preciso tomar cuidado com Gibs! :-)

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  3. Já ouvi falar de algumas pessoas que fizeram esse reparo,mas fiquei assustado ao ver o corte longitudinal do headstock! Já marquei uma hora com um terapeuta..rsrsrs
    Mas essa fragilidade ocorre só na Les Pauls ou na SG tambem?As CS Reissue tambem tem essa fragilidade?

    Obrigado.

    Otimo post!

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    1. Adauto, essa fragilidade existe em qualquer guitarra com braço feito de 1 peça de madeira e headstock angulado como as Gibson. É preciso cuidado mesmo !:-)

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  4. Se olhar a última foto onde mostra a guitarra inteira, da pra ver que ficou meio torto, para baixo, trace uma reta cortando o meio da guitarra que verá o que quero dizer.
    Isso é efeito da câmara (inclinação e luz) ou resultado final do trabalho mesmo?

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    1. Tenho certeza que é efeito do angulo da camera e/ou de luz.
      O Tom nunca deixaria uma guitarra sair da oficina com o Headstock torto assim B.Totaltone. :-)

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    2. É ângulo da foto sim! Essa impressão gerada é comum em fotos de Gibson, já que o headstock é inclinado. Se a foto não for batida com a câmera exatamente paralela à guitarra, gera essa impressão de que há algo torto.

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    3. Foi o que eu imaginei também Alexandre. Quem tirou as fotos foi o próprio Tom a medida que ia fazendo o reparo. Não houve preocupação com angulação nem nada , mas sim em mostrar os passos! :-)

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  5. Legal essa série de posts sobre o trabalho dos luthiers... esse em especial, tem cenas muito fortes... a colagem espanhola também foi criada com o propósito de impedir essa quebra né? É essa colagem espanhola que é feita em 3 partes, ou seriam apenas 2?

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    1. Cicero, não sei exatamente a razão por trás da técnica de colagem espanhola(Paulo, se vc souber.. rsrs), mas com certeza ela mitiga esse problemas das Gibson e deixa o headstock mais forte. A area da colagem é maior e não está na curva garantindo veios mais longos na junta. Além disso a colagem espanhola economiza madeira e torna a fabriação mais fácil... 2 coelhos com uma pedrada! :-)

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    2. Até onde sei, a colagem espanhola tinha como objetivo um melhor aproveitamento da madeira e consequentemente uma redução significativa no custo final. Se há vantagens, que sejam bem vindas!

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    3. Eu também achei que sim Alex, mas não tinha certeza... Valeu :-)

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    4. Embora eu já tenha lido (de luthier) que a colagem espanhola aumenta a resistência do braço - e até concordo - basta inverter o sentido das fibras, a razão primordial é economia de madeira, conforme bem esclareceu o Alex Frias.

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    5. Qual a diferença no timbre entre colagem espanhola e braço inteiriço?

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    6. Sid, difícil especificar... Seria preciso testar uma guitarra com braço inteiriço e logo depois refazer a emenda do mesmo braço com a colagem para ser ter uma resposta precisa sobre o assunto. A colagem espanhola é mais resistente a quebras e economiza madeira, mas o braço inteiriço é uma característica de 50 anos da Gibson... Como argumentar?? :-)

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    7. Essa é pra rir: Li a pergunta do xará aí acima e pensei: Mas se eu tô lendo o post agora, como é q tem uma pergunta minha?!?!?!?! Kkkkkkkkkkkkkkkkkk... tudo bem q não é um nome tão comum, mas tb não sou o único, né? :-p

      Como sempre, parabéns pelo post, e é admirável o trabalho do Castelli!!!

      Em tempo: O post causa calafrios em qq um q tenha guitarra com headstock angulado. Nossa Senhora das Seis Cordas q proteja nossas meninas!!!

