terça-feira, 13 de maio de 2014

Dicas do Inaldo: centralizando o braço

Paulo May


Conforme prometido, iniciamos com esse post uma série com dicas do luhtier Inaldo Souza. 

Eu e o Oscar costumamos montar e modificar nossas guitarras sempre utilizando a segunda diretriz do blog que é "Faça você mesmo, se possível". Porém, a primeira e mais importante diretriz é "Leve para um luthier se você não sabe o que está fazendo!" KKK! 
O Oscar sempre leva as dele, em Curitiba, para o luthier Tom Castelli (posts relacionados aqui e aqui).

A strato "KNE" começou com um corpo de hard ash da KNE, que evoluiu assim:


Eu fiz o tingimento (anilina em álcool) e o Inaldo finalizou com um sunburst de duas cores (2-tone sunburst, do preto para o amarelo, sem passar pelo vermelho, que é o 3-tone sunburst) em nitrocelulose (mais sobre pinturas e envernizamento aqui).
Eu tenho crise de ansiedade sempre que vou colocar um braço ou ponte em uma guitarra. Um milímetro fora do ponto e tudo fica torto. A ponte, os captadores e o braço devem ficar perfeitamente alinhados no centro. Confio plenamente no trabalho do Mitch da KNE (California, EUA) portanto já sabia que a furação da ponte estava correta em relação ao tróculo. Era só questão de colocar o braço (também de um bom fornecedor: Olivewood Guitar Company, do Canadá) que tudo deveria ficar naturalmente centralizado, pois em ambas as peças as medidas têm o padrão "Fender".
Mas como o braço sofreu uma variação de 45 ou mais graus (do inverno do Canadá para o verão torresmo do Brasil), certamente precisaria de cuidados profissionais e o luthier faria o acabamento de nitrocelulose, deixei tudo nas mãos dele (o escudo já foi com os captadores montados e soldados).

O grande macete pra centralizar tudo é prender o braço (sem parafusar), já com as tarraxas, no tróculo usando um grampo de pressão, no Brasil conhecido como "sargento":


O braço é preso pelo sargento, a ponte é parafusada e colocamos a primeira e sexta cordas, que vão traçar os limites externos do alinhamento. O alinhamento pode servir também para as primeiras (e essenciais) marcas das ranhuras do nut (essa strato ganhou um nut de osso):


Se o braço estiver desalinhado, geralmente há um pequeno espaço de manobra no tróculo para angular lateralmente. Caso esteja muito fora do alinhamento, ou o tróculo ou a ponte foram cortados/posicionados no local incorreto e aí é mais complicado...
Aprendi a alinhar de outra maneira: colocava o braço no corpo, ambos sobre uma mesa e sem prender o braço, passava uma linha/cordão que ia do centro do nut/braço até o centro da ponte. Se o fio passasse durante o trajeto no meio de todos os marcadores/bolinhas, o alinhamento "deveria" estar correto. Então fazia a marcação do braço (com uma haste/chave de metal com ponta, passando pelos furos do tróculo e marcando os locais de furação na base do braço), mas ai é que dava merda: como o braço não estava preso, mesmo com muita atenção ao movimentá-los (corpo e braço) para a posição de marcar/furar/parafusar, podia desviar um milímetro ou mais. E um milímetro em alinhamento de guitarra é a diferença entre um trabalho bem feito e outro amador. Dois milímetros não é nem amador, é trabalho porco mesmo!
Nesse método do Inaldo, como o braço está preso e não se movimenta, tudo permanece como está. 

Veja na parte de trás. Na foto, apenas para ilustrar, os parafusos já estão colocados, mas o sargento é utilizado só pra marcar a furação do braço. Daí retiramos o sargento, separamos o braço e fazemos os quatro furos (de preferência, sempre com furadeira de bancada) de fixação um pentelho menores que os parafusos e no final é só parafusar. Tudo estará alinhado :)


Dica extra: em guitarra tudo é parafusado sob pressão. Pra facilitar (e como!) a penetração do parafuso na madeira, passe um pouco de cera de abelha (lojas de suprimentos para marcenaria) nos parafusos antes (numa emergência, um sabonete umedecido ajuda também):

Cera de abelha e chave com ponta, utilizada para marcar e/ou  fazer o furo guia do parafuso.



sexta-feira, 9 de maio de 2014

Inaldo e o Blog

Paulo May


Inaldo Souza, luthier.

         Pra começar, é provável que esse blog nem existisse não fosse esse cara de nome estranho. Já o mencionei várias vezes, invariavelmente dizendo que ele solucionou algum problema ou besteira que fiz.
Também já expliquei como mergulhei nessa cachaça de tunagem, montagem e timbragem de guitarras, mas preciso explicar novamente para colocar o Inaldo, que foi o catalisador de tudo. Vamos lá:
         Assim como a maioria de vocês, sempre fui apenas um guitarrista comum, daqueles que não perde muito tempo analisando ou tentando entender a guitarra enquanto instrumento. Sempre preferi Telecaster e, exceto por um breve e sofrido início com uma Telecaster Finch e uma SG Giannini, sempre tive boas: uma Tele Fender 1974 e outra de 1968.

Fender Telecaster Custom 1974 (com tremolo Bigsby)

Havia uma terceira guitarra por um tempo, a também excelente Carvin V220 (só agora sei que ela era toda de maple). Assim, protegido por boas guitarras, nunca tive que batalhar muito por um bom timbre, pois já o tinha de bandeja. O guitarrista base da minha banda era meu primo e ele havia adquirido, em 1985, uma Stratocaster 1983 americana (aqui começam as pegadinhas: era uma strato de 1983 - talvez o pior ano da Fender). A Tele 74 dava de dez naquela strato, por isso nunca me interessei por stratos. Até 2002, quando resolvi ter uma. Blackmore, Clapton, Mark Knopfler e SRV  não podiam estar errados...

Nesse momento, toda a minha ignorância voltou-se contra mim e, encurtando a história, fiz uma "stratocaster custom" com um luthier, paguei quase o mesmo que pagaria por uma americana e fiquei com uma porcaria nas mãos. A guitarra era linda, com hardware caro e importado, aparentemente idêntica a uma strato Fender, mas o som era uma porcaria. Durante um ano tentei por várias vezes tocá-la, mas sempre vinha aquele timbre morto, desequilibrado e sem ressonância.
Que merda! Fiquei de saco cheio e resolvi pesquisar... Descobri que a minha "Fender de Luthier" tinha corpo de cedro, braço de marfim, ponte Wilkinson VS50 e captadores Seymor Duncan SSL-6. Por incrível que pareça, ela tinha tudo que eu mais detesto em stratos!
Enquanto aprendia, minha cabeça ficava: "Cedro? Mas que porra é essa? Deveria ser alder ou ash..."

Bem, daí em diante tudo evoluiu até esse blog, que existe primariamente porque não quero que outras pessoas cometam os mesmos erros que eu. Tu podes até gostar e querer uma strato com corpo de cedro, mas precisas SABER o que é isso e como ele vai influenciar no teu timbre. Idem para o resto... Vinte anos tocando guitarra e eu nem sabia o que era e pra que servia o "TENSOR" do braço. Foda!