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    8. Hahaha E eu respondi achando que era você Sid!! POOTZZ

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  6. Como sempre: Parabéns ao blog !!! Tenho uma Les Paul preta idêntica a da foto e sempre tive dúvidas sobre a origem dela. Se alguém souber qual é o modelo... Outra coisa que me deixou intrigado é que o meu exemplar tem algo parecido com uma emenda no meio do braço, quando era de se esperar a emenda bem na junção headstock+braço, típico para aproveitamento de madeira em braços com headstock inclinado. Será que fui "premiado" ? Ass. Anderson

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    1. Anderosn, é uma Gibson LesPaul Studio aparentemente da série "faded" com acabamento fosco lançada um tempo atrás. Todas as Gibson LesPaul que vi até hoje tem braço ou de peça única, ou com 3 partes longitudinais como na primeira foto. Acho que seria interessante você verificar com a própria Gibson sobre o modelo e etc da sua LesPaul pois eu não conheço nenhuma Gibson que tenha emendas no headstock ou colagem espanhola. Abraço! :-)

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    2. Les Paul Gibson com colagem espanhola? Também não me lembro de ter visto :)

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    3. Oscar, Paulo, na verdade foi pura ignorância minha a questão da colagem espanhola, pois costumo vê-la em outras guitarras com headstocks inclinados. Observei melhor e vi que no headstock da minha guitarra tem apenas as "asas" (bem pequenas) feitas com madeira no sentido da largura do mesmo. Já vi este recurso sendo utilizado em headstocks de stratos (parte inferior, na região onde o Paulo "conserta" o "bico de papagaio"), para economia de madeira também. Tais "asas" são bem estreitas e não se comparam com as ilustradas na primeira foto desta matéria. Quanto ao modelo, sempre estranhei que todas as "Faded" que havia visto tinham a capa do captador cromada e na minha os pólos são aparentes (sem capa). Já enviei o email para a Gibson com o serial. Mais ainda estou intrigado com a suposta emenda na região da sexta casa. Parece um arremate de conserto (?!?!?), mas a guitarra foi comprada nova e todas as outras (da loja, mesmo modelo) tinham este detalhe. Abraços e obrigado por existir este blog ! Ass. Anderson

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    4. Anderson as "asas" são comuns e presentes em todas as LesPaul e SGs e mais alguns outros modelos. A tal emenda que você fala é sim incomum e eu pessoalmente nunca vi uma Gibson com emenda no HeadStock/Braço que fosse original. Se a sua tem, eu investigaria se houve algum reparo ou algo do tipo.

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    5. A Gibson me respondeu com o modelo: "Les Paul Studio Satin 60’s model in Satin Ebony finish".
      http://www2.gibson.com/Products/Electric-Guitars/Les-Paul/Gibson-USA/Les-Paul-Studio-60s-Satin.aspx
      Obrigado pela atenção !
      Ass.: Anderson

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  7. Bah... #medomodeon...

    Baita trabalho do Tom hein Paulo, eu tenho aqui em casa um case que foi feito por eles isto em 1996 mais ou menos... O capricho é surpreendente... :-)

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    1. Killermano, o post é do Oscar. Infelizmente não conheço o Tom :)
      ... E nem sabia que ele faz cases...
      Abraço!

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    2. Sim Killer, eles fazem cases sim e são sempre sob-medida e ótimos!! Só coisa de primeira! :-)

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  8. Rapaz,vc ñ tem nenhum bloco de ponte strato sobrando ñ ? quero trocar o da minha gianinni,mas tô liso,e vc vive trocando de guita,de ponte,de tarraxa,ñ tem como vc ajudar o cidadão aqui ?

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    1. Definitivamente não. Desculpe, mas os próximos comentários nesse sentido serão excluídos diretamente.

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  9. Mesmo consertando só com cola, a resistência é aumentada?? Estou paquerando uma Gibson mas q tem este rachado. Lá do sul...

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    1. Se a colagem for bem feita, pode até ficar mais resistente que antes.

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  10. Eu sempre pago pau pra quem reconstitui headstock quebrado de Gibson. Acho um trabalho muito foda e é determinante pra saber o quão "higiênico" é um luthier. Mas eu fico imaginando por que nesses casos, em vez de confeccionar um headstock novo e adotar um scarf joint tipo o das Ibanez , os caras são puristas e preferem colar farelo por farelo. Tipo assim não seria melhor?

    http://i.imgur.com/omSPaUs.png

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