(Inaldo e a strato de ash. Obs: contato: celular: 84632630)

         No meio desse caminho encontrei o Inaldo, depois de um frustrante contato com outro luthier, que acredito, não tinha o menor interesse - ou saco - pra me explicar pelo menos se "dava pra trocar o braço" da minha strato porcaria. Aos poucos, o Inaldo foi explicando alguns detalhes de setup, madeiras, braços e um belo dia, quando levei uma guitarra pra trocar os captadores - pela terceira vez - ele disse: "Cara, estás gastando muito comigo... 80% do que eu faço aqui tu podes fazer em casa. Volte no sábado que eu te ensino a soldar e trocar o braço, pelo menos"

Por aí já dá pra perceber a índole de uma pessoa, não? :) Nos tornamos grandes amigos, (continuo gastando bastante com ele, mas tenho desconto de cliente vip, hehehe), hoje em dia discutimos as coisas mano a mano mas ainda aprendo uma barbaridade naquela oficina em Santo Amaro da Imperatriz, pertinho de Floripa e da serra catarinense. Essa é a vista da janela:


Quando pensei em um nome para esse blog - e nem sabia que seria tão acessado - cogitei:"Meu Luthier Toca Melhor Que Eu". Ele já foi metaleiro e sabe fritar muito bem :).

Preparei um "making of" da minha strato KNE postada há pouco tempo com algumas dicas do Inaldo - coisas que parecem simples mas só o são quando sabemos como fazê-las, tipo centralizar o braço de uma guitarra, por exemplo... Mas vou parar esse post aqui e fazer o próximo especificamente para isso.

Valeu, Inaldo. O blog te agradece! :)


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PS: Pra quem é da região: a oficina do Inaldo é em Sto Amaro, mas ele e seu sócio Alex Arroyo (guitarrista e luthier) que ultimamente está nos brindando com suas habilidades nas demos de guitarra, têm uma outra, para pequenos trabalhos e setups, no centro - Felipe Schmidt, galeria Jaqueline, em frente a uma loja de instrumentos musicais: "Officina Luthieria" (Tel:32098780).

domingo, 4 de maio de 2014

The 60's Strat

 Oscar Isaka Jr.

         Em 1959 a Fender introduziu a escala de rosewood (jacarandá) na já famosa Stratocaster com o objetivo primariamente estético, pois a escala de Maple envernizado gasta e "suja" com o uso, o que causava reclamações dos clientes na época. De brinde, os guitarristas perceberam que além do "feeling" mais liso e agradável ao tocar do Rosewood, o timbre também ficava levemente mais cheio e encorpado, em comparação ao ataque rápido e snappy conhecido do maple.

Associado a uma leve mudança nos captadores também, nascia talvez o som mais famoso da Stratocaster, imortalizado por mestres como Stevie Ray Vaughan, Rory Galagher, Jimi Hendrix . O som rockeiro de Strato, um timbre que é gordo e seco nos graves e médios e tem agudos mais redondinhos, com um pouco menos de brilho que o característico som 50's. Excelente para uso com overdrive e distorção pois mantém toda a definição sem se tornar muito fizzy.

Sou absolutamente FÃ desse timbre! As posições 2 e 4 ficam lindas e sempre muito suaves, o captador da ponte tem um twang seco e cortante, ótimo para leads mais agressivos, o do braço soa grande e bonito com um som quase mid-scooped (atenuação de médios, médios cavados) sem perder o ataque. John Mayer utiliza esse DNA sonoro, de onde vem grande parte do mid-Scoop que ele tornou tão popular.
Fender Rory Gallagher
Conversando com o Paulo, decidi por uma Strato TRUE 60's que capturasse esse som que tanto ouvimos por diversas gravações dos melhores strateiros do mundo. Mas qual? Uma 60 "slab board"? Uma 63 "veneer board"? Uma 69 Hendrix style? Todas com o mesmo DNA mas com leves diferenças nos timbres e características. Em uma conversa rápida com o Mr. Jim Rolph, ele comentou como as veneer board (escala fina) soavam bem... Eu não tinha ainda ouvido/tocado numa então resolvi que montaria uma "Partscaster 63 Tribute".

Corpo KNE de Alder
Mãos à obra. Decidi que seria totalmente VOS (Vintage Original Specs).
OK, para começar, preciso de um BOM corpo de Alder! Encomendei da KNE Guitars nos EUA, por sinal, excelente em tudo. O Mitch é um cara extremamente gente fina e fácil de trabalhar. É só mandar por email o que vc quer que ele responde sempre prontamente!
O braço inicialmente foi um problema, pois poucos fabricantes hoje produzem os veneer board.

A escala "slab board" é grossa e colada reta no maple, a curvatura/raio é feito posteriormente. Portanto, fica com mais rosewood no centro.

Braço 60s, sem "Skunk Stripe"
Achei no ebay um da All Parts exatamente do jeito que eu queria. Escala com 7,25" de raio, braço de maple com Veneer board sem o Skunk Stripe (característica dos anos 60 também, onde o tensor era colocado antes da colagem da escala, eliminando assim aquele corte longitudinal), mais gordinho e com trastes vintage. Eu sei que a tocabilidade fica um pouco comprometida pois o raio mais acentuado requer uma ação mais alta e os trastes mais finos dificultam bends etc., mas o plano era realmente montar uma VOS!

Os captadores usados foram os Jim Rolph Pretenders 62 e comprei todo o hardware próprio da Fender, desde tarraxas vintage, escudo 11 furos, knobs, chave e potenciômetros, incluindo um capacitor NOS/New Old Stock cerâmico de alta voltagem. Esses capacitores eram conhecido na época como Orange Pancakes pelo seu formato redondo e tamanho. Muitos strat maníacos afirmam categoricamente que eles fazem a diferença no som e pelo que eu pude constatar, fazem mesmo. Claro que isso é tão subjetivo como a discussão dos BumbleBees nas LesPaul e não vamos entrar no mérito, mas quero deixar registrado que PRA MIM, sim, eles fazem a diferença no som. Montei toda a elétrica como manda o figurino! Não podia ficar ruim... rsrs






A ponte é um capítulo à parte. A intenção era usar a Fender 57/62 vintage mesmo ( a mesma usada nas American Vintage) mas acabei trocando o bloco por um Manara (sim é melhor que o Fender de aço original) e os saddles pelos da marca japonesa Raw Vintage (mesmo grupo da Xotic) que é conhecida pelas melhores reproduções dos saddles originais. Como eu estava nos EUA, comprei pra testar mesmo, mas a diferença não é assim tão grande, talvez o som/ataque com um pouco mais de coesão do que os Fender mas não sei se justifica os 50 dólares a mais. O DNA dos Bent Steel está lá de qualquer forma.



PINTURA - O corpo e o braço receberam uma pintura fina com nitrocelulose e pedi pro Luciano (responsável pela pintura da Castelli) fazer um Daphne Blue, cor muito típica dos anos 60 também.


Daphne Blue
Depois de montada .....


O resultado sonoro final ficou muito melhor do que eu esperava!! A pegada ficou animal, e o som então ... Levei essa strato pra ensaiar várias vezes na minha bandinha de Blues/Rock (tocamos ZZ TOP, Lynyrd Skynyrd e etc) e não só ela segurou bem a onda com todos os níveis de drives  usados, mas todo mundo gostou e elogiou o som! Uma TRUE 60's com o melhor do DNA Fender clássico gastando menos do que uma Fender Mexico Std custa aqui no BR.




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Comentário adicionado ao post:

ALEX FRIAS: "Quanto à captação, esse período dos anos 60 é bem variado, pois há boas mudanças de número de espiras, a entrada do Plain Enamel no lugar do Formvar e da metade da década em diante o uso de máquinas automáticas. Pelo material que pesquisei, se for o som dos captadores da Strat principal do SRV que a pessoa quer então pups mais na onda dos 59 serão o alvo, de preferência enrolados em folha de cobre aterrada e contando com um dummy coil pra ajudar a exterminar em parte o ruído de 60 Hertz e seus harmônicos. Os captadores Epic 59 da Klein parecem se aproximar bastante dessa ideia."

terça-feira, 29 de abril de 2014

Guitarras e Carros (e cores...)

 Oscar Isaka Jr.
         Poucas coisas no mundo das guitarras são confusas como os nomes e padrões de cores dos instrumentos. Pra entender de onde vieram as cores que estampam nossos queridos instrumentos é preciso entender qual foi a influência da época e a resposta é simples e direta... CARROS. Os automóveis eram a peça de consumo mais influente nos Estados Unidos na década de 50, logo é fácil imaginar porque a utilização de suas cores nos instrumentos.
As únicas cores que a Fender criou na época eram o Blonde e o Sunburst, todo o resto veio diretamente do catálogo de Custom Colors da indústria automobilística. Difícil de imaginar um carro Daphne Blue (ou azul calcinha) que não seja uma Kombi!! rsrsrs!!  É uma verdadeira salada: Surf Green, Sea Foam Green (geralmente confundidos entre si), Daphne Blue, Ice Blue Metalic, Dakota Red, Fiesta Red... E a lista continua. Tons pra armário feminino nenhum botar defeito....

Catálogo de cores

         Nos anos 50 (até 1956 pra ser mais exato), a GM só utilizava a Laca Nitrocelulose (ou "a" nitro, para os íntimos) para acabamento e pintura de seus veículos. Apesar de todas as outras fábricas usarem acabamentos com base esmaltada (Enamel), a GM gostava da "Nitro" pois era de rápida (para a época) secagem, fácil polimento e conserto além do lindo e fácil brilho. Entrando um pouco no aspecto técnico, a tinta é composta basicamente de 3 componentes: pigmento (que dá a cor), resina e solvente. O pigmento e a resina são dispersos no solvente, que controla a consistência da tinta e evapora com a aplicação, deixando somente os outros dois componentes na superfície pintada. Sem ele, o composto de resina/pigmento seria muito espesso e não espalharia uniformemente pela superfície aplicada. A resina forma uma "película" que permite que o pigmento tenha adesão na superfície e crie uma camada protetora para a mesma, além do brilho inerente. Nitrocelulose usa uma resina à base de celuloide - e a acetona como solvente é uma das características que define o "Nitro" como Laca (Lacquer).

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Curiosidade:
Celuloide é o nome de uma classe de compostos criados a partir da nitrocelulose e de cânfora, a que se adicionam corantes e outros agentes. Os celuloides são considerados os primeiros materiais termoplásticos. Em 1862, o inglês Alexander Parkes registrou a Parkesina, primeiro celuloide e primeiro plástico fabricado. O termo celuloide só passou a ser utilizado em 1870. Moldado com facilidade, o celuloide foi produzido originalmente como substituição para o marfim.
Um de seus usos mais conhecidos é na indústria fotográfica e cinematográfica, na confecção das chamadas películas ou filmes. Historicamente, o primeiro celuloide utilizado em filmes foi o nitrato de celulose. No entanto, como este sofria combustão espontânea, a partir dos anos 1950 foi substituído pelo triacetato de celulose, menos inflamável, constituindo assim o chamado "filme de segurança" ("safety film" em inglês).
Os celuloides também são extensamente utilizados na manufatura de bolas de tênis de mesa, por sua rigidez e elasticidade.
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         O uso da Nitro(celulose), apesar da secagem rápida e ótimo brilho que propiciava, tinha um problema: o uso da resina à base de celuloide, material esse usado na fabricação de escudos (pickguards) do tipo tortoise de marcas como Gibson, Epiphone, DÁngelico entre outros, fazia com que o acabamento esfarelasse/quebrasse com o tempo. Era possível ver esse efeito no craquelado (checking). Além disso, havia também um desbotamento acentuado no pigmento/cor.
Para minimizar esses problemas, a Du Pont (fabricante das tintas) mudou a composição da resina e passou a utilizar um composto acrílico, que tinha mais resistência UV, elasticidade e minimizava um pouco os efeitos da nitro. Porém isso também tinha um lado negativo: não secava tão bem quanto a nitro e não tinha o mesmo brilho no polimento.



         Voltando aos instrumentos, o que a Fender fazia era usar o que quer que estivesse disponível com a Du Pont ("Duco" era a nitro da Du Pont) na época, fosse acrílico ou nitrocelulose. Como disse George Fullerton:"Leo gostava de coisas práticas e funcionais... Quando pensamos em técnicas e materiais de acabamento, nada mais lógico do que copiar a indústria automobilística e as tintas que estavam disponíveis para ela, fáceis de encontrar e baratas".

A Fender quase sempre utilizava verniz de acabamento transparente, que era à base de nitrocelulose. Todo esse processo de evolução das tintas automotivas gerou uma verdadeira salada nas cores dos intrumentos porque o verniz à base de nitro fica amarelado com tempo e interfere/modifica a visualização do pigmento real. Resultado? Algumas cores recebiam esse verniz e outras não, visando manter a aparência real da cor. Por isso é realmente difícil estabelecer um padrão de pintura para a época. Era usado o que funcionava e pronto e os mesmos problemas encontrados nos carros, como desbotamento das cores e o craquelado, que alguns de nós hoje gostamos, na época geravam um baita trabalho e incomodação para a Fender.


         Em meados de 1963 um novo produto começou a ser utilizado como base/selador para a pintura, o famoso "FullerPlast". Produzido por Fuller O'Brien, era uma espécie de composto plástico sintético para cobrir os poros da madeira de maneira uniforme com a finalidade de deixar a pintura mais uniforme também e embora a cor e verniz ainda fossem nitrocelulose, muitos concordam que o emprego do Fullerplast foi o fim da "era Nitro" da Fender e é motivo de muita discussão sobre aqueles que defendem que o Nitro é um dos responsáveis por Fenders antigas soarem tão bem, etc.

Há argumentos para ambos os lados, mas não vou entrar na discussão! :-) O emprego do FullerPlast melhorou muito a qualidade dos acabamentos e minimizou os problemas gerados pelo uso da nitro somente e estendeu-se até meados de 1968, quando Bob Gowan, diretor do departamento de pintura e acabamento da Fender/CBS, baniu de vez  a nitro e começou a empregar o Aliphatic Urethane conhecido hoje como "Poly/Poliuretano/PU". A decisão foi puramente baseada em mão de obra e tempo de produção, pois o PU requer menos camadas, tem secagem mais rápida, maior resistência e brilho mais fácil. Todas, qualidades desejáveis e veneráveis quando o assunto é produtividade.

Digno de nota, quando começou a utilizar o PU a partir de 1968, a Fender fez até propaganda da resistência e da "grossa camada/thick skin" que colocava em seus instrumentos. Hoje sabemos que isso "mata" a ressonância da madeira. O PU fornece um acabamento bonito, muito brilhante, duro e resistente, mas pode atrapalhar em termos de sonoridade.


O jargão "Poly/PU" é adotado até os dias de hoje para tintas e vernizes a base de Poliéster sintético, empregado em 90% de todos os instrumentos fabricados atualmente (inclusive a Fender), por causa das razões que descrevi acima. Instrumentos viajam de navio de e para todas as partes do mundo, sujeitos à variações térmicas (às vezes mais de 40 graus) e de humidade e chegam em seus destinos brilhantes e novinhos em folha. Urethane, Polyurethane, Poly, PU etc. é mais ou menos tudo farinha do mesmo saco, ou seja, compostos de verniz sintético de alta durabilidade.

A Nitrocelulose ainda é utilizada devido ao seu alto apelo junto ao público "vintage" (ao qual me incluo) e não só pelo visual, pois há vertentes e argumentos que alegam que, por ser mais fino e maleável que o PU, interfere menos na ressonância do corpo do instrumento.
Não quero entrar nessa discussão sem fim, mas sim apresentar um pouco da história e dos fatos.

Alguém aí se importa em ter um Cadilac Shell Pink? Ou quem sabe um Mustang Fiesta Red? :-)

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PS: excelente fonte de referência nos dias atuais, pra quem quer se aventurar (CLIQUE)

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Stratocaster "KNE" de Ash

(obs: antes de fazer perguntas e ou postar comentários, leia aqui: CLIQUE)


Paulo May


          Apresento-lhes a minha nova strato de Ash. Linda e com timbre mortal :). Antes que algum incauto pergunte "KNE? Que marca é essa?", esclareço que "KNE" é o apelido dela, já que o corpo foi adquirido nessa luthieria/empresa (mais adiante).
Já falei tantas vezes que ia parar de montar guitarras, mas havia uma lacuna óbvia: ainda não tinha uma stratocaster de hard ash. Tenho duas maravilhosas de alder (já postadas aqui: a Black e a 97) e até uma de swamp ash (SX: clique), mas, devido à imprevisibilidade do ash, principalmente o hard ou northern, até agora tinha receio de arriscar.
A stratocaster com corpo de ash e braço de uma peça de maple é de fato o padrão original criado por Leo Fender em 1954 (o Alder só passou a ser utilizado e dominante depois de 1956), por isso eu precisava ter uma :). Pra saber mais sobre essas diferenças entre alder e ash, clique aqui para o vídeo da Fender onde o diretor de marketing e luthier, Mike Eldred, explica tudo.

Nesse vídeo, meu amigo (guitarrista e luthier) Alex Arroyo dá uma canja rápida pra vocês terem uma ideia do timbre (foi meio na correria então só temos os timbres do captador do braço e ponte):



          O risco era grande, por isso optei pelo melhor (e com ótimos preços) fornecedor possível: a KNE guitars, da Califórnia. Essa dica me foi passada pelo Oscar em 2013 e já havia comprado um fantástico corpo de alder (duas peças, coladas fora do centro) deles. O Mitch, da KNE,  é um cara muito legal, tem vários clientes no Brasil e sabe dos nossos impostos abusivos. Dessa vez não precisei passar pelo stress da receita federal porque o Oscar estava nos EUA e trouxe o corpo pra mim.
Pedi ao Mitch (ele é sempre solícito, mas não insista em pedir o headstock finalizado :) ) um hard ash mais leve (sim, hard ash pode pesar igual a uma pedra) e colagem central das duas peças, já que faria um acabamento sunburst de duas cores. A KNE seleciona e compra suas madeiras de ótimos fornecedores, alguns também utilizados pela própria Fender, portanto, nem preciso dizer que as madeiras são top. O padrão é 100% Fender, então não há erro: um braço também no padrão Fender vai encaixar como uma luva.

(obs 01/2016: Convém acrescentar aqui que, embora seus produtos sejam de extrema qualidade, a KNE não é fornecedora autorizada/licenciada pela Fender. Mesma qualidade - senão melhor - , mesmo padrão, mas NÂO é Fender, ok? Depois desse post já vi gente vendendo corpos KNE no mercado livre dizendo que é licenciado...)


A junção corpo/braço é FUNDAMENTAL no timbre das guitarras: quanto mais contato, maior a transmissão sonora. O braço comprei via e-bay de um luthier canadense, também 100% padrão Fender, peça única (essencial: braços de maple com escala colada de maple soam diferentes) e quase "flame". Muito bonito e com acabamento (claro, também de nitrocelulose) na cor "vintage", que é um amarelo escuro, meio âmbar.

          A minha ideia era montar uma strato nas especificações exatas da original de 1954, mas dois detalhes fui obrigado a deixar passar: pedi escala com raio de 9.5 polegadas (e não 7.25 como as dos anos 50 e 60) e coloquei saddles/carrinhos modernos, de aço. Também tomei a liberdade de utilizar um bloco de aço Manara nas especificações de uma ponte Wilkinson, ou seja, há um esperto deslocamento do ponto de entrada da primeira e quarta cordas pra manter todas as 6 com praticamente a mesma extensão/tensão pré saddles. Ideia genial do Trevor Wilkinson que o Leo Fender esqueceu de implementar. Veja:

Na foto de cima percebe-se também o ultrafino acabamento de nitrocelulose (dá pra sentir os veios do ash com os dedos) e o toque de flame do braço de maple.

Tarraxas Gotoh Vintage, captadores: Fender Custom Shop 54 na ponte, Rosar Fullerton no meio e Rosar Fullerton (especial de formvar) no braço (esse é idêntico ao 54). Se fosse utilizar essa guitarra ao vivo em shows, provavelmente colocaria um Rosar Rock Surf 43 na ponte (ou um Blues 43), só pra garantir o corte de médios e evitar que amps ruins avacalhem com os agudos do CS54 (estão no limite).

A grande diferença entre essa e as minhas outras guitarras é que eu decidi não montá-la sozinho. Só montei guitarras até agora pra aprender e SABER, mas nunca tive muito saco pra isso. É cansativo e muitas vezes entediante, principalmente a parte de acabamento/pintura. Além disso, queria ter plena certeza que ela ficaria com máxima tocabilidade... Então deixei tudo nas hábeis mãos do meu amigo, professor e luthier Inaldo. Foi ótimo também porque vários trastes precisavam de retificação (provavelmente devido à viagem/temperaturas do Canadá/Brasil e o terrível tempo de espera pela liberação da receita no Brasil).

Todos os plásticos (de excelente qualidade e acabamento), canoa do jack e back plate foram comprados na China via e-bay/paypal.


          O logotipo Fender com tinta metálica (idêntico ao original) comprei na CroxGuitars (Inglaterra): o Crox também é gente finíssima, conhece os brasileiros e envia os logos dentro de uma carta, portanto...
Pro acabamento ficar perfeito, utilizei "Tru-Oil" (Birchwood-Casey), que foi uma dica do meu amigo Vítor Tavares (que só monta e vende guitarra no padrão Fender - filezinho). O tru-oil é fantástico - utilizei o dedo pra espalhar e bastam 4 ou 5 demãos, lixa 600 de leve, mais uma ou duas demãos, uma passada da 600, depois 1200, polir e correr pro abraço! :). Tinha um cara vendendo 200 ml de tru-oil no ML dia desses, mas o meu comprei no e-bay. (Procure por "guitar + tru-oil" ou "tru-oil finish" no youtube antes de perguntar, por favor)

          E o som dela? :) Tive muita, muita sorte. Aposto como vocês iriam babar e com certeza vou preparar algo depois, mas há um detalhe no meu gosto pessoal que é meio estranho: detesto ressonâncias graves ou "timbre gordo" e o ash é desgraçado nessas frequências - mesmo o "bom" ash pode sobrar nos graves. Já toquei em stratos e teles de ash americano que poderiam virar lenha. Quando o ash soa mal - e não dá pra saber antes de montar a guitarra -  ele soa REALMENTE mal.  Ao contrário do alder que via de regra soa quase sempre bem, o ash é 8 ou 80, não tem jeito...

Como não podia deixar de ser, percebi, com cordas 0.10, um pentelho de sobra de graves na 5ª e 6ª cordas - detalhe que muitos de vocês provavelmente adorariam, mas eu tenho alergia. Mesmo a minha excepcional Tele 68 (de hard ash) tem esse problema e eu o solucionei utilizando cordas 0.09 ou, as melhores que existem: um jogo GHS híbrido chamado "GBLXL": na ordem da primeira para a sexta: 10,13,15, 26, 32, 38. Começa com padrão 0.10 e acaba com padrão 0.08! É perfeito para telecaster e resolveu totalmente nessa stratocaster. :). Não há perda de graves, mas sim ganho de definição. Eu descobri esse encordoamento na década de 80, pois a minha Telecaster 74 soava do mesmo jeito que TODAS as minhas guitarras de ash (isso não ocorre na SX de swamp ash, que tem  encordoamento 0.10).

Eu tinha alguns logos que eu mesmo fiz da Fender CS e coloquei pra ver como ficavam. Legal! :)

Pra quem não conhece o blog e tá chegando agora: eu só coloco os logotipos porque é tudo tão "Fender" que a ausência deles fica estranha... Essas guitarras são, se muito, réplicas e não cópias para serem vendidas. Se um dia alguém tentar vender essas guitarras como Fender, o blog estará aqui para desmenti-lo :)

          O trabalho que o Inaldo fez nessa (e em várias outras já postadas) foi, como sempre, excepcional. Ele já conhece as minhas "bardas" de regulagem (ação baixa, ponte colada no corpo), fez um nut (perfeito) de osso e um acabamento soberbo de nitrocelulose. O alinhamento da ponte/corpo/braço eu nunca conseguiria fazer de forma tão exata/inteligente (depois ele mesmo vai explicar). São detalhes que somente quem nasceu com o dom pode fazer.
Optei por deixar os veios do ash bem aparentes - a Fender geralmente passa uma leve camada de verniz semi transparente ou âmbar/laranja por cima pra apagá-los um pouco.

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Próximo post: o "making off" dessa guitarra e de quebra, apresentarei pra vocês (finalmente) o Inaldo :)... Uma palhinha:

INALDO


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Lepo Lepo: caindo na real

Paulo May


          Há uns dois anos não me desligava completamente do meu universo pessoal, protegido pelo acesso selecionado à internet e TV à cabo. Incrível como, ao mesmo tempo que sabemos quase tudo que acontece de importante no mundo, alienamo-nos, na mesma proporção, da realidade crua.

Fui passar a páscoa com minha esposa e nossas duas filhas na casa da minha família em Laguna (SC), aqui perto de Florianópolis. Já sabendo que não teríamos internet e nem TV à cabo, fui de coração aberto e ingenuamente despreparado. Tinha o meu iphone, mas nem pensar em acesso discado, então levei apenas o livro "ACDC - A biografia" de Mike Wall para uma eventual leitura.

A casa tem sido pouco frequentada nos últimos anos e meus irmãos optaram por deixar apenas o básico, incluindo uma TV antiga com um receptor que capta uns 15 canais, todos da TV "aberta" - aquela que, imagino, a maior parte da população brasileira tem acesso.

Choveu e acabei zapeando pelos canais disponíveis. Em 48 horas, fiz um mergulho assustador num Brasil que de fato eu não conhecia, ou melhor, não percebia. Ou melhor ainda, mudou tudo pra pior e eu nem me toquei... Lepo Lepo do Psirico, sertanejo universitário, sertanejo funk, funk carioca, uma porrada de MC's, mulheres masculinizadas, bispos, pastores, televendas... PQP!! Que porra é essa?
Nunca vi tanta picaretagem na vida! Só dava pastor, vendedor esperto (que dá na mesma), mulher rã e cantor sertanejo - todos com o mesmo cabelo e "barba de 5 dias". Sem falar nos MC's tatuados até a orelha cantando - pecado maior - fora do ritmo na maior cara dura. Haja!


Nas primeiras quatro ou cinco horas cismei que provavelmente eu estava fora de sintonia, já que sempre acreditei que a cultura popular tivesse um valor intrínseco, independente do ângulo de análise. Mas não, mesmo respirando fundo e expurgando com sincera vontade os meus preconceitos e gostos, tudo era uma grande e patética merda.


Sou roqueiro por vocação. Mea culpa. Também gosto de soul, blues, funk (americano, please), até disco music e sempre consegui enxergar o valor de outros tipos de música. Isso é verdade de fato porque me peguei em dois atos falhos: Rolando Boldrin cantando uma música sertaneja de verdade e um grupo de samba (também de verdade) foram raros momentos de alívio nesse inferno. Quem diria... Os dois únicos links com o meu universo original.
Já estava esquecendo: também gosto de mulher, mas normal, com hormônios próprios e de preferência com peitos de verdade :)

Tudo bem, se a massa brasileira tá nisso, deve haver algo de bom, honesto e verdadeiro que justifique e talvez eu simplesmente não tenha capacidade, ou idade, ou bondade, o raio que for, de apreciar. Mas essa frase alguém já deve ter dito: "Se isso é o paraíso, por favor, me leve para o inferno" :)

Não quero e nem vou lutar contra. Deixo a deus dará e esse post é o máximo de quixotismo que sou capaz. Consegui algum alívio nesses dias em Laguna lendo o livro sobre a história do AC/DC. O mesmo AC/DC que descobri numa loja de discos em 1977 e me aliviou da invasão "disco" da época (nem de longe o horror dos lepo lepo de agora).

Das poucas convicções que restaram depois dessa avalanche medonha de mediocridade, uma devo mencionar: a energia honesta, orgânica, humana e pura do rock dos irmãos Young (e de tantas outras bandas, pois gosto muito mas não sou fanático pelos australianos) não tem paralelo em nada do que se produz hoje nos estilos populares. O rock atual - se é que ele ainda existe - tá agonizando e me preocupo se os links vitais com suas origens não estão perdidos pra sempre. Vamos ter que aguardar e torcer para que uma nova geração, se deus ajudar, mais humana, inteligente e inquisidora e menos palhaça, ignorante e intoxicada pela lascívia descubra alguns desses valores que estão, num passo lento porém inexorável, sendo esquecidos.

Cheguei em casa e assisti de uma vez só todo o show do AC/DC em Paris em 1979 (com o Bon Scott. é claro) e já consigo respirar melhor. Salve-se quem puder... :)




PS: pra não ficar tudo muito sério: o Rafael Aleixo me lembrou desse ótimo comercial da Kiss FM:



E achei isso também (não fiz a montagem e não abordaria a questão assim, mas tá engraçado pra c......! :) :

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Estradas & Roubadas - Dicas Pra Encarar Shows Ao Vivo

Paulo May


          A ideia desse post foi de um amigo nosso do antigo fórum da Guitar Player, grupo que atualmente se reune no Facebook com o codinome "Boteco dos Guitralhas", o Fabrício Barbosa.

Durante uma discussão sobre o novo sistema "Min-ETune" da Gibson, de afinação automática, alguns acharam que o aparelho é muito caro e talvez desnecessário, mas outros, principalmente os que labutam em shows semanais ao vivo, acharam que esse sistema seria muito útil.
Eu toquei ao vivo durante 13 anos e posso garantir-lhes que guitarra desafinada no meio de um show é um fator de alta periculosidade e muito estressante.



O Min-ETune é uma versão aprimorada do antigo sistema da Gibson. Com o atual, não há necessidade de furar nada (fácil instalação) e o peso é igual ou até menor que 6 tarraxas convencionais, com mínima, senão nenhuma, interferência no timbre.


Além de afinar automaticamente a guitarra, também há presets de afinações alternativas, como as clássicas "G Aberto" (Keith Richards) e "E Aberto" (ótima pra slide). Pra quem toca covers, é uma mão na roda dupla: além da afinação convencional perfeita, podemos alternar as afinações sem ter que trocar de guitarra.
O sistema não é da Gibson e sim da empresa Tronical, que o produz também para guitarras com seis tarraxas em linha, como as Fender  - clique aqui para visitar o site

 Bem, enquanto o preço não abaixa um pouco (cerca de 300 dólares), temos que nos virar com afinadores convencionais. Os novos polifônicos como o Polytune da TC são ideais.


          Nenhuma banda (com exceção é claro das formadas por músicos já famosos) começa gloriosa e auto suficiente. 99% tem que encarar as vicissitudes da estrada e palcos da vida. Em última análise, sobrevivem apenas as que, além do talento, conseguem adaptar-se rapidamente às merdas que vão surgindo. Um "mapa de palco" versátil e adaptável é essencial. pois o objetivo primordial de toda banda deveria ser "soar bem".
De nada adianta ter um puta repertório, próprio ou de covers, estar bem ensaiado, ótimos instrumentos e na hora de mostrar tudo isso, o público ouvir um som horroroso, desequilibrado e até desafinado. Todo mundo começa com um carro velho ou uma Van e, se tudo der certo e deus ajudar (mas nunca deixe tudo por conta dele), pode terminar com um avião próprio :)

 


Algumas dicas para guitarristas (baseadas nas minhas experiências pessoais) para evitar as "roubadas":

1) Tenha sempre um reserva/backup de todo o seu setup: de cabos a guitarras, de pedais a amps. Nem todos podem ter 2 amps e mesmo que tenham, viajar com amps não é fácil. Eu sempre levava comigo um simulador para emergências extremas: amp pifado sem backup ou até mesmo quando o contratante simplesmente não alugava um amp de guitarra! Comecei com o analógico SansAmp e depois o POD. Se TUDO desse errado, eu plugava a guitarra no simulador e ele ia direto pra mesa de som. Recomendo, se possível, simuladores que funcionem também com pilhas (sempre tenha muitas, sobrando)

2) Afinadores: no mínimo 3. Um no palco, de preferência na forma de pedal com mute e true bypass. Nunca pare totalmente o show para afinar um instrumento - no mínimo, combine com o baterista e o baixista pra eles puxarem um groove interessante enquanto afinas. A peteca NUNCA pode cair.

3) Cabos e Cordas - Cabos: no mínimo 6, de diferentes comprimentos. Sempre chequei a continuidade dos cabos antes dos shows, com multímetro. Cabos velhos só têm um destino: lixo.
Cordas: no mínimo 2 jogos de reserva. Evite trocar as cordas no dia do show porque elas precisam de um certo tempo pra estabilizarem bem a tensão.

4) Na passagem de som, nunca perca muito tempo tentando resolver problemas maiores. Tenha sempre um plano "B". Pedaleira com problemas? Amp ruim? Puxe o simulador com os presets que preparaste em casa. Ninguém vai notar que aquele teu solo está sem o delay sincronizado... As pessoas ouvem uma banda e não um solo.

5) Aprenda a identificar o "supérfluo". O palco é pequeno demais? O baterista pode tocar só com um prato de ataque, amps grandes podem ser substituídos por menores, o baixista pode tocar direto em linha, etc. Egos não são importantes e o "som" é tudo.

6) Repertório: o som do PA não tá muito definido? Priorize as músicas mais simples e diretas. Algumas músicas só são legais se o som estiver legal. Esqueça solos e partes complexas. Banda realmente foda é aquela que modifica os arranjos em tempo real, conforme o momento e as condições. Músicas próprias e desconhecidas não são ideais para bares, principalmente quando o som não está perfeito. Tenha sempre na manga um belo naipe de covers ultra conhecidos, porque se o PA estiver uma merda, a memória musical do público pode compensar o que falta.

7) Guitarra: ela é a sua arma, decisiva e fundamental. Uma guitarra "de estrada" tem que ser 100% confiável o tempo inteiro. Durante muitos anos tive apenas duas guitarras, uma Telecaster Custom de 1974 (backup) e uma Telecaster de 1968. Quando adquiri a 68, em 1989, levei-a para a estrada e em menos de 3 meses o captador da ponte morreu. Sem dó nem piedade, coloquei um Seymour Duncan Hot Rail (humbucker) no lugar do falecido. Perdeu totalmente o timbre vintage, mas ficou silenciosa e com agressividade sobrando, versátil e muito mais confiável (hoje ela está com o timbre mágico vintage novamente). Se tivesse que tocar ao vivo novamente, jamais levaria a Tele 68, 74 ou a Gibson 81 ou a Gibson CS 2013. Só se fosse num teatro, com excelente sonorização.
Hoje, levaria essas duas guitarras:

Clique para saber mais
**) - PRS SE Custom 22: Tarraxas Planet Waves Auto Trim Lock (as mais rápidas para troca de cordas) e timbres que vão do metal ao jazz. Braço magnífico, perfeito.


Clique para saber mais
**) - Telecaster Custom de freijó. Só falta trocar as tarraxas Grover por Planet Waves e ela tá pronta pra qualquer roubada :)

Todos os captadores são do Sérgio Rosar (ele não faz caps de braço de tele, mas rebobinou esse pra mim). Strato? Complicado... 3 single coils, ruído, exigentes com amps... Uma strato HSS seria até viável e tenho umas duas assim, mas...  :)
Adoro o som de captador single coil (P-90 incluído), mas os singles são ruidosos por natureza e acho que utilizá-los em shows comuns, com equipamentos de terceiros, é um risco desnecessário e detesto arriscar. Levar uma guitarra com P90 para um show sem garantias é praticamente uma roleta russa - haja coração! :)

8) Essa aqui eu acabei de roubar do Ari Herstand no ótimo texto "10 coisas que vocês jamais devem dizer no palco". A mais importante:
"Estamos tendo problemas técnicos"
Mesmo se a sua guitarra tenha acabado de pegar fogo. Bem, na verdade, seria hilário se você dissesse isso numa hora dessas. Mas quando as bandas embaraçosamente admitem isso ao microfone, é bastante desconfortável a broxa geral. Problemas técnicos são sua culpa. Mesmo quando não o são. É seu palco. E é seu show. Você deveria conhecer seu equipamento de olhos fechados. Se algo está falhando ou apitando ou dando microfonia, você deveria saber identificar de pronto o que é e poder saná-lo em 13 segundos ou saber como deduzir rapidamente do que se trata.
É sua tarefa, como performer, comandar a atenção de todos na casa do começo ao fim.

9) Lembre-se: vocês estão tocando para uma plateia que quer diversão e não para críticos musicais ou diretores de gravadoras. Primeiro agrade a plateia, depois, se houver espaço, o seu ego.

10) O mais importante: quando os shows tornam-se apenas compromissos e o prazer de tocar guitarra acaba, é hora de de parar!

O Billy Gibbons tá cheio de dinheiro e já poderia ter parado há muito tempo, mas sua paixão pela música e guitarras ainda é de dar inveja :)



domingo, 30 de março de 2014

Fender 5E3 - The Tweed Deluxe

Oscar Jr.

          Lá pelos idos de 1940 Leo Fender trabalhava na concepção de algo que pudesse amplificar o som da guitarra elétrica e continuasse o mais limpo possível mesmo em volumes mais altos. Pensando como engenheiro da época (imagine-se em 1948), seria lógico pegar o circuito amplificador de um rádio valvulado e transformá-lo/adaptá-lo em algo que pudesse pegar o sinal do captador magnético da guitarra e amplificá-lo através de um alto-falante. Nascia aí o primeiro dos amps da famosa "Era Tweed" dos amps Fender, o Tweed Deluxe.
Fender 5E3 Tweed Deluxe
A primeira leva era conhecida como "Wide Panel TV" por ter visual semelhante a uma TV da época (alguém já leu a expressão TV yellow? :-) ) e tinha os circuitos 5A3, 5B3, 5C3 e 5D3 entre os amps de 1948 e 1952.  A concepção do amp (assim como tudo o que Leo Fender fazia) era extremamente simples. Sem entrar em detalhes técnicos, ele apresentava 2 entradas sendo que cada uma tinha um volume independente e ambas dividiam um mesmo controle de "tone". Uma das entradas era para um microfone de voz e outra para a guitarra e o objetivo era que o guitarrista/cantor pudesse equiparar o volume da bateria para uma apresentação ao vivo amplificando a guitarra limpa. O que Leo Fender não imaginava era que o Tweed ficaria famoso justamente pelo som que produz quando o volume aumenta além do que as válvulas 6V6 suportavam produzindo o que é talvez um dos timbres distorcidos mais famosos de guitarra. Larry Carlton, Billy Gibbons, Don Felder e Keith Richards estão entre alguns dos nomes que usaram e ainda usam o 5E3 nas suas gravações. Os primeiros albuns do ZZ Top registram timbres magníficos do 5E3 Deluxe junto com Pearly Gates.

Meu interesse no 57 Deluxe começou mais ou menos na mesma época dos PAFs quando descobri que   o clássico do ZZ Top - Brow Sugar foi gravado com um 5E3, assim como La Grange e outros tantos clássicos do grupo liderado pelo reverendo Billy Gibbons.


Esse timbre, essa resposta dinâmica, a impressão que tenho quando ouço essa música (principalmente a introdução) é que Gibbons tem o timbre sob seus dedos o tempo todo. Altera a palhetada e a pegada a todo momento para conseguir texturas e derives de diversas cores de acordo com o que deseja. Os PAFs e a Pearly Gates são parte da fórmula, mas o amp também é fundamental. A explicação técnica no caso do 5E3 é que se trata de um amplificador com algumas características da arquitetura "Classe A", conhecidos pela extrema resposta dinâmica tanto da palhetada como do volume da guitarra, assim como o VOX Ac-30 por exemplo entre alguns outros. (PS: Na verdade o VOX AC30 não é um "CLASS A" puro, mas sim um híbrido com apontamentos de Class A e Class AB para melhor desempenho. Segundo o John nos comentários, o Deluxe 57 entra também nessa categoria. Eu realmente preciso estudar mais um pouco pra entender 100% o que isso significa )

Controles simples do 5E3 Deluxe
Pois bem, como conseguir esse timbre nos dias de hoje? O circuito do 5E3 é relativamente simples e fácil de ser copiado, mesmo por que o esquemático é amplamente divulgado e conhecido na internet. Algumas marcas fazem clones idênticos e outras usam a arquitetura básica e adicionam alguma mágica pra extrair novas texturas como por exemplo o Bogner Lafayete , mas aqui no BR era quase impossível encontrar algo parecido com isso (parece que a Serrano amps faz um clone do 5E3). Eu mesmo nunca tinha tido a oportunidade de tocar em um até muito pouco tempo atrás, mas quando apareceu foi amor a primeira vista. 


Ano passado o Luciano da Garagem Instrumentos aqui de Ctba me ligou dizendo que havia comprado um lote de "ponta de estoque" da Pride (importadora oficial da Fender no Brasil) e que iriam chegar algumas coisas que eu talvez fosse gostar. Conheço o Luciano há muitos anos. Recentemente ele resolveu abrir sua própria loja e conhecendo o bom gosto dele já sabia que só viria coisa boa por aí. Pois bem, quando fui na loja ele havia acabado de receber o carregamento e dentre as coisas estava simplesmente um Fender Custom Shop 57 Amp. 


O impacto visual é impressionante nesse amp, e eu mesmo não conhecia até vê-lo pessoalmente. Fui pesquisar.... Descobri que a Fender relançou o Deluxe em 2007 com dois modelos Custom Shop. Um deles é o original Tweed, com todos os atributos e especificações do original e um segundo modelo "hot rodded" que é o 57 Amp. 


O conceito da Fender nesse amp foi tentar imaginar o que Leo Fender faria se fosse idealizá-lo como um amp "Boutique", ou seja, com tudo o que se tem de melhor mantendo as características clássicas. Pra isso, convocaram o designer industrial Shawn Greene que junto com o engenheiro de design Nick D'amato e o diretor de marketing Shane Nickolas desenvolveram e chegaram nesse design maravilhoso. O gabinete é em maple sólido com acabamento de "piano lacquer", a grade frontal tem design baseado nos antigos Cadillacs dos anos 60, a alça de alumínio e o painel cromado com knobs personalizados... São alguns detalhes que já fazem valer o visual do Amp como se pode ver nas fotos.  


Nas especificações técnicas, o 57 amp é todo feito manualmente (hand-wired) ponto a ponto, equipado com transformadores Mercury Magnetics especialmente desenvolvidos para o projeto, falante Celestion Alnico Blue, 2 válvulas 6V6 no power, 2 12Ax7 no preamp e uma 5Y3 retificadora garantem ao 57 Amp toda a sonoridade do clássico circuito 5E3 com um toque de modernidade. Tem um pouco mais de ganho e soa mais "na cara" que seu irmão Tweed. Uma verdadeira obra de arte. 

Abaixo um vídeo a apresentação dos dois modelos na NAMM de 2007 com Shane Nickolas:


Quando toquei com ele me apaixonei.... Com certeza o amp mais dinâmico e responsivo que já tive/toquei até hoje. Incrível. Não preciso nem dizer que trouxe o amp pra casa e sim vou graver algo com ele pra vc`s ouvirem e atualizo o post aqui. Gravo com LesPaul, Tele e Strato pra terem uma idéia das diferentes respostas do amp. Fiquem ligados que essa semana ainda sai.




PS: Fiz um negócio excelente com o Luciano pois ele pegou esse amp num lote de equipamentos que a Pride estava liquidando como ponta de estoque (esse em especial estava com preço bem abaixo por ter sido usado no stand da importadora na ExpoMusic) e nem deixei ele expor na loja. Quem quiser conhecer a Garagem pode procurá-los no Facebook . Eles sempre postam novidades e volta e meia tem peças como essa de ponta de estoque com preço bom e ótimas condições. Sempre bom conhecer lojas e lojistas qe entendem do que fazem e são tão malucos por instrumentos quanto nós!






quarta-feira, 26 de março de 2014

Monte sua própria Fender

 Paulo May

:)
É claro que vamos ficar só na vontade... Com os impostos brasileiros nem pensar em comprar uma dessas, mas é divertido demais escolher as partes e montar uma tele ou uma strato como se estivéssemos na loja da Fender Visitor Center. Clique nas fotos para entrar na página original.

http://www.fender.com/en-BR/american-design/instruments/


http://www.fender.com/en-BR/american-design/configurator/


O C. F Apparício sugeriu um link também muito interessante: CLIQUE
Semelhante a esse da Fender. Pena que a versão disponível seja um pouco limitada.

sábado, 15 de março de 2014

George Gruhn

Paulo May


          Manter o blog ativo não tá fácil... Se eu não tivesse que responder tantas perguntas diariamente, com certeza teríamos posts com maior frequência. Não que eu não goste disso - é legal e mostra que o blog é interessante, mas definitivamente consome tempo e energia.
E quando coincide com os períodos em que o Oscar fica sem tempo, aí...
Até tenho algumas ideias e rascunhos separados, mas desde o primeiro post aqui, sigo a regra pessoal de só postar quando sentir que o assunto é legal, instiga a imaginação ou traz alguma novidade relevante, como é o caso desse post sobre o especialista em instrumentos vintage George Gruhn.

George Gruhn na frente de sua loja em Nashville (2011).

Há dois dias resolvi jogar fora quase toda a minha coleção da revista Guitar Player brasileira (nem me perguntem por que) e no meio delas me deparei com várias GPs americanas que eu tenho guardadas desde os anos 80. Essas não tive coragem de jogar fora e ontem peguei uma aleatoriamente pra ler (GP de março de 1985) com uma Les Paul sunburst na capa, como essa:


          PQP! Acho que há mais de 20 anos não a lia e me lembrei de quase tudo da época, principalmente um artigo (Sunburst Gallery) do George Gruhn (ele tinha uma coluna fixa na revista) sobre as Les Pauls Sunburst clássicas, de 58-60. Ao ver as fotos de várias burst maravilhosas, me lembrei nitidamente da sensação que tive na época e compreendi porque não me impressionei. Estávamos em 1985 e o senso estético era absolutamente distinto do atual (hoje não há tanto foco na moda - ou são múltiplos focos, penso eu), com aqueles exageros dos anos 80 refletidos nas guitarras. Todo mundo só falava em Kramer, Ibanez, Jackson, enfim, nas "super guitarras" e, naquele contexto, as bursts clássicas com seus tops figurados pareciam... Sim, exatamente isso, velhas e "bregas"! :)

Eu ainda tinha um segundo motivo pra justificar tal desprezo: na época havia tocado em duas Les Paul "novas" e as tinha achado muito ruins, principalmente pela falta de dinâmica e ataque dos captadores. Eram Les Pauls de 1984 ou 85, mas na minha cabeça era tudo a mesma coisa. Em 1983, pra ser justo, toquei uma Les Paul 1958 original com PAFs e essa me impressionou pelo timbre, fabuloso e cortante como uma tele, porém o braço era estupidamente gordo (1958...) e lento se comparado com os braços modernos da época e até com a minha Tele de 1974. Me lembro nitidamente desse dia e do que pensei: "Puta timbre, mas esse braço gordo é inviável"... :)
Entendido isso, reli todo o texto de George Gruhn e fiquei impressionado com o conhecimento que ele tinha. Deu pra perceber que Gruhn foi referência pra vários livros publicados desde então. Mas o mais interessante de tudo é quando ele mencionou que "o preço de uma sunburst, principalmente com top de curly maple, pode chegar (em 1985) a absurdos 14.000 dólares!" KKK! Mal sabia ele que haveria uma escalada monumental de preços entre 1998 e 2007 e algumas dessas guitarras chegariam perto de meio milhão de dólares!
Hoje o mercado deu uma esfriada, mas as 59 ainda estão na faixa de 200-300 mil. E ele acompanhou tudo desde o tempo que elas custavam 200 dólares :)

George Gruhn começou a colecionar e vender violões e guitarras na década de 60 e nunca mais parou. Adquiriu tanto conhecimento que já é uma lenda viva na história desses instrumentos. Pra quem se vira no inglês, seguem dois links com excelentes entrevistas de Gruhn: CLIQUE-1 e CLIQUE-2

Pra quem sofre com o inglês, coloquei legendas num vídeo onde George Gruhn dá uma "palhinha" sobre as bursts:

Obs: George esqueceu de mencionar que a Gibson mudou o tipo de pigmento vermelho no final de 1959, por isso a maioria das Les Pauls feitas em 1960 ainda mantém boa parte da cor original. As 58 e 59 são quase todas "desbotadas", apresentando tonalidades diversas que hoje em dia têm inclusive "nomes" como "honey burst", "lemon burst", etc. Mas todas (com exceção de raras originais em Tobacco Burst, de 1959) eram pintadas originalmente com um degradê de vermelho cereja para amarelo no centro.

          Alguém pode estar questionando agora onde está a "novidade" que eu mencionei no início do post, pois tudo aqui é passado... :). Pois bem, a novidade - e pode ser só pra mim, tudo bem -  é a perspectiva do conceito "Les Paul" ampliada até os anos 80. Olhando para o passado conseguimos entender melhor o presente.

Observando a sabedoria de Gruhn descobri também que eu era um guitarrista "utilitátio" e mudei para "colecionador" há uns 6 ou 7 anos. O que me fez mudar? Provavelmente no dia em que resolvi entender a física e construção do instrumento que eu tocava. Foi como sair da "Matrix": de repente eu conseguia ver e apreciar coisas que sempre estiveram presentes mas eram invisíveis para mim. Durante mais de 20 anos fui absolutamente utilitário (embora a minha primeira guitarra digna tinha que ser uma Tele Fender e viajei de carro até SP só para comprá-la) - já contei aqui como depredei o valor histórico da minha Telecaster de 1968 sem o mínimo remorso (na época, agora fico aterrorizado :) ).
Hoje acho que sou mais "Colecionador", mas o lado utilitário ainda é forte. Se tivesse que tocar num show ao vivo agora, das quase 40 que tenho, levaria apenas duas guitarras: a PRS SE Custom 22 e a Telecaster de Freijó. Nenhuma das duas tem qualquer pedigree digno de nota, mas são guitarras absolutamente práticas, confiáveis e funcionais - além de soarem muito bem.

George Gruhn diz que há 3 tipos de compradores de guitarra: o "Utilitário", que quer um instrumento prático e funcional, não se preocupa com detalhes ou marcas e não gosta de gastar muito. Há também o "Colecionador", que foca nos detalhes, originalidade e valor histórico e pode gastar muito num instrumento, às vezes impetuosamente. Por último, o execrável "Mercantilista", que adquire apenas com objetivo lucrativo. Os dois primeiros criam um vínculo com seus instrumentos, enquanto o último é basicamente um mercenário :).

George Gruhn (foto dos anos 70).
Ele vende e sempre vendeu instrumentos como meio de vida, mas continua apaixonado e fascinado por eles... Assim como nós :